Liberdade: especialistas divergem quanto ao comportamento dos pais que querem estar sempre perto dos filhos universitários
Logo nas sessões de orientação para os novos alunos de uma universidade norte-americana, a University of Colorado at Bolder, os pais aprendem uma frase essencial a ser usada com seus filhos durante o primeiro ano de faculdade: “Isso é um problema horrível. O que você vai fazer em relação a isso?”.
Segundo George Ballinger, responsável pela relação com os pais dos alunos da universidade, essa pergunta tem duas funções. Ela transfere de volta ao aluno a responsabilidade de resolver suas próprias crises e demonstra a confiança dos pais nas habilidades de seus filhos para fazê-lo.
O que acontece é que não são somente os jovens que estão em transição entre a casa da família e a vida em um campus. Especialistas afirmam que essa geração de pais tem se envolvido muito mais na vida de seus filhos do que qualquer outra, e vem tendo dificuldades em trocar o papel de cuidadores para o de “guias de viagem” na jornada de seus filhos pela idade adulta.
Algumas décadas atrás, os pais costumavam levam seus filhos ao campus universitário e telefonar, talvez, a cada duas semanas. Hoje os pais ligam para a reitoria para brigar por notas em exames e para ter acesso às fichas médicas e de frequência. Ou simplesmente enviam dezenas de mensagens de texto aos filhos diariamente, só para marcar presença.
A mídia e os psicólogos apelidaram essa geração de “pais helicóptero”, pois eles ficam sobrevoando os filhos para protegê-los contra os obstáculos. Mas ao menos um especialista acredita em uma analogia mais positiva: enxergar os pais e familiares como um “guarda-chuva”.
Quando está chovendo e alguém tem um guarda-chuva, é de bom tom compartilhá-lo. Então, quando um aluno está chateado e liga para casa, os pais perguntam se ele precisa de ajuda. “Da mesma forma que você não empurra um guarda-chuva na cara de alguém, você também não vai dar um pulo e sair correndo para lidar com a crise do filho. Você fica ao lado dele, ou um pouquinho atrás. Se você está segurando um guarda-chuva, as mãos do outro estão livres para agir”, disse Jody Donovan, reitora interina da Colorado State University.
Para Ballinger, a ideia não é forçar os pais a abandonarem seus filhos. “A idéia é mudar a natureza do relacionamento e as expectativas que os pais têm dos filhos e vice-versa. É bom para os pais estarem envolvidos, mas eles devem agir como consultores”.
Diferentes preocupações
Segundo a reitora Jody Donovan, os pais de nível superior e situação financeira confortável costumam ser os mais protetores. Ao mesmo tempo, ela afirma que uma segunda faixa de pais, geralmente de baixa renda e com a primeira geração frequentando uma universidade, costuma se preocupar com o fato de que os filhos vão crescer longe deles e nunca mais voltarão para casa.
Muitos desses alunos chegam ao campus com habilidades práticas de vida, mas Donovan trabalha com os pais para ajudar a desmistificar a experiência da vida acadêmica.
Além das preocupações com segurança e com os custos da educação universitária, os pais que não frequentaram uma faculdade precisam ser instruídos em relação à vida que seus filhos terão no campus. Ela diz: “Esses pais acham que seus filhos estarão expostos a todo tipo de coisa diferente e não vão querer mais voltar pra cidadezinha onde viviam e trabalhar no pequeno comércio da família. Converso com eles sobre como poderiam demonstrar apoio aos filhos”.
Transição desafiadora
Laura Stevens, responsável pelas relações com os pais de alunos da University of Denver, diz que hoje muitas instituições adicionaram, na orientação de boas-vindas que os novos alunos recebem, programas para os pais – como um reconhecimento da mudança no nível de envolvimento dos pais na vida acadêmica dos filhos.
Todo verão, pais de alunos da University of Denver de todo o país recebem pais e alunos recém-ingressados na universidade para fomentar uma comunicação aberta entra a universidade e as famílias. A cada ano, Helen Johnson, autora do livro “Don’t tell me what to do, just send me money” (um guia não publicado no Brasil para os pais se adaptarem ao primeiro ano dos filhos longe de casa, na faculdade; em tradução livre, “Não me diga o que fazer, apenas me mande dinheiro”), fala a centenas de pais durante as sessões de orientação, sugerindo maneiras apropriadas de se manter conectado com os filhos. Frequentemente, Stevens e sua equipe enviam informativos, compartilham dicas online e falam com os pais por telefone quando eles se sentem pressionados pela experiência de ficar longe dos filhos.
Um dos principais ajustes é limitar a comunicação pelo celular. Durante o colegial, era comum que os pais falassem com seus filhos diversas vezes por dia. “Temos de dizer aos pais que mandar mensagens de textos aos filhos cinco ou seis vezes por dia quando eles estão na faculdade não os ajuda a tornar-se independentes e saber se defender. Às vezes, essa mudança é difícil, pois é o que sempre fizeram. Nós reconhecemos, porém, que pais e filhos estão enfrentando uma transição desafiadora”, disse Stevens.