Possibilidade de uma vida melhor faz com que os pais vençam medos pessoais para ajudar os filhos na escola

“Meu pai chegava a me proibir de ir à escola porque eu era mulher. Na cabeça dele, a gente não queria estudar, e sim namorar na escola”. O desabafo é da dona de casa Maria José Pinho de Souza, 42. Hoje ela é mãe de quatro meninas e, ao contrário do exemplo que teve em casa, faz questão de ver as filhas na escola.

Duas delas já superaram a mãe em escolaridade. A dona de casa conseguiu estudar até a quarta série do antigo primário. Natália, 16, a filha mais velha, cursa atualmente o segundo ano do ensino médio e Ana Paula, 14, está no sétimo ano do ensino fundamental. “Quero que minhas filhas tenham mais oportunidades do que eu tive. A vida fica muito mais difícil para quem não tem estudo”, afirma Maria José.

A dona de casa faz parte de uma estatística revelada no ano passado. Um estudo feito pelo Todos Pela Educação com o apoio da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, mostra que 51% dos jovens de 14 anos já alcançaram a escolaridade dos pais e 43% superaram . Depois dessa idade o percentual só cresce.

A empregada doméstica Ineide Martins Rios, 52, acompanha a vida escolar de Juliane, 15: “Tenho orgulho da minha filha. Procuro fazer elogios porque ela merece
Julien Pereira/Fotoarena
A empregada doméstica Ineide Martins Rios, 52, acompanha a vida escolar de Juliane, 15: “Tenho orgulho da minha filha. Procuro fazer elogios porque ela merece"
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Diante de uma geração com mais estudo, os pais muitas vezes se sentem incapazes de ajudar seus filhos a solucionar as dúvidas do cotidiano escolar. Mas isso nem de longe deve ser visto como um problema. O fato dos filhos superarem a escolaridade dos pais mostra uma conquista: o investimento em educação não retroagiu.

Orgulho e angústia

Alguns pais podem se sentir orgulhosos e ao mesmo tempo angustiados por não conseguirem auxiliar os filhos. A empregada doméstica Ineide Martins Rios, 52, procura esquecer suas limitações para apoiar a filha. Ela reconhece a necessidade de acompanhar a vida escolar de Juliane, 15, que está no segundo ano do ensino médio, enquanto Ineide só fez até a quarta série do antigo primário. “Sou orgulhosa da minha filha. Procuro fazer elogios porque ela merece. É uma menina esforçada”.

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Com o mesmo dilema de Ineide, a dona de casa Maria José será, em breve, ultrapassada pela terceira filha, Raiane, de nove anos. “Faço tudo para elas poderem estudar. Não é fácil falar para um filho que você não tem estudo suficiente para acompanhá-lo. Eu ainda consigo ajudar Raiane com a lição de casa, mas logo não vou mais poder fazer isso”.

Se eu não soubesse esclarecer a dúvida, pagava um professor particular para ajudar com a lição de casa. Sempre achei que a gente tem que melhorar, e não chorar pelo leite derramado. Eu não tinha estudo e pronto.

Mesmo com o desejo de ajudar o filho, o pai precisa entender que seu papel é outro. “É preciso separar bem a função de cada um. Quem ensina é o professor. Os pais apoiam e valorizam a educação. Essa distribuição de tarefas é positiva e produtiva”, explica Priscila Cruz, diretora executiva do Todos Pela Educação.

A experiência de Maria Aparecida Costa Fiorotto, 70, foi diferente e mais livre de cobranças pessoais. Impossibilitada de dar continuidade aos estudos quando ainda jovem, Maria Aparecida conseguiu participar da formatura de duas filhas, uma médica e outra dentista. “Se eu não soubesse esclarecer a dúvida, pagava um professor particular para ajudar com a lição de casa. Meu marido ficava até mais tarde para ganhar mais no final do mês. Sempre achei que a gente tem que melhorar, e não chorar pelo leite derramado. Eu não tinha estudo e pronto”.

Superação

Mais do que ajudar com a lição de casa, os pais precisam dar valor às conquistas dos filhos. Estimular a continuidade dos estudos é fundamental. “O que importa mesmo é incentivar os filhos. O empenho das crianças precisa ser valorizado sempre. Quando aprendem algo novo, tem que parabenizar. Cobrar lição de casa e tempo de estudo também é importante”, conta Gisela Wajskop, diretora-geral acadêmica do Instituto Singularidades.

A participação dos pais não se faz apenas na esfera intelectual. Este tipo de ajuda não é mais nobre do que a diarista que passa fins de semana trabalhando para dar um livro a mais para o filho.

Mesmo com algumas dúvidas e angústias, as famílias acabam se sentindo parte da superação do filho na vida escolar. “A participação dos pais não se faz apenas na esfera intelectual. Este tipo de ajuda não é mais nobre do que a diarista que passa fins de semana trabalhando para dar um livro a mais para o filho”, afirma Gisela.

Se o presente é de luta para superar os obstáculos, o futuro é feito de planejamento, para atingir o objetivo e dar uma oportunidade de vida melhor aos filhos. “Espero que minha filha termine os estudos e tenha uma boa profissão. Eu passei fome quando criança e não quero isso para Juliane. Ela precisa ter uma vida melhor”, diz Ineide. Desejo compartilhado por Maria José. “Minhas filhas vão ter mais oportunidade do que eu. Quero que elas tenham o que eu não tive e não pude dar”, completa.

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