Segundo estudos, os benefícios de enfrentar o perigo oferecido pelos brinquedos do parquinho compensam o risco de acidentes

Crianças brincam em Nova York. Para estudo, ansiedades e medos decorrentes de evitar o perigo são piores do que um osso quebrado
Barton Silverman/The New York Times
Crianças brincam em Nova York. Para estudo, ansiedades e medos decorrentes de evitar o perigo são piores do que um osso quebrado
Quando gangorras, escorregadores altos e outros perigos estavam desaparecendo dos playgrounds de Nova York, Henry Stern marcou uma linha na caixa de areia. Como comissário dos parques da cidade nos anos 1990, ele promulgou um decreto relacionado ao trepa-trepa de 3 metros de altura perto da casa onde passou a infância no norte de Manhattan.

“Cresci nas barras do Fort Tyron Park e nunca me esqueci de como era bom ficar no topo delas”, disse Stern. “Não queria ver o playground ser censurado. Disse que enquanto fosse comissário dos parques, aquelas barras ficariam lá”. Sua filosofia parecia reacionária na época, mas hoje é compartilhada por pesquisadores que questionam o valor de playgrounds que priorizam muito a segurança. Mesmo que crianças se machuquem menos – e a evidência disso é discutível – críticos dizem que esses playgrounds podem limitar o desenvolvimento emocional, deixando-as com ansiedades e medos que são muito piores que um osso quebrado.

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“Crianças precisam se deparar com riscos e superar os medos no playground”, disse Ellen Sandseter, professora de psicologia na Queen Maud University, na Noruega. “Acho que barras e escorregadores altos são ótimos. Com os playgrounds se tornando cada vez mais entediantes, essas são algumas das atrações que ainda podem dar experiências emocionantes com alturas e altas velocidades às crianças”.

Categorias de risco

Após observar os pequenos em playgrounds na Noruega, Inglaterra e Austrália, Sandseter identificou seis categorias de brincadeiras de risco: explorar alturas, vivenciar alta velocidade, manusear ferramentas perigosas, estar perto de elementos perigosos (como água e fogo), atividades de conflito (como lutas), e vagar sozinho longe da supervisão de um adulto. O mais comum é escalar alturas.

“Equipamentos de escalada precisam ser altos o suficiente ou então serão entediantes com o tempo”, disse Sandseter. “Crianças abordam emoções e riscos de uma maneira progressiva e pouquíssimas tentariam escalar para o ponto mais alto na primeira vez que escalassem. A melhor coisa é permitir que crianças encontrem esses desafios em uma idade precoce e elas aprenderão então a dominá-los por meio de suas brincadeiras com o passar dos anos”.

Às vezes, é claro, seu domínio falha, e quedas são uma forma comum de se machucar no playground. Mas elas raramente causam danos permanentes, seja psicológica ou emocionalmente. Se por um lado alguns psicólogos e muitos pais se preocupam que uma criança que sofra uma queda séria desenvolva medo de altura, estudos mostraram um padrão oposto: uma criança que se machuca em uma queda antes dos 9 anos possui uma menor probabilidade de ter medo de altura na adolescência.

Domínio de fobias

Ao se exporem gradualmente a mais e mais perigos no playground, crianças estão usando as mesmas técnicas de habituação desenvolvidas por terapeutas para ajudar adultos a terem domínio sobre fobias, de acordo com Sandseter e com o também psicólogo Leif Kennair, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia.

“Brincadeiras arriscadas espelham eficazes terapias cognitivas e comportamentais para a ansiedade”, escrevem eles no jornal Evolutionary Psychology, concluindo que este 'efeito antifobia’ ajuda a explicar a evolução desse gosto por buscar emoções que as crianças têm. Os perigos parecem ter sido compensados pelos benefícios de dominar o medo e desenvolver um senso de domínio.

"Paradoxalmente”, escrevem os psicólogos, “afirmamos que nosso medo de crianças se machucarem com ferimentos inofensivos pode resultar em crianças com mais medo e maiores níveis de psicopatologia”.

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Mais segurança = mais risco

O antigos e altos trepa-trepas e escorregadores desapareceram de maioria dos playgrounds norte-americanos em décadas recentes devido a preocupações de pais, diretrizes federais, novos padrões de segurança estabelecidos por fabricantes e – o fator citado com mais frequência – medo de processos judiciais.

Equipamentos mais baixos com plataformas embutidas foram introduzidos e o antigo concreto foi substituído por borracha, lascas de madeira e outros materiais desenvolvidos para quedas mais suaves. Tais inovações indubitavelmente evitaram alguns machucados, contudo alguns especialistas questionam seu valor como um todo.

“Não há evidências claras que as medidas de segurança em playgrounds tenham diminuído o risco médio”, disse David Ball, professor de gerenciamento de risco na Universidade de Middlesex, em Londres. Ele notou que o risco de alguns acidentes, como longas fraturas de braço, na verdade aumentaram após a introdução de superfícies mais macias em playgrounds na Grã-Bretanha e na Austrália.

“Pode soar incoerente, mas não deveria, pois é um fenômeno comum”, disse Ball. “Se crianças e pais acreditam que estão em um ambiente mais seguro do que realmente é, assumirão mais riscos. Um argumento contra superfícies mais macias é que crianças acham que é seguro, mas por não entender suas propriedades, superestimam seu efeito”.

Prós e contras

Mesmo assim, às vezes não há nada como estar a 3 metros do solo, como a nova geração estava descobrindo uma tarde dessas no Fort Tyron Park. Uma superfície macia de borracha cobria o piso, porém o trepa-trepa da infância de Stern ainda estava lá. Era o destino favorito para muitas crianças, incluindo aquelas que nunca haviam visto um.

Como Nayelis Serrano, uma menina de 10 anos que estava visitando seu primo.
Quando chegou à metade do caminho, no terceiro nível de barras, ela parou, como se já estivesse alto suficiente. Então, após consultar a mãe, continuou até o topo, o quinto nível, e desceu para contar sua façanha.

“Estava com medo no começo”, explicou ela. “Mas minha mãe disse que se eu não tentasse, nunca saberia se teria conseguido. Então arrisquei e continuei subindo. No topo, me senti muito orgulhosa”. Ao voltar para outra escalada, sua mãe, Orkidia Rojas, observava de um banco, analisando os prós e contras desse equipamento estranho.

“É divertido”, disse ela. “Gostaria de tê-lo no nosso playground. Por que não? É um pouco perigoso, eu sei, mas se você pensar só no perigo não vai conseguir ir adiante na vida”.

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