Três mulheres contam a experiência de dar à luz em países estrangeiros e confirmam: o Brasil é o país da cesárea – e do calor humano

Giovanna e a mãe, Andreia: 25 horas em trabalho de parto nos EUA
Arquivo pessoal
Giovanna e a mãe, Andreia: 25 horas em trabalho de parto nos EUA
Se você pudesse optar entre o parto normal e a cesárea, qual escolheria? A esteticista Andreia Pellegrino, de 29 anos, preferia o parto normal para ter sua filha Giovanna, hoje com seis anos. No Brasil, recordista mundial em número de cesarianas, é difícil encontrar uma mulher com a mesma preferência de Andreia. Mas ela tinha uma razão a mais para tal: enquanto aqui no Brasil, na rede particular médica, a porcentagem de partos realizados por cesariana é de 84% , nos Estados Unidos esse número diminui para 32% . E Andreia vive na terra do Tio Sam há dez anos.

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“Minha cabeça ficou muito ligada em deixar tudo acontecer naturalmente. Aqui todo mundo está mais acostumado a essa atitude”, conta a brasileira radicada nos Estados Unidos. Andreia manteve a determinação por toda a gestação – que acabou durando 42 semanas, quando a média normal é dar o bebê à luz na 38ª. “A Giovanna ficou no limite do limite dentro da minha barriga”, diz. E Andreia ficou no limite do limite da duração de um trabalho de parto: 25 horas.

“Os turnos das enfermeiras começavam e terminavam e eu continuava lá. Quando minha médica apareceu, eu disse a ela que não aguentava mais”, conta. Só aí o plano do parto normal foi por água abaixo e Andreia teve de fazer uma cesariana. Ela responsabiliza a falta de acompanhamento médico adequado: “segundo o pré-natal, minha filha estava com pouco mais de três quilos, quando na verdade ela tinha mais de quatro e eu sou muito pequena. Durante as duas últimas horas do trabalho de parto, ela nem se mexeu”. Com isso, Andreia passou a primeira semana pós-parto no hospital, sentindo muita dor na região do corte. “Não sei se meu bebê era muito grande ou se realmente os médicos de lá não tinham tanta experiência com a cirurgia como existe no Brasil”, questiona.

Implorando pela cesárea

A experiência de ter um filho na Itália deu à fisioterapeuta Renata Peres, de 39 anos, uma certeza: a experiência com cirurgia entre os obstetras de lá é bem escassa. Morando na província de Pordenone há três anos, ela engravidou em 2007. “Não era planejado, e eu não consegui voltar para o Brasil a tempo para dar Laura à luz aqui. Como em toda a Europa a tendência é passar pelo parto normal, eu queria voltar”, diz. Renata já havia passado pela primeira gravidez e teve dificuldades na hora do primeiro parto – cesárea, pois ela não teve nenhuma contração ou dilatação. E não queria de jeito nenhum ter o segundo bebê por parto normal.

“Lá eles são contra a cesárea e estimulam o parto normal por até dois dias. Eu tinha medo de correr o risco de perder o filho”, explica Renata. Com isso, ao saber da gravidez, procurou por um ginecologista particular para realizar o pré-natal. Como ele não poderia fazer o parto, escreveu uma carta aos médicos da saúde pública italiana explicando o histórico dela. Somente por esta razão a cesárea foi realizada. Mas eles tentaram convencê-la a encarar o parto normal até o dia do nascimento de Laura: “Eles achavam frescura fazer cesárea. Eu já estava entrando na 39ª semana e não dava mais para esperar. Só aí autorizaram”. Mas foi uma experiência traumática para a mãe.

Itália arcaica

“O protocolo seguido por lá foi de uma mentalidade arcaica”, diz Renata. A sonda foi colocada a sangue frio e se passaram intermináveis 40 minutos até ela ser levada à sala de parto. Laura nasceu em 25 minutos e chegou ao mundo muito bem. Mas, segundo ela, as preocupações com o bebê não são proporcionais ao cuidado com a mãe: “Depois de aplicar a anestesia, eles querem tirar o bebê o mais rápido possível da barriga. E eles não gostam de dar muita anestesia, então no final do parto eu tive que pedir por mais”.

Mesmo depois de dar à luz, Renata teve mais um pouco de sofrimento: “com a cesárea, você fica cinco dias de repouso no hospital. Eles só me deixaram comer depois do segundo dia. Até lá, só recebi soro”. A razão alegada era a possibilidade de sentir ânsia, vomitar e, com isso, estourar os pontos da cicatriz na barriga. “É totalmente fora da realidade, eu senti muita fome”, diz. Depois de voltar pra casa, os problemas continuavam. A cicatriz deixada pelo parto acabou inflamando e, além de muita dor, ela começou a ter febre. “Eu certamente havia pegado uma infecção. Mas quando voltei à maternidade, disseram que era reação dos pontos internos e não me deram antibiótico”, conta.

Após voltar ao hospital quatro vezes – e não receber nenhuma ajuda pela infecção –, Renata teve 41 graus de febre e recorreu novamente ao ginecologista particular. “Quando ele viu, confirmou: eu poderia ter tido uma infecção generalizada”, diz. Com a receita do antibiótico em mãos, em três dias ela já estava melhor. “Jamais teria filho na Itália novamente. Quando voltei ao Brasil, a minha ginecologista afirmou que esse protocolo era seguido quando ela se formou na universidade. E ela tem 60 anos”, explica.

Maria Theresa, Maria Cecília e Camila: a primeira nasceu na França, a segunda nos EUA
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Maria Theresa, Maria Cecília e Camila: a primeira nasceu na França, a segunda nos EUA
Acolhimento francês


Já na França, a professora de francês Maria Cecília Meira Moreira, de 45 anos, teve uma experiência completamente diferente. Aos 32 anos, morava na cidade de Tours com seu marido e engravidou de Maria Theresa, hoje com 13 anos: “Eu fiquei um pouco aflita no começo, porque não sabia se me sentiria bem acolhida com o tratamento do médico, mas o sistema de seguro social francês dá muito apoio e me surpreendi”. Segundo ela, foi possível ficar de repouso por uma semana na clínica onde deu à luz pela primeira vez – caso bem raro para um parto normal sem dificuldades, como foi o seu.

Maria Theresa nasceu em três horas. A cesárea só seria realizada se fosse para assegurar a saúde da mãe ou do bebê. Como ela já preferia o parto normal, não teve problemas: “Eu acho uma loucura aqui termos a preferência pela cesárea. A mulher melhora com muito mais rapidez depois de um parto normal”, opina.

Embora não tenha tido filhos no Brasil, Cecília sabe da atmosfera de calor humano em torno de uma gravidez aqui. “Os médicos brasileiros ligados à ginecologia são muito mais afáveis, conversam, estão mais ao seu lado do que lá”, conta. Para ela, um tratamento caloroso sem dúvida é melhor. E não foi somente na França que a professora sentiu falta deste lado brasileiro de ser: quando engravidou pela segunda vez, agora nos Estados Unidos, ela sofreu com a impessoalidade médica. “No pré-natal, cada vez eu via um médico diferente. Na hora do parto, veio uma médica que eu nunca tinha visto”, diz. E a médica desconhecida fez o parto de Camila, hoje com nove anos.

Indiferença médica e atenção financeira

Andreia confirma a falta de atenção experimentada por Cecília nos Estados Unidos. “A minha médica nunca chegou a passar um número de celular e as enfermeiras ficam muito mais perto de você na hora do parto do que o médico mesmo”, conta. Ela tem um ginecologista na família no Brasil e define a diferença: “aqui, o médico não perde muito tempo com você”. Por outro lado, ela contou com um programa do governo para quem tem baixa renda e não pagou por nada durante a gravidez. “Pude escolher entre diferentes clínicas para o pré-parto, e o governo cuidava da parte financeira”, explica.

Na França, Cecília passou pelo mesmo e o seguro social do governo cobriu os gastos. Renata, na Itália, acabou pagando por um médico particular durante toda a gestação, mas na hora do parto foi para uma maternidade pública, para ter o filho com o médico de plantão – como nos Estados Unidos. “O hospital público da Itália parece o hospital particular daqui”, afirma. “Mas, segundo meu ginecologista de lá, os médicos italianos vêm ao Brasil para fazer curso de cesárea. Os ginecologistas e obstetras daqui são muito bem vistos lá fora”, completa.

Vinho X calor brasileiro

Renata não pôde contar com a presença do marido na sala de parto. O protocolo italiano não permitia acompanhantes. “Isso me deixou bem frustrada. Aqui, eles encorajam a presença do marido. Faz bem para a mãe”, compara. Já na França, a mãe de Cecília estava presente na clínica durante o parto e pôde ver a filha logo após o nascimento da neta. “Eles até ofereceram vinho para ela, em vez de água”, relembra.

Hoje, Cecília teria filhos novamente na França – mas não sairia do Brasil para isto: “Eu teria um ótimo atendimento aqui”. Andreia também não hesitaria em ter outro filho nos Estados Unidos. Mas já encontrou o equilíbrio perfeito entre o calor nacional e a estrutura estrangeira. “Hoje em dia eu conheço uma médica brasileira e a indico para todo mundo. Ela passa o telefone da casa dela, responde todas as perguntas e dá muito mais atenção que os médicos daqui”.

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