Em lares de casais que trocam insultos, chances da criança apanhar dobram. Cônjuge agredido é o que mais bate

Mesmo comportamentos agressivos considerados menos graves entre os cônjuges, como controle e insultos, levam os pais a bater mais nas crianças
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Mesmo comportamentos agressivos considerados menos graves entre os cônjuges, como controle e insultos, levam os pais a bater mais nas crianças
Nova pesquisa mostra que crianças educadas em um ambiente familiar onde os pais têm comportamento agressivo entre si têm maior probabilidade de apanhar. O estudo constatou que 65% das crianças de três anos de idade tinham apanhado no mês anterior à pesquisa. Em famílias que relataram agressão entre os pais, o uso de castigo corporal acompanhado de agressão ou violência contra o cônjuge ocorreu em um a cada dois lares.

O objetivo do estudo foi ter uma melhor compreensão dos padrões de agressão e violência comuns entre os casais com filhos, além do uso de punição física com os filhos de três anos de idade”, disse Catherine Taylor, autora do estudo e professora de ciências da saúde comunitária da Tulane University School of Public Health and Tropical Medicine.

“As crianças que mostraram maior probabilidade de apanhar tinham pais agressivos ou violentos entre si, e a criança teve uma chance maior de sofrer a agressão física por parte do cônjuge agredido”, disse Taylor. Os resultados do estudo foram publicados na internet no dia 23 de agosto em uma prévia da edição impressa da revista especializada Pediatrics de setembro.

Agressões “leves”

Ela destacou que, diferentemente de outros estudos sobre agressão e violência entre os pais e o uso do castigo corporal, esta pesquisa foca em comportamentos agressivos ocorridos entre os pais e considerados menos graves, ao contrário de outros estudos, que analisaram o abuso doméstico violento.

“O tipo de agressão a que nos referimos são os comportamentos controladores e a agressão psicológica comum – coisas do tipo impedir que o outro se encontre com os amigos ou familiares, cortar o dinheiro ou ainda insultar ou criticar o parceiro”, disse ela. Participaram do estudo 2.000 famílias com filhos de três anos de idade, todas elas residentes em cidades grandes dos Estados Unidos.

Taylor relata que o nível de instrução das mães participantes foi bastante equilibrado: 27% delas tinham segundo grau incompleto, 27% concluíram o segundo grau e 27% frequentaram a universidade. Aproximadamente 19% concluíram o ensino superior. Segundo o estudo, em 60% das famílias os pais eram casados.

Os pesquisadores constataram que cerca de dois terços das crianças de três anos de idade tinham apanhado de um dos pais pelo menos uma vez no ano anterior. A conclusão é que, em lares onde ambos os pais eram agressivos ou violentos entre si – e não estamos falando de espancamento, apenas de parceiros que criticam ou insultam o outro –, as chances de uma criança apanhar dobraram.

“Realmente não é nenhuma surpresa que se há agressão entre os cônjuges, o agredido terá mais vontade de bater no filho. Mas, o que realmente nos surpreende é que uma prática que sabemos não ser eficaz com os filhos ainda é tão aceita e usada”, disse Lori Evans, professora clínica assistente de psiquiatria da criança e do adolescente no The Child Study Center, no NYU Langone Medical Center da cidade de Nova York.

“Tudo volta à antiga analogia que enquanto é obrigatório ter uma licença para dirigir um carro, ninguém nunca disse que é necessário fazer um curso básico antes de se tornar pai ou mãe. A questão é realmente a prevenção, ensinando os pais como lidar com o estresse, além de outras alternativas para disciplinar os filhos”, disse Evans.

Taylor complementou: “Pais que se encontram em relacionamentos onde existem comportamentos controladores ou agressivos, mesmo que pequenos, podem querer recorrer ao acompanhamento psicológico para se tratarem ou para o bem dos próprios filhos. Pode ser que eles não percebam que o estresse que sofrem pode influenciar na forma como disciplinam seus filhos”.

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