Pastores mirins veem trabalho missionário como vocação

Pais dizem que filhos são “pequenos milagres” e trabalho não atrapalha. Para psicólogos, exposição precoce pode ser prejudicial

Tatiana Gerasimenko, especial para o iG São Paulo | 02/10/2011 12:44

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De terno, gravata e olhar sério. É assim que Matheus Moraes, 13 anos, divide as atividades escolares, brincadeiras, aulas de música e partidas de futebol com algo que considera muito mais importante. Ele é um dos precoces pastores mirins que estão tomando os púlpitos de igrejas evangélicas, crianças que se destacam pela desenvoltura da fala, surpreendem com a capacidade de raciocínio rápido e boa memória, e se tornam quase que imediatamente responsáveis pela conversão de centenas de fiéis.

Foto: Arquivo pessoal

Matheus, 13 anos, prega para centenas de fiéis: "tenho uma vida normal, como de qualquer criança"



Como Matheus, a estudante Ana Carolina Dias, hoje com 17 anos, foi uma das primeiras crianças a se tornar pregadora no Brasil. Iniciou sua carreira aos quatro. Aos sete, um vídeo em que aparece pregando foi publicado no Youtube, virou funk e bateu recorde de audiência. A postagem original foi vista quase 2 milhões de vezes. A “Menina Pastora”, como ficou conhecida, permanece na igreja até hoje. Além de pregar quase diariamente para centenas de fiéis, participa de congressos e eventos em todo o País. Paralelamente, estuda Física na Universidade Rural do Rio de Janeiro.

Os dois, filhos de pais evangélicos, são considerados pedras preciosas para as igrejas. Colocados à frente das pregações, sensibilizam centenas de fiéis e mantêm uma agenda lotada. Matheus, por exemplo, já gravou 30 DVDs com louvores e cantos, à venda em seu site. Acumula as funções de pastor, cantor e estudante. Viagens são rotina em sua vida.

Da mesma forma, Ana Carolina conheceu a Europa para pregar e atualmente coordena a vida particular com inúmeras funções na igreja. Mas o que desperta orgulho na família e faz sucesso nos púlpitos das igrejas também causa apreensões, especialmente de psicólogos. Afinal, a responsabilidade de mobilizar multidões frequentemente pode pesar, embora na maioria das vezes o talento destas crianças seja encarado meramente como uma vocação, e não obrigação.

Foto: Arquivo pessoal

Ana Carolina pregando em foto recente...

Foto: Arquivo pessoal

... e na época em que virou celebridade na internet

Filho de peixe

Francinete Moraes fez cirurgia para não engravidar após dar à luz seu terceiro filho. Mesmo assim, depois de 13 anos, teve Matheus. Ainda bebê, o menino ficou em coma em função de problemas respiratórios e, durante o período, a família se debruçou em súplicas e orações. Para eles, sua sobrevivência foi um milagre e seu pai, Juanez Moraes, frequentador da Assembleia de Deus, virou pastor. Três anos depois, era Matheus que, ainda sem saber falar todas as palavras, pregou na igreja pela primeira vez. “Lembro perfeitamente: foi na cidade de Estrela Dalva, no interior de Minas Gerais, eu nem sabia falar direito”, conta o menino. Aos seis anos, já era reconhecido como um pequeno missionário.

A história de Carolina é semelhante. Quando tinha apenas três anos, teve uma inflamação que afetou seu intestino e garganta. Ficou internada durante dez dias e, segundo o pai, o pastor Ezequiel Dias, foi desenganada pelos médicos. “Ela faleceu em meus braços, até que orei a Deus e a Carolina voltou à vida. E voltou servindo a esse Deus”, diz ele, que fala pela filha e cuida de todos os seus interesses. “Mesmo falando errado, pois era criança, pregava a Palavra”. Desde então, Carolina nunca mais deixou de pregar. Ezequiel garante não ter havido pressão familiar e afirma que a menina jamais teve problemas para conciliar suas funções na igreja com os estudos.

Matheus também afirma que nunca foi pressionado para seguir a vida religiosa. “Nunca deixei e nem deixo de fazer nada por conta do Evangelho. Eu tenho uma vida normal, como toda criança: jogo bola, vou à escola [ele está no sexto ano do Ensino Fundamental, na escola particular Santa Mônica, no Rio de Janeiro], convivo com amigos”, ressalta o garoto. “Faço tudo o que as demais crianças fazem, mas com responsabilidade, pois tenho um compromisso com Deus”.

Sinto que sou discriminado por pregar a Palavra, pelo fato de correr atrás da Bíblia. Eles [os meninos] não gostam, encarnam em mim. Não sou um garoto admirado.

O fato de pregar hoje para multidões não parece incomodá-lo: “Eu sabia qual era a minha missão. Deus tinha uma promessa para mim. Tive certeza da minha vocação aos cinco anos, quando estava louvando em uma igreja do Méier e Deus falava comigo sobre a cura”. Matheus admite suas atividades religiosas são motivo de preconceito: “Hoje, 70% dos meninos querem ser jogadores de futebol e sinto que sou discriminado por pregar a Palavra, pelo fato de correr atrás da Bíblia. Eles não gostam, encarnam em mim. Não sou um garoto admirado”.

Foto: Arquivo pessoal Ampliar

Matheus no púlpito: "nunca fui pressionado"

Vocação versus obrigação

Ana Carolina e Matheus entendem que foram escolhidos. Para eles, a função exercida é, sobretudo, uma vocação. Mas nem todos concordam. Pastora há cinco anos de uma das igrejas da Assembleia de Deus, a teóloga Maria Vita Umbelino diz ver “quase diariamente” crianças sendo levadas pelos pais até a igreja para se transformarem em pequenos pastores. “No meu Ministério eu não tenho criança pregando, sou contra”, diz ela. “Esse período é de aproveitar as brincadeiras típicas da idade e esperar pelo amadurecimento”. Segundo Maria Vita, a escola bíblica oferecida pela igreja já é “mais do que suficiente para o primeiro contato dos jovens”.

A pastora acredita que a iniciação precoce na pregação resulta no desinteresse futuro de seguir o caminho da fé. A psicóloga especializada em terapia familiar Aldvan Figueiredo concorda, explicando que o contato das crianças com a espiritualidade é comum e geralmente despertado entre os cinco e sete anos de idade. “Os pais não precisam se preocupar, desde que o interesse ocorra naturalmente”, explica. “Após esse período, as crianças tendem a se desligar desses assuntos”. O perigo, segundo ela, está em obrigá-la a ingressar em rotinas religiosas cedo demais. “A atitude pode causar danos emocionais e afastar de vez essas crianças da religião, tornando-se um trauma na vida adulta”.

Rita Kather é professora de psicologia da PUC-Campinas e tem uma opinião mais radical. Ela acredita que o reforço precoce de uma escolha, seja ela religiosa ou artística, dificulta o desenvolvimento e o interesse da criança por outras áreas. “Uma vez que esse criança começa a desempenhar bem o papel, raramente sua vida tomará outro rumo”, diz. “As crianças não devem ser incentivadas a tomar decisões logo nos primeiros anos de vida”.

Rita ainda considera perigosa a exposição das crianças. “Nesta idade, nem as habilidades ainda foram totalmente desenvolvidas”, pondera. “A religiosidade é importante, mas esse contato da criança com o mundo religioso precisa ser suave. É nobre cultivar a religião para um mundo de paz, mas isso deve ser natural”. Para a professora, raramente a criança irá expressar nitidamente sua insatisfação em cumprir um papel que agrada aos pais. 

 

Creio que milagres não se explicam, não se justificam, e a minha filha é um milagre de Deus.

Ezequiel insiste que a vida da filha sempre foi saudável. “Ela teve uma infância tranquila, brincou, viajou o mundo. Conheceu lugares como a Europa, esquiou, fez coisas que eu não teria condições financeiras de bancar. E tudo isso por meio da pregação da Palavra”, compara. Hoje, Ana Carolina é líder da Mocidade, o grupo dedicado a jovens dentro de sua igreja, e auxilia o pai nos cultos. “É uma sensação indescritível ser pai de uma missionária. Creio que milagres não se explicam, não se justificam, e a minha filha é um milagre de Deus”, diz ele.

O vídeo que tornou Carolina famosa, legendado por usuário da web



 

 


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114 Comentários |

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  • Diego Ristow | 03/10/2011 19:47

    Cada um tem um pensamento diferente do outro,o que não pode acontecer e que deixamos a raiva,o pensamento proprio falar mais alto,e as vezez por falta de conhecimento biblico falamos coisa que são uma inverdade que realmente não existe,a Biblia sagrada diz que ninguem vai ao pai a não ser pelo filho e ninguem vai ao filho a não ser pelo pai,entao amados deixem de lado preconceitos religiozos e começam olçhar mais para si mesmo,pois a mudança começa por nos,e individual,assim como a salvação e individual,o envangelho e pregado agora segue quem quer,respeito as decizoes pois todos tem o livre arbitrio,so que por favor não falem o que não sabem,pois a biblia sagrada e a palavra de Deus,e a boca de Deus falando aos coraçoes,falando as familias,e se vc ainda não precisou de Deus,um dia vai precisar,todos nos precisamos unicamente de Deus e ha diferença sim naquele que serve e naquele que nao serve a Deus de coração..não tomem decizoes que podem levar vc e sua familia para o abismo,Jesus Cristo e o caminho a verdade e a vida...que Deus abençoe a todos e que a palavra de Deus possa impactar suas vidas....glorias somente a Deus...

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  • Fátima Dantas | 03/10/2011 17:46

    Concordo plenamente com o que Viviane falou, independente do interesse dos pais, o trabalho que essas crianças fazem é lindo gente!! pregar a palavra de Deus pra um mundo tão carente de Fé é um ato de amor e devia servir de exemplo pra todos nós, se cada um tivesse a coragem de levar a palavra de Deus para os mais carentes, o mundo seria bem mais humamo e mais justo. O engraçado é que as crianças de hoje podem fazer tudo, assistir filmes de pornô se exibir com gestos sensuais na tv e até ordenar aos pais a fazer o que elas bem querem, pra isso são crianças que sabem o que quer, mais qdo é pra falar de Deus elas são infantis demais.\nQue Deus ilumine essas crianças, elas são a salvação pra um futuro melhor. \n

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  • Flávio | 03/10/2011 16:29

    Só podia ser coisa de pentecostal.

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  • pereira | 03/10/2011 15:10

    Virou festa agora. Sempre entendia o milagre com algo muito raro acima das nossas forças, que normalmente desafiam as leis da natureza,. da ciência, por encerrar em seu fulcro a interveção divina. Hoje tudo é milagre e até existem momentos para que aconteçam. Realmente, parece que brincamos com as coisas sérias...

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    Rodrigo | 03/10/2011 16:00

    Concordo plenamente com você Pereira!\nVirou uma zorra total... as Igrejas evangélicas pregam somente que se salvará quem pagar o dízimo, atribuem milagres para pessoas que se fingem que estão na cadeira de rodas e saem andando durante as festinhas dos pastores(fato real ocorrido em Curitiba-Pr).\n\nA fé das pessoas nas Igrejas evangélicas é sinônimo de Dinheiro para os fundadores e pastores(Universal e outras), as pessoas ficam submissas a eles e não veem no o buraco no qual estão caindo...

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  • Paulo FIlho | 03/10/2011 14:57

    Hoje em dia, tanto igreja catolica com igreja evangelica pregam a Fé de maneita errada.\nNa catolica, tem as regras do papa, e a evangelica fala que voce so sera salvo d\nse pagar os dizimos, se nao Deus nao vai salvar voce...onde ja se viu isso. Sou catolici e minha esposa é evangelica, ela vai na minha igreja e eu vou na dela..e nao somos de freguentar muito a igreja..pq nos respeitamos qualquer religiao, apesar de tudo q acontece...nos temos Fé em Deus..

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  • Diego Ristow | 03/10/2011 14:38

    Paz do senhor meus irmãos,a Bilblia sagrada a qual eu creio e tenho para mim como direção para a minha vida e de minha famiia,diz que Deus usa quem ele quer,quando ele quer e onde ele quer,entao quem somos nos para achar isso ou aquilo desteas crianças abençoadas pelo senhor que tem suas vidas no altar e atraves de suas vidas com Deus tem abrtos suas bocas e Deus tem falado ao povo que esta faminto,com sede da palavra de Deus que purifica,que cura,muda direções,muda situações e todos nos sabemos o quanto o povo esta precisando de Deus,quantas familias destruidas por não aceitarem ou não conhecerem Jesus....Queridos vamos nos importar em levar o evengelho a toda a criatura como Jesus nos deixou por herança....que Deus possa prosperar ainda mais esses amaados irmãos em seus ministerios e que realmente e verdadeiramente as maravilhas,sinais e milagres venham acompanhar onde quer que vão pois a palavra e fiel pois quem prometeu não e homem para que minta e nem filho do homem para que se arrependa...ficam na paz do senhor Jesus....

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    rodrigo | 03/10/2011 17:13

    em que mundo voce vice???

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  • Tais | 03/10/2011 14:22

    Ana Maria, perfeita sua colocação, concordo plenamente, engraçado que na TV crianças sendo erotizadas e provocando nitidamente sensualidade pode, e esses pais que deixam seus filhos trabalharem nesse meio não são considerados irresponsáveis, ah sim é arte então pode deixar!!!!

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  • Elvis | 03/10/2011 13:15

    Máquinas de ganhar dinheiro com lavagem cerebral....\n\nFazer o quê, né??\n\nAinda bem que esses daí nem nenhuma outra me tiram da razão....\n\nVenho de uma família de ateus que antes que qualquer um aqui fale bobagem, nunca cometeu nenhum crime, NÃO compra produtos piratas, NÃO sonega impostos, NÃO corta fila, NÃO desrespeita o próximo, NÃO diferencia as pessoas por cor, credo, raça ou qualquer coisa que o valha.\n\nNossa família tem um objetivo-comum: viver em paz em harmonia com seres humanos, animais e vegetais.

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