Da infância à adolescência, saiba como superar os medos que afligem seu filho

A pequena Clara sofre com terríveis pesadelos
Guilherme Lara/ Fotoarena
A pequena Clara sofre com terríveis pesadelos
Sentir medo faz parte da vida. Desde bebês, sofremos os medos de entender o que é mundo fora do colo da mamãe ou dos braços do papai. Na infância, a curiosidade e a imaginação trazem nuances mais criativas para o medo: “de onde vem aquele barulho? Só pode ser um monstro!”. Assim vai, até aprendermos a lidar com cada um destes medos.

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A psicóloga clínica Maria Regina Brecht Albertini, especialista em psicopatologia infantil, enuncia uma equação para determinar a durabilidade de um medo da cabeça de uma criança: intensidade + frequência + influência do ambiente. A maneira como alguém lida com seus medos e inseguranças está intimamente relacionada à forma como seus pais, desde o início, ensinaram.

De acordo com a escritora Molly Wigand, em seu livro “Por que ter medo?” (Editora Paulus), as crianças necessitam de coragem para examinar seus medos e habilidades para lutar com a tensão do dia-a-dia. E para aprender estas tarefas, elas precisam de adultos que se preocupem em mostrar o caminho das pedras. Como tudo na vida é cíclico, não há medo que se perpetue. Cada fase da vida conta com aflições diferentes e naturais, mas é preciso ficar atento para um simples medinho não se transformar em uma futura patologia.

Asas à imaginação
Clara Lima tem quase 4 anos e é uma criança corajosa no dia-a-dia. Mas, na hora de dormir, tem pesadelos de assustar até os pais. De acordo com a mãe Renata Lima, há noites em que Clara chora e grita dormindo, assustada com seus pesadelos, mais de uma vez. Os temas são comuns a esta fase da infância: princesas e bruxas malvadas. Com pesadelos tão assustadores como os dela, nada como correr para o lugar mais seguro do mundo: o meio da cama dos pais. “Ela dá gritos de madrugada que assustam todo mundo, então ficamos com dó e a colocamos pra dormir no meio de nós dois”, conta Renata.

Na tentativa de ajudar a diluir os medos noturnos da pequena, Renata consultou seu pediatra e até investiu em um tratamento homeopático. “O pediatra falou que poderia ser terror noturno, e prescreveu remédios homeopáticos. Ela começou a tomar e melhorou, mas agora voltou a ter os pesadelos de novo ”, diz.

Medo de monstros, bruxas e seres de outro mundo são mais comuns em crianças da idade de Clara do que se imagina. Segundo Maria Regina, é justamente entre os 2 e 4 anos de idade que as crianças começam a ter medo, por exemplo, do escuro e das ameaças que ele pode representar - principalmente quando aliado a um repertório que conta com os monstros da ficção infantil.

Conhecendo o mundo
Mas não só a ficção faz tremer uma criança: quando a distinção entre o real e o imaginário começa a se delinear com mais clareza na cabeça de seu bebê, é justamente a noção de realidade que passa a exercer o papel de vilã. Isabela Vieira, hoje com 7, tinha apenas 5 anos quando teve sua primeira e mais forte manifestação de medo até agora. O contato dela com a fragilidade da vida aconteceu em 2009, com a morte do cantor Michael Jackson. “Eu e meu marido gostávamos muito do Michael. Quando ele morreu, sempre parávamos para ver matérias a respeito na televisão. Foi aí que a Bela começou a sacar que o mundo não era só cor de rosa, e que as pessoas podem morrer”, conta a gerente de projetos Helen Vieira, mãe de Isabela.

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A partir daí, a menina passou a perguntar frequentemente a seus pais por que as pessoas morrem e passou a ter medo de perdê-los. Quando Helen, certo dia, ficou presa no trânsito e se atrasou cinco minutos para apanhar Isabela no balé, ela caiu em prantos com medo de ser esquecida e ficar sozinha.

Medos como o de Isabela são muito comuns e estão calcificados na ansiedade do reencontro da criança com sua família. Segundo Maria Regina, a melhor atitude a se tomar nestes casos é estabelecer rotinas para a criança se sentir mais segura em relação à família. Já sobre o medo da morte, vale prestar atenção para a criança não criar restrições demais em relação à vida pelo medo de morrer ou de perder um ente querido.

Em um ponto as especialistas concordam: quem determina quanto e até quando um medo vai atormentar a vida de uma pessoa é a família. Para ajudar na orientação dos pais, listamos os nove medos mais frequentes no desenvolvimento infantil – e sugestões para lidar com eles.

Os medos em todas as idades de seu filho
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Os medos em todas as idades de seu filho

Medo de lugares e pessoas estranhas
Fase mais comum: 0 a 12 meses

Começar a tomar contato com o mundo pode ser uma aventura bastante assustadora para um bebê. Aidyl de Queiroz Perez Ramos, membro titular do conselho de psicologia infantil da UNESP, conta que desde o início da vida o bebê deve ser ensinado a

conhecer o mundo. Isso significa fazer com que ele se sinta seguro em relação ao lar e à família, mas sem deixar de apresentar o que a vida tem a oferecer. Cuidado extremo e exagerado gera insegurança. Portanto, cuide bem de seu bebê, mas não o acostume a se sentir seguro apenas quando estiver perto de você.

Medo de ser esquecido na escola (abandonado)
Fase mais comum: 2 a 3 anos

E se meus pais me esquecerem aqui? Esta é uma dúvida comum para crianças que começam a se relacionar com o mundo externo e ainda veem os pais como o único e exclusivo ponto de segurança de suas vidas. Chorar no primeiro dia de aula de seu filho só faz com que ele se sinta ainda mais inseguro. A ansiedade do reencontro da criança com sua família provoca este medo. Segundo Maria Regina, a melhor atitude a se tomar nestes casos é estabelecer boas rotinas em relação ao mundo interno e externo da criança, assim ela se sente mais segura em relação à família.

Medo de ser trocado
Fase mais comum: não tem idade

Deixar de ser o único bebê da casa pode ser extremamente ameaçador para uma criança pequena, principalmente quando ela presencia as mudanças que uma gravidez causa em toda a família. Esta situação pode determinar por um bom tempo a relação de seus filhos. Aidyl recomenda reforçar as relações entre o primogênito e o caçula mostrando para seu filho que o bebê vai fazer parte do time dele, o das crianças da casa.

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Medo do escuro e de barulhos
Fase mais comum: 2 a 4 anos

De acordo com a autora Molly Wigand, o ideal nestes casos é mostrar que a razão de todo esse medo e insegurança é apenas a imaginação de seu filho. Se for preciso, embarque na viagem: vistorie com ele o espaço debaixo da cama e os armários e mostre que não há nada no quarto para persegui-lo.

Medo de dormir sozinho
Fase mais comum: 2 a 4 anos

Dormir sozinho é um passo muito importante para o desenvolvimento da criança, mas muitas vezes ela pode se sentir mais insegura em relação à “ausência” de seus pais do que feliz com o novo espaço conquistado. Sofrer ou demonstrar insegurança ao deixar seus filhos no quarto deles só piora a situação. Em vez de fragilizar a relação de seu filho com o novo espaço, ressalte a importância daquela conquista.

Medo do sobrenatural (monstros, espíritos, vampiros, bruxas)
Fase mais comum: 4 a 6 anos

O contato com esse tipo de ficção costuma ocorrer exatamente quando a imaginação da criança está a todo vapor. Se seu filho ainda é novo, escolha melhor os gêneros de literatura, programas de televisão e filmes que ele assiste, para não sofrer tão cedo o impacto da imaginação estimulada pelo sobrenatural. Para a psicóloga Maria Regina, é muito fácil para uma criança confundir o real com o fictício. Assim, barulhos normais que vêm da rua podem se transformar em vampiros sugadores de sangue ou monstros terríveis.

A solução, neste caso, é trabalhar melhor a fronteira entre a realidade e a ficção. Se seu filho tem a imaginação muito fértil, e por isso acaba se assustando ainda mais com o sobrenatural, deixe ele falar a respeito. Escreva histórias sobre esse mundo com ele, desenhe, interprete. Ele adquire mais confiança por perceber que tem o domínio sobre esse mundo imaginário.

Medo do mundo
Fase mais comum: 5 a 8 anos

Passada a fase do contato com o lúdico e o ficcional, as crianças começam a atentar para os perigos da realidade. Nesta fase, ao fazer companhia para os pais no horário do jornal, elas prestam mais atenção na conversa dos adultos e começam a tomar consciência do que acontece mundo afora. Se acidentes, assaltos e tragédias dão medo até nos adultos, imagine para as crianças. “Oriente seu filho a não transformar estes medos em fobias ou quadros clínicos como síndrome do pânico”, recomenda Aidyl. A chave para ajudá-lo é ensiná-lo a ter precaução. Como lidar com pessoas estranhas na rua, ter cuidado com os lugares que frequenta, obedecer as regras de trânsito para atravessar a rua... Ensinando direito e sem instaurar insegurança, a criança entrará na adolescência mais preparada para encarar novos impasses.

Medo da morte
Fase mais comum: 8 a 11 anos

O medo da morte é o mais presente para as crianças neste período, que já estabeleceram a segurança

de estar com sua família e agora vão começar a temer a possibilidade de perdê-la. De acordo com Maria Regina, quando a criança percebe a finitude da existência, pode passar a ter cuidados excessivos com a própria vida. Traços de comportamento hipocondríaco ou obsessivo podem surgir e, nestes casos, é preciso procurar ajuda médica.

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Medo de não ser aceito
Fase mais comum: 12 a 18 anos

O medo mais comum nesta fase é o de não ser aceito ou não pertencer ao grupo. Se seu filho tem medo de não ser aceito pela turma por não jogar futebol, por exemplo, mostre que ele tem dezenas de outros atributos que fazem dele um jovem interessante. Estimule-o a mostrar isso. Nunca aborde esse tipo de problema a partir daquilo que seu filho não consegue fazer: se ele não joga futebol, comece falando em como ele é bom com instrumentos musicais. Assim, ele perde o foco do que é frágil em si para dar atenção ao que sabe fazer de melhor. 

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