Aos 3 anos, Kyle tomava 5 remédios faixa preta. Sua história alerta para os riscos do diagnóstico psiquiátrico infantil equivocado

Aos 18 meses, Kyle Warren começou a tomar um medicamento antipsicótico diariamente, sob as ordens de um pediatra que tentava acalmar as birras do menino de temperamento forte.

Assim começou a viagem de uma criança perturbada de um médico para outro, de um diagnóstico para outro, envolvendo cada vez mais remédios.

Autismo, transtorno bipolar, hiperatividade, insônia, transtorno desafiador opositivo. O regime diário de pílulas se multiplicou: o antipsicótico Risperdal, o antidepressivo Prozac, dois medicamentos para dormir e um para o transtorno de déficit de atenção. Tudo isso quando ele tinha 3 anos de idade.

Ele estava sedado, babando e com excesso de peso por conta dos efeitos colaterais dos medicamentos antipsicóticos. Apesar de sua mãe, Brandy Warren, estar “no limite de sua capacidade” quando recorreu ao tratamento com medicamentos, ela começou a se preocupar com a personalidade alterada de Kyle.

“Tudo que eu tinha era um menininho dopado”, disse Warren. “Eu não tinha meu filho. Quando olhava em seus olhos, podia ver apenas um vazio”.

Hoje, Kyle, 6, está em sua quarta semana da primeira série, conquistando notas altas em suas primeiras provas. Ele é indisciplinado e magro. Tirado dos remédios por um programa afiliado à Universidade de Tulane, que visa ajudar famílias de baixa renda cujos filhos têm problemas de saúde mental, Kyle agora ri com facilidade e brinca com a sua família.

Warren e o novo médico de Kyle apontam o seu progresso notável – e um diagnóstico mais comum em crianças, o déficit de atenção e a hiperatividade – como prova de que ele nunca deveria ter sido medicado com remédios tão fortes.

Recuperação

Agora Kyle toma um remédio para déficit de atenção. Sua mãe compartilhou seu histórico médico para ajudar a documentar publicamente uma tendência que alguns especialistas em psiquiatria veem como cada vez mais preocupante: a prescrição de remédios muito fortes para crianças muito novas, cujas condições raramente exigem tal medida.

Mais de 500 mil crianças e adolescentes americanos tomam antipsicóticos, de acordo com um relatório de setembro de 2009 da Food and Drug Administration (agência do governo norte-americano responsável pelo controle de alimentos e remédios). Seu uso é cada vez maior, não apenas entre os adolescentes mais velhos, quando se acredita que surge a esquizofrenia, mas também entre dezenas de milhares de crianças em idade pré-escolar.

Tais tratamentos radicais são realmente necessários, alguns médicos e especialistas dizem, para ajudar crianças com graves problemas de segurança a permanecer na escola ou na creche. Em 2006, a FDA aprovou o tratamento de crianças de até cinco anos com Risperdal, um agente antipsicótico, caso apresentem sintomas de transtorno autista e comportamento agressivo, tendência de auto-agressão, acessos de raiva ou grave mudança de humor.

Mas muitos médicos dizem que prescrevê-los para as crianças mais jovens pode causar riscos graves ao desenvolvimento tanto de seu cérebro quanto de seu corpo. O médico Ben Vitiello, chefe do setor de tratamento preventivo e de pesquisa para criança e adolescente no Instituto Nacional de Saúde Mental, diz que é muito difícil diagnosticar adequadamente uma doença mental em crianças por causa de sua variabilidade emocional.

“Este é um fenômeno recente, em grande parte impulsionado pela percepção equivocada de que esses remédios são seguros e bem tolerados”, disse.

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