Nos EUA, preocupação com elementos potencialmente tóxicos presentes em produtos de limpeza, cosméticos e roupas virou um ritual da paternidade

Abby Wolfson com a filha Calliope em casa, em Nova York: mãe só usa produtos de limpeza feitos em casa
Tony Cenicola/NYT
Abby Wolfson com a filha Calliope em casa, em Nova York: mãe só usa produtos de limpeza feitos em casa
A advogada e ativista da saúde da mulher, Laura MacCleery, 40, estava grávida de quatro meses quando começou a fazer uma lista das substâncias químicas presentes em sua casa, na Virgínia, Estados Unidos. Primeiro ela reuniu 70 produtos em uma pilha: coisas como maquiagem, xampu, detergentes e produtos para limpar a pele. Em seguida, digitou o nome dos cosméticos em uma base de dados online chamada Skin Deep ( clique para ver; em inglês ), criada pela organização de pesquisa e ativismo Environmental Working Group.

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Os resultados não foram reconfortantes. Os batons caros de MacCleery continham uma estonteante mistura de substâncias químicas, incluindo o metoxicinamato de etil, um possível disruptor endócrino – substâncias que agem como hormônios no corpo humano. “Quando os comprei, pensei estar fazendo algo especial para mim mesma”, afirmou. “Mas descobri que provavelmente estava engolindo substâncias petroquímicas”. Os batons foram para o lixo.

Para alguns produtos, o site listava dezenas de produtos e compostos químicos exóticos. Havia hormônios estrogênicos, neurotoxinas e bioacumuladores. Para outros itens, quase não havia informações. Que efeitos essas substâncias poderiam ter sobre seu bebê? MacCleery não sabia e não pretendia descobrir.

Ao terminar o inventário, não sobrou quase nada. “Eu diria que só sobraram uns três ou quatro itens”, afirmou. “Era tudo tóxico. Tudo.”

Antes disso, MacCleery havia trabalhado durante oito anos para a Public Citizen, uma organização para a segurança dos produtos de consumo. Após o nascimento de sua filha, Maya, no outono de 2010, ela “se tornou obcecada” com o monitoramento da saúde em sua própria casa.

Quando Maya nasceu, a mãe dela, Laura, promoveu uma
Darren Higgins/NYT
Quando Maya nasceu, a mãe dela, Laura, promoveu uma "faxina anti-químicos". Ao terminar o inventário, não sobrou quase nada: "era tudo tóxico"
O novo chá de bebê

O expurgo das substâncias químicas do ambiente doméstico pode estar se transformando em um ritual para os novos pais, uma contrapartida aos tradicionais chás de bebê . Fale com pediatras, historiadores médicos e cientistas ambientais, e eles dirão que o fenômeno social ainda não foi muito estudado.

Dependendo da pessoa a quem você perguntar, ela responderá que isso é uma histeria causada pela mídia de massa, uma moda do marketing ecológico, uma campanha de saúde pública, um movimento ambiental invisível – ou, talvez, todas as anteriores.

Previsões realizadas pela Mintel, empresa de pesquisa de mercado, afirmam que as preocupações com compostos químicos transformaram os produtos para bebês em “algumas das linhas de produtos verdes de maior sucesso”. Os pais podem consultar sites como o Healthy Child Healthy World , cuja missão é “iniciar um movimento que permite que os pais protejam seus filhos de substâncias químicas prejudiciais”. Ou podem ver as classificações de segurança de roupas, móveis e brinquedos infantis nos sites GoodGuide e Healthy Stuff . Lojas virtuais como a Oompa oferecem brinquedos “orgânicos e sustentáveis”, divididos por país de origem (todos os sites em inglês) .

3 mil novas substâncias por ano

Cada geração tem as ansiedades que merece. Afinal de contas, muitos dos pais supervigilantes dos dias de hoje cresceram nos anos 70, quando ninguém dava muita atenção para as crianças, que queimavam sacolas plásticas no fundo do quintal e espirravam veneno em qualquer coisa que se movesse. Naquela época, os níveis típicos de chumbo registrados nas crianças eram cinco ou seis vezes maiores do que atualmente. E a maioria dessas crianças não chegou à vida adulta (mais ou menos) bem?

O que esse argumento ignora é a incrível proliferação das substâncias químicas no mercado, afirmou o Dr. Leonardo Trasande, professor associado de pediatria, medicina ambiental e políticas de saúde na Universidade de Nova York. “De mil a três mil novas substâncias químicas foram introduzidas em nosso ambiente todos os anos durante os últimos 30 anos”, afirmou Trasande.

De acordo com contagens publicadas, mais de 80.000 substâncias químicas fazem parte da indústria americana, desde o processo de manufatura em uma fábrica até o produto final nas grandes varejistas. Esses compostos podem ser inócuos (como a água) ou perniciosos (como o metilmercúrio). Com tantas substâncias no mercado, é difícil saber. Um registro químico na União Europeia, citado por Trasande, sugere que o número de substâncias no comércio global esteja em torno de 143.000.

Centenas de substâncias químicas tóxicas, incluindo pesticidas, retardantes de fogo e PCBs, podem ser encontradas no sangue do cordão umbilical de recém-nascidos, de acordo com estudos realizados pelo Environmental Working Group. É particularmente inquietante imaginar como essas substâncias químicas podem afetar o desenvolvimento fetal, já que uma única célula pode se transformar em trilhões, afirmou Jerome A. Paulson, professor de pediatria e diretor do Centro Mid-Atlantic para a Saúde da Criança e do Meio Ambiente, no Children's National Medical Center, em Washington.

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Bryce Vickmark/NYT
Adam e Danna Zeiger com o filho Eyal, de seis meses: ambos estudam química, mas segundo Adam, não sabem "absolutamente nada"
Pouco conhecimento

Desde o nascimento, a exposição a substâncias químicas só aumenta. Crianças pequenas comem e bebem mais, em relação ao peso de seus corpos, do que os adultos. Elas também respiram mais. Brincando no chão, elas absorvem substâncias químicas através da pele.

Conforme a carga química, ou “carga corporal”, aumenta, afirmou Trasande, “vemos um aumento das doenças crônicas da infância: asma, deficiência de desenvolvimento, certos defeitos congênitos e certos cânceres infantis. E elas não são apenas duas tendências concomitantes. Já existem estudos científicos que têm conectado as duas”.

Portanto, o que é que sabemos sobre cada uma das substâncias químicas que entram no corpo das crianças? “Na verdade, muito pouco”, afirmou Paulson. Ele acrescentou que sabemos ainda menos sobre como esses milhares de substâncias químicas podem interagir com o corpo humano.

Existem dados de saúde ou de segurança referentes a apenas cerca de 15 por cento das novas substâncias químicas submetidas à aprovação da Agência de Proteção Ambiental (EPA), órgão, norte-americano, de acordo com uma declaração política de maio de 2011 escrita por Paulson para a Academia Americana de Pediatria. Enquanto isso, dezenas de milhares de substâncias químicas mais antigas – aquelas que foram colocadas no mercado antes da lei de Controle de Substâncias Tóxicas, vigente nos EUA desde 1976 – geralmente não precisam de qualquer teste de segurança.

Em um e-mail, Kathryn St. John, do Conselho Americano de Química, uma associação de empresas do setor, sustentou que os fabricantes “trabalham bastante para tornar seus produtos químicos seguros – para usos industriais, comerciais e para o consumo”.

Kathryn, diretora sênior de comunicação sobre produtos da organização, acrescentou que o setor químico acredita firmemente que a lei de Controle de Substâncias Tóxicas deveria ser modernizada, em parte para “refletir uma melhor compreensão da forma como as substâncias químicas interagem com o corpo humano e com o ambiente”.

O debate pode parecer apropriado para um dia lento na rede de televisão do governo, mas as apostas não poderiam ser mais altas. Em maio de 2011, Trasande publicou um artigo na revista Health Affairs calculando os custos recentes do tratamento de doenças pediátricas com possíveis causas ambientais, como a asma, o câncer infantil e déficit de atenção e hiperatividade.

Uma parte do total de custos sociais que podem ser atribuídos à exposição a substâncias tóxicas: 76,6 bilhões de dólares em um único ano.

Chumbo, mercúrio, amianto e fumaça de cigarro são riscos comprovados. Mas os pais devem “ir até os confins da terra para jogar todos os produtos potencialmente tóxicos para fora da casa?”, questionou Paulson. “Se você quiser fazer isso, tudo bem. Mas a ciência não estará lá para apoiá-lo.”

Alguns pais levam a pesquisa sobre segurança química com rigor intelectual. Adam Zeiger, pai de uma criança de seis meses chamada Eyal, tem 27 anos e é candidato ao doutorado em engenharia e ciência dos materiais em Cambridge, Massachusetts. Sua esposa, Danna, de 27 anos, está cursando o doutorado em biologia molecular e celular.

Ainda assim, “Se meu Ph.D. me ensinou alguma coisa”, ele escreveu em um e-mail, é que “eu não sei absolutamente nada. Ao menos eu posso fazer minha lição de casa”.

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