Jornalista e mãe de dois escreve livro sobre o quanto a vida no útero determina nossa saúde e personalidade para o resto da vida

Annie lê para os filhos: pesquisa do tema começou na gestação do segundo menino
Christopher Capozziello/The New York Times
Annie lê para os filhos: pesquisa do tema começou na gestação do segundo menino
Quando o primeiro filho da jornalista médica Annie Murphy Paul ainda era bebê, em New Haven, ela começou a se perguntar como os traços de personalidade são passados de uma geração para outra. Assim, mergulhou em literatura científica e conversou com pesquisadores. E, durante a pesquisa, ela ficou grávida.

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"Originalmente, eu queria escrever sobre a transmissão de características e comportamentos em famílias", disse a jornalista, de 38 anos. "Isso definitivamente veio do fato de eu ter meu primeiro filho, e pensar sobre o que eu iria querer passar de minha família e da de meu marido".

Mas então ela ficou intrigada com a ideia de que algumas características importantes poderiam ser transmitidas no útero, durante a gestação. "Isso chegou me pareceu uma ideia espantosa", disse ela. "Algo entre a natureza e a educação, ou ambos".

A ideia levou ao seu aclamado livro, "Origins: How the Nine Months Before Birth Shape the Rest of Our Lives" (Origens: Como os nove meses antes do nascimento definem o restante de nossas vidas, em tradução livre). Dividido em nove capítulos, que refletem os nove meses das gestações da própria autora, o livro explora a ideia de que problemas cardíacos, diabetes e talvez outras doenças podem ter suas origens durante a gravidez.

Essa hipótese é defendida por uma sucessão de estudos. Alguns cientistas têm o palpite de que a dieta de uma mulher grávida e sua exposição a diversos compostos químicos ativam alguns genes fetais, que desativam outros. Essas trocas desempenham um papel vital, tornando a criança mais ou menos suscetível a doenças, incluindo problemas mentais.

A meta principal da pesquisa é dividida em duas: ser capaz de aprimorar os conselhos a mulheres grávidas e identificar indivíduos de alto risco bem cedo, até mesmo no nascimento. Dito isso, o campo ainda está em seu estágio fetal.

Mesmo assim, ela considerou a pesquisa reconfortante. "As pessoas frequentemente me perguntam: 'sua pesquisa lhe deixou mais preocupada com a gravidez?'. Mas eu descobri exatamente o oposto", disse ela. Na primeira gestação, ela não sabia com que seriedade interpretar os avisos enfrentados por todas as mulheres grávidas. "Quando me aprofundei nas pesquisas e falei com cientistas, fui capaz de colocar essas descobertas no contexto e enxergar a imagem mais ampla. Assim, era isso que eu queria fazer para os leitores", disse Annie. Hoje, os filhos da jornalista têm um e 5 anos.

Capítulo a capítulo

A autora dedica cada capítulo a uma influência ambiental que pode surgir durante os meses correspondentes da gravidez. Por exemplo, ela escreve sobre descobertas de que bebês nascidos de mães obesas usam insulina com menos eficácia do que aqueles cujas mães realizaram cirurgias de perda de peso antes da gravidez.

As descobertas sugerem que o ambiente no útero pode desempenhar um papel na diabete que vai além da genética – assim como uma descoberta de que ratos alimentados com "junk food" tinham 95 por cento mais chances de gerar ninhadas predispostas a comer demais.

Annie também descreve a metilação, processo pelo qual um grupo de elementos químicos (metil) se prende a genes e controla se eles são ativados ou desativados. Alguns alimentos agem como metiladores. Um estudo com uma espécie de ratos gordos, inclinados à diabete e ao câncer, descobriu que, quando colocados numa dieta rica em metiladores, seus filhotes cresciam magros e sem um risco elevado para doenças.

Esse tipo de pesquisa tem sua origem no trabalho de David Barker, professor da Universidade de Southampton, na Inglaterra, que ligou a subnutrição em mulheres ao risco elevado de doenças cardíacas e diabetes em seus filhos. Suas ideias, desenvolvidas na década de 1980, foram amplamente rejeitadas no início – hoje, porém, muitos de seus críticos se tornaram colegas e o consideram o pai desse campo de pesquisa.

As observações de Barker, assim como os experimentos mais recentes sobre mecanismos de gestação, são "uma incrível combinação de ciência médica vinda de duas direções distintas", afirmou Alfred Sommer, reitor-emérito da Faculdade Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. Sua equipe descobriu que mulheres nepalesas subnutridas, recebendo vitamina A durante a gravidez, tinham bebês com maior desenvolvimento de pulmões, talvez prevenindo doenças futuras.

Peixe: mocinho ou vilão?

Annie conta que, durante sua primeira gravidez, tinha medo de comer peixe – graças aos potenciais efeitos tóxicos do mercúrio. Em sua segunda gestação, ela leu sobre um estudo indicando que as mulheres que comiam pouco peixe durante a gravidez tinham maior probabilidade de ter filhos com resultados ruins em testes de QI verbal. Ela começou a comer sardinhas, que têm baixo teor de mercúrio e alta concentração de ácidos graxos ômega-3.

Seus maiores críticos, segundo ela, não foram os cientistas, mas sim "mulheres comuns, que afirmaram que isso deixará as mulheres mais ansiosas". Para elas, Annie estava "aumentando o fardo que as grávidas já carregam".

"Minha resposta a elas é que a pesquisa é real, isso está acontecendo e nós vamos continuar ouvindo informações a respeito", disse a jornalista e autora do livro. "No momento, estamos vivendo o pior de todos os cenários, com as mulheres sendo bombardeadas por essas mensagens sensacionalistas da mídia. Se podemos aprender mais sobre o assunto e enxergar o quadro mais amplo, isso é melhor do que as outras opções: ignorar o assunto, repudiá-lo ou deixar que as táticas de amedrontamento nos levem à loucura".

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