Método de fisioterapia para crianças com atraso no desenvolvimento motor consegue melhoras significativas em curto prazo

Pamella e a mãe em sessão de fisioterapia do método Cuevas Medek:
Bruno Zanardo/Fotoarena
Pamella e a mãe em sessão de fisioterapia do método Cuevas Medek: "eu vi uma luz no fim do túnel"
Vítima de paralisia cerebral, desde os primeiros meses de vida Pamella tenta superar as dificuldades de desenvolvimento motor que sempre a acompanharam. Hoje, aos 13 anos, ela já passou por diversos centros de fisioterapia para reabilitação, mas nada que deixasse a mãe, a comerciante Patrícia Violandi Andrade, de 37 anos, muito satisfeita. Porém, ao saber da existência de um método de fisioterapia para crianças conhecido como Cuevas Medek Exercises (CME), desde novembro do ano passado mãe e filha entraram de cabeça nesta nova chance de Pamella andar sem a ajuda de um andador ou muletas. “Eu vi uma luz no fim do túnel”, diz Patrícia.

De tão empolgadas com o método, desde novembro Patrícia e a filha estão diariamente presentes no Centro de Terapia Infantil Moderna (CETIM), em São Paulo. “Até então todos os médicos diziam que ela só conseguiria andar de muleta ou andador, mas agora eu começo a ver que ela consegue mais que isso”, comenta a mãe. Segundo ela, além de Pamella agora estar mais interessada nos exercícios, com a ajuda da fisioterapeuta do Centro ela também fica de pé e até levanta a perna, coisa que nunca tinha acontecido antes. “Há alguns dias ela também fez a marcha com a ajuda da fisioterapeuta, que segurava no tornozelo dela; antes ela nem mexia a perna direito”, afirma.

Dentro do CETIM, a marcha é a prática do andar da criança, que durante o tratamento está acompanhada das mãos dos fisioterapeutas. Mas o Cuevas Medek prevê muitas outras atividades. De acordo com a fisioterapeuta Cláudia Rizzo, fundadora do CETIM e única profissional brasileira certificada no módulo avançado pelo Instituto Cuevas Medek, um dos objetivos é enriquecer o repertório motor da criança. O outro é proporcionar a possibilidade de experimentar. “Então ela fica em pé numa rampa, num degrau, num lugar estreito ou largo, que se mexe: assim, quando for andar na rua terá muito mais conhecimento para conseguir se virar”, explica Cláudia, que aplica o método desde 2007. Quanto mais longe do corpo da criança o profissional estiver, melhor.

É esta distância que, em suma, diferencia o CME dos outros métodos de fisioterapia. Segundo Cláudia, os movimentos das crianças são estimulados partindo do princípio de que ela deve fazer os exercícios com a maior independência possível. “Evitamos segurar muito ou se basear demais em algum equipamento que a ajude. Assim, se precisamos ensiná-las a passar do em pé para o sentado, não vamos segurá-las no tronco, mas nas pernas”, explica.

De acordo com a fisioterapeuta, segurar no tronco dá muito mais apoio para a criança do que segurar na cintura, e mais ainda do que segurar nos tornozelos. “Então a gente tenta trabalhar cada vez mais pra baixo no corpo da criança, que é o que chamamos de distal: a mão do terapeuta vai sempre saindo”, diz. Nas fisioterapias mais convencionais, a mão do terapeuta está sempre mais próxima da criança. “Isso faz muita diferença na prática. Tem criança que chega aqui em fase estagnada, com ganhos muito pequenos ao longo dos anos, mas a cada terapia ela tem que estar evoluindo: se hoje ela deu três passos, amanhã ela precisa dar cinco”, comenta Rizzo.

Isso, é claro, em um estágio mais avançado de evolução. Claudia conta que há crianças que chegam ao CETIM sem controle cervical, outras que ainda não sabem como engatinhar, outras que já passaram da fase de aprender a ficar em pé. Elas passam por uma avaliação desenvolvida pelo próprio criador do método, o fisioterapeuta chileno Ramon Cuevas, que verifica todas as habilidades que a criança tem (e não tem), determina a idade motora dela e estabelece o que precisará ser trabalhado. A partir daí que começa o tratamento – o tempo de duração irá depender da criança e da evolução que ela tiver. E do envolvimento dos pais, também: “Nós somos intermediadores, já que os pais que estão o tempo todo com a criança. Sendo assim, o nosso papel é orientar a família para que estimule a criança também em casa”.

Pais em ação

Com este programa os pais também podem colocar em prática os diferentes exercícios com o filho em casa, já que a frequência de visitas ao CETIM varia muito de família para família. O recomendado por Cláudia é que haja de 15 dias a um mês de tratamento intensivo com três objetivos estipulados para serem atingidos pela criança. Com a volta para casa, os pais costumam continuar praticando os exercícios. “Então mantemos contato com os pais para saber como está a evolução, até chegar o momento de voltar para um novo intensivo, com um novo programa de exercícios”, explica. O período de ida e volta costuma variar muito de criança para criança.

Além disso, a participação da família é importante por outra razão: com o envolvimento deles, é ainda mais fácil de quantificar a melhora que a criança está ganhando. “A família quer que o filho ande e essa é a melhora que é mais visível. Mas quando todos estão envolvidos, eles conseguem ver que a criança melhorou o controle do tronco, que já consegue dar passos com o profissional segurando nos tornozelos e não no quadril... Essa participação faz muita diferença em relação à expectativa e ansiedade”, diz a fisioterapeuta – e também aumenta a motivação da criança.

Guilherme com a fisioterapeuta: ele gosta dos exercícios mais radicais
Bruno Zanardo/Fotoarena
Guilherme com a fisioterapeuta: ele gosta dos exercícios mais radicais
Loucos por desafios


Um exemplo é o caso de Guilherme, 4 anos, filho da professora Rafaela Diaz, de 21 anos. Depois de passar por dificuldades no parto, ela só descobriu que o filho tinha um atraso motor quando ele chegou aos seis meses de idade e não conseguia sentar. Depois de tratá-lo por alguns anos com a fisioterapia convencional, Rafaela descobriu o CME e desde setembro do ano passado segue o método. “A postura e o equilíbrio dele melhoraram muito. A gente começa a ver resultado muito rapidamente”, conta.

Guilherme aprende um exercício diferente a cada dia. “Os que ele mais gosta são os mais radicais. Vejo na cara dele a liberdade que sente”, observa Rafaela. Uma vez, Guilherme fez um exercício em que tinha que andar em cima de um tecido. Capaz de dar alguns passos sem ajuda profissional ou da mãe, ele voltou se sentindo um herói. “Ele ficou muito contente, voltou para casa falando que tinha conseguido andar sozinho. Ele gosta muito”. O mesmo acontece com Pamella. De acordo com Patrícia, a cada dia de exercícios ela tem o interesse renovado. “Ela está mais confiante e eu vejo que ela se interessa: cada dia é um desafio”, diz.

Bobath x Cuevas Medek

Cláudia Rizzo contabiliza mais de mil exercícios diferentes para estimular a criança a chegar ao objetivo final, que é a marcha independente. Porém, de acordo com Lúcia Martins Barbatto, fisioterapeuta do Conselho de Fisioterapia e Terapia Ocupacional de São Paulo (CREFITO-SP) e professora de neuropediatria da Unesp, esse objetivo final já determinado pode gerar muita expectativa para a família. “Imagino que uma criança com um problema grave pode não ter tanto sucesso assim”, observa.

Realmente. De acordo com Cláudia, há 75% de sucesso com o método. “O restante dessa porcentagem deve ser indicada para outra terapia, que são casos em que o método não é aplicável”, afirma. Crianças com danos cerebrais muito severos estão neste grupo, mas ela ressalta que, como o cérebro é uma caixinha de surpresas, sempre há chances de algo funcionar. Mas também há casos de contraindicação: crianças com doenças ou fragilidades ósseas, por exemplo, não podem realizar o tratamento pelo fato de os exercícios serem de impacto.

A professora Lúcia Barbatto é adepta do método Bobath, um dos mais aceitos atualmente. Ela explica que neste método, criado na década de 50, não existe um objetivo final: “os objetivos vão sendo estabelecidos de acordo com a capacidade da criança”. Comparado ao Cuevas Medék Exercises, o método mais tradicional utiliza suportes externos e não segue a linha de suporte distal. “O Bobath só usará a resistência da criança quando ela já tiver o controle”, diz Lúcia. Mais um ponto de diferença em relação ao CME, em que a resistência é estimulada diretamente, com o suporte distal.

Ambos os métodos, no entanto, concordam em sua crença na neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de criar rotas alternativas uma vez que certas ligações tenham sido danificadas. Se a criança é estimulada a uma determinada atividade física fora de seu repertório, o cérebro começa a criar novas conexões neuronais até tornar aquela atividade automática.

Cláudia Rizzo, uma das primeiras profissionais a aplicar o CME no Brasil, acredita que as fisioterapias convencionais não dão ferramentas suficientes para que as crianças evoluam até a marcha independente. “Embora cada caso seja diferente, geralmente, nos métodos mais convencionais, chega um momento em que a criança deixa de evoluir”, conta. Antes trabalhando na área mais tradicional da fisioterapia, ela se aprofundou no método Cuevas Medék quando percebeu que as crianças atendidas por ela começaram a melhorar com mais rapidez. “Os pais ficaram impressionados”, diz.

Para Lúcia, no entanto, a chave da diferença é o profissional: quando o terapeuta é muito hábil, é possível ter sucesso independentemente do método de tratamento utilizado. “Tudo irá depender também do grau de lesão que a criança tem: se o cérebro dela está bastante lesado, é possível que haja limitações permanentes, por mais que se queira evoluir”, explica.

A fisioterapeuta segura os pés de Pamella: suporte distal
Bruno Zanardo/Fotoarena
A fisioterapeuta segura os pés de Pamella: suporte distal
Quanto mais cedo, melhor


Se por um lado o método Bobath procura obter um resultado a longo prazo, o CME já estabelece os objetivos a serem atingidos em menor tempo, com estímulos de maior impacto para que a criança adquira independência motora. Portanto, há também outra unanimidade: quanto mais cedo o problema for detectado, mais rápido a criança evolui.

De acordo com Lúcia, a neuroplasticidade diminui a partir dos 3 anos, portanto é melhor ir atrás de ajuda o quanto antes. Mas segundo Patrícia, mãe de Pamella, a maior preocupação dos pais sempre é saber se a fisioterapia vai dar certo ou não. E ver a filha subindo e descendo degraus, mesmo que com a ajuda das mãos da fisioterapeuta no tornozelo, já é um grande avanço.

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