Diferenças na forma de sentir e viver o luto prejudicam a comunicação e podem por fim à união

Além das dificuldades inerentes ao processo de perda de um filho, seja ela após a gravidez ou durante ela, o casal ainda precisa lidar com a distância que pode se instaurar na relação. Não é a toa que, segundo estudos norte-americanos, o número de divórcios entre casais que passaram pela perda de um filho chega a 80%.

De acordo com o levantamento, casais que passaram por um aborto (perda do feto até 20 semanas de gestação) tinham 22% mais chances de se separar do que aqueles que tiveram o filho. O número cresce para 40% entre casais que perderam um bebê ainda no ventre (após 20 semanas de gestação, quando é considerado natimorto) ou depois do nascimento (até o primeiro ano de vida). O estudo foi realizado pela médica Katherine Gold, da Universidade de Michigan, com mais de 3400 mulheres, e publicado no Pediatrics, jornal oficial da Academia Norte-Americana de Pediatria.

“O problema mais central é a comunicação”, afirma a psicóloga Gabriela Cassollato, do Instituto Quatro Estações, especializado no luto. Homens e mulheres têm formas distintas de expressar sua tristeza. E é nessa hora que o ruído acontece. “Em geral, os homens têm um estilo mais objetivo: diante do sofrimento, eles fazem coisas. As mulheres sentem, ficam nas emoções. O simbolismo é diferente para cada um. Quando o casal está lidando de forma oposta, o luto de um agride o luto do outro”, afirma.

Nas reuniões para pais em luto realizadas no Centro de Apoio à Saúde da Mulher (CAISM), da Unicamp, o casal pode expor suas dúvidas, mas a equipe médica também está lá para ajudar a família a se restabelecer. “É muito bom que pais e mães vejam que outros estão passando pela mesma situação. Eles têm entendimentos diferentes, estão sentindo de maneira diferente. O pai se faz de forte, a mãe acha que ele não liga, que ele não está sofrendo. Mas ele está, só que da maneira dele”, relata Jussara Lima e Souza, coordenadora da UTI neonatal.

A psicóloga relembra o caso de um casal que passou por várias fertilizações e perdeu três bebês, em fases iniciais da gravidez. Na igreja que frequentavam, pediram para que todas as mães levantassem a mão. Sem titubear, a mulher levantou. O marido ficou bravo. “Ela, apesar de não ter o filho, se sentia mãe. Mas ele via aquilo como um fracasso que não deveria ser exposto”, relata.

Luz no fim do túnel

Paula e Israel Mor, que perderam a filha Carolina quatro dias após o nascimento , conseguiram se reerguer e se reestruturar. Não foi fácil, mas compreensão foi a palavra chave que ajudou o casal. “A maior dificuldade para um casal que perde um filho é conseguir olhar para o outro sem que a as semelhanças físicas façam a dor aumentar. A minha própria tendência, passados os primeiros dias, era de evitar olhar para o rosto dele. E quando me dei conta, eu sabia que tinha que falar. Da mesma forma que via a nossa filha espelhada nos traços dele, ele a via espelhada nas outras tantas semelhanças entre eu e ela. Depois dessa conversa, consegui expor as minhas culpas, que até hoje não são poucas", relata.

“São inúmeros exemplos de pequenas coisas que poderiam não ter sido ditas, e que tornariam a nossa convivência após a pior fase da dor insuportável” O casal também criou um blog no qual faz desabafos e relatos sobre o dia a dia sem a primeira filha , o que trouxe uma nova forma de comunicação entre os dois. 

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