Primeiro dia de aula: quando a dor da separação afeta as mães

Muitas mães sofrem mais que os filhos na hora da criança ir para a escola. Aprenda a superar o aperto no coração ao desejar “boa aula”

Livia Valim, especial para o iG São Paulo |

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A criança vai enfrentar um desafio – e precisa da segurança materna ao encarar os primeiros dias na escola

Depois de passar meses ou mesmo anos se dedicando exclusivamente ao bem estar do seu filho, é natural que distanciar-se dele, ainda que temporariamente, provoque dor. Pensar que ele vai sobreviver sem seu olhar atento parece pouco provável. O desafio de começar a frequentar uma escola ou creche é enorme para ele e para você – mas a mãe, adulta, é quem tem que segurar a onda. Tenha em mente que colocar a criança na escola vai fazer bem pra você – que terá tempo pra cuidar de si ou voltar a trabalhar – e para ela – que vai crescer com a experiência. “Conhecer e socializar com novas crianças e adultos é muito benéfico e faz parte do desenvolvimento infantil”, lembra a psicóloga e psicopedagoga Ana Paula Leão Batista, professora da Universidade do Alto Vale do Itajaí (SC).

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A modelista Daniela Sanchez chorou por dias quando teve de deixar o primogênito Pedro, 5 anos, aos 7 meses de idade. “Adiei o quanto pude. Mas assim que ele parou de mamar no peito, tive de voltar a trabalhar e o coloquei na escola em período integral”, conta. Mesmo com o período de adaptação oferecido pela escola, as primeiras semanas foram de muita tristeza e ligações frequentes para saber tudo o que estava acontecendo com o filhote. “Pensei seriamente em desistir de trabalhar pra ficar com ele. Mas sabia que ele se desenvolveria melhor com o convívio social”.

A situação piorava porque Pedro frequentemente adoecia, o que é comum em bebês que começam a ter contato com outras crianças . “A criança tem a imunidade da mãe, adquirida durante a gravidez e a amamentação. Para criar sua própria imunidade, ela precisa ter contato com vírus, bactérias e fungos. E este contato pode adoecer os bebês”, explica o pediatra Sylvio Renan, especialista da Sociedade Brasileira de Pediatria. Levou um ano para Pedro fortalecer suas defesas – e Daniela se acostumar com a separação.

Quando foi a vez da segunda filha, Ana Laura, hoje com 3 anos... aconteceu tudo de novo. “A gente já sabe como é, mas o sofrimento é o mesmo. Ela foi para o berçário aos 4 meses. Mas saí do emprego e virei autônoma pra poder trabalhar só 3 vezes por semana”. Apesar da angústia, por experiência própria a modelista concorda com a psicopedagoga: quanto antes a criança vai para a escolinha, melhor. “Percebo que a Ana Laura, que foi antes, é bem mais independente que o Pedro, que demorou um pouco mais”.

A poetisa e pedagoga Paula Belmino também aprendeu com muito choro que esta fase é importante para a criança crescer, amadurecer e conviver com outras pessoas. “Tive de deixá-la no berçário aos 4 meses, pra voltar a trabalhar. Sentia-me angustiada, não trabalhava tranquila e ainda sentia medo de que ela não fosse bem cuidada, alimentada e tivesse o carinho adequado que uma criança precisa ter”. Paula fez questão de nunca passar a insegurança para a pequena Alice, que hoje tem 4 anos. Mesmo quando percebeu que sua insegurança já tinha virado ciúme. “Ao chegar na escola ela nem me dava “tchau”, corria para os braços delas e eu ficava triste”, confessa a mãe. “Mas depois percebi que, se ela estava agindo assim, era por que amava o lugar em que estava”.

Confie no tempo

Dedicar-se ao trabalho ajuda a ocupar a cabeça e dá menos espaço para fantasias. Para aquelas mães que não trabalham fora, vale arrumar algo prazeroso para fazer nas horas que o filho estiver na creche ou escola. Pode ser uma academia, um curso ou até trabalho voluntário. Outra forma de controlar a ansiedade é revezar com o pai a carona pra escola. Afinal, no começo, o momento de deixar o pequeno é bastante conturbado. Ligar uma vez ao dia para a escola para saber como está o filho também ajuda a se acalmar e vai criando confiança e vínculo com a instituição. “Mas esta regra vale apenas para o período de adaptação”, ressalta Ana Paula.

Conversar com outras mães pode ser um santo remédio. Você vai descobrir que não é a única que está passando por isso e, o mais importante, que esta fase vai acabar – como contaram Daniela e Paula. Não aproveite a primeira manha da criança para desistir de tudo e levá-la pra casa. É normal que os pequenos fiquem chorosos no começo, mas o drama não costuma durar mais que 10 minutos.

O sentimento de culpa por voltar a trabalhar e deixar o filho assola a maioria das mulheres que estão no mercado e é outra fonte de angústia neste período. “Costumo falar para as mães que o jardim de infância serve pra preencher o vazio que se criou depois que as famílias ficaram menores e os espaços ao ar livre diminuíram. Na escolinha é recriada uma família grande, com várias crianças e quintal para brincar”, diz Sylvio Renan. Fazer o filho feliz é o melhor incentivo pra deixar o sofrimento de lado, não? Afinal, não é toda mulher hoje em dia que pode se dar ao luxo de ter muitos filhos para fazer companhia uns aos outros. E eles precisam da convivência.

Ajuda da escola

A escola tem papel fundamental nesta fase de adaptação. E os profissionais têm um faro apurado para detectar as mães que podem dar mais trabalho que os filhos. “Já percebo na entrevista da matrícula quando as mães estão com dificuldades. Por isso, na primeira semana deixamos os pais ficarem na escola com a criança, para verem como eles são tratados”, conta Rosemary Sertório, orientadora educacional de ensino infantil do Colégio Rio Branco (SP).

No começo, algumas escolas costumam mandar notícias por e-mail e outras até disponibilizam câmeras ao vivo para acompanhar o dia do filho. Para as mães que ainda não precisam trabalhar, é possível fazer uma adaptação gradativa, onde o tempo de permanência da criança na escola vai aumentando até chegar no período desejado.

Passe segurança

A criança que percebe o sofrimento e a insegurança da mãe vai ter dificuldade pra se separar e se adaptar ao novo ambiente, além de sentir medo do abandono e insegurança. Afinal, por que ela está chorando se vem me buscar daqui a pouco? Portanto, controle seus sentimentos pelo bem maior.

Se ele já tem idade para entender, converse bastante sobre a escola antes de matriculá-lo, sempre falando sobre o lado positivo e contando como primos ou irmãos mais velhos se divertem lá. Depois de escolhido o lugar, leve seu filho para conhecê-lo. Assim ele vai criando um vínculo com o espaço e as pessoas.

“A mãe deve falar das vantagens de estar com novas crianças, fazendo novos amigos; interessar-se pelo dia na escola e elogiar como o filho está crescendo e aprendendo coisas novas, legais e importantes”, enumera Ana Paula. Desta forma, ele terá certeza de que mesmo ausente continua sendo muito amado. E, em poucos meses, o aperto no coração na hora de deixá-lo com as professoras desaparece.

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