Pesquisadores elucidam relação entre genética materna e TDHA

Transtorno de deficit de atenção pode ter origem genética
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Transtorno de deficit de atenção pode ter origem genética
Pesquisadores noruegueses relatam que crianças cujas mães são mais propensas a produzir pouca serotonina por causa de mutações genéticas podem correr maior risco de desenvolver Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ao longo da vida.

Segundo os pesquisadores, a serotonina está envolvida em muitas funções fisiológicas e desempenha um papel importante durante o desenvolvimento, principalmente das células nervosas. “A baixa produção dessa química por parte da mãe pode ter efeitos profundos no comportamento dos filhos em longo prazo, independentemente de seus genótipos”, disse o Dr. Jan Haavik, pesquisador do departamento de biomedicina da Universidade de Bergen que liderou o estudo.

“Com o desenvolvimento tecnológico, o seqüenciamento sistemático dos genes poderá dar mais clareza aos mecanismos de transtornos complexos, como o TDAH”, ele completou.

O relatório foi publicado na edição de outubro do Archives of General Psychiatry. Para o estudo, Haavik e seus colegas de equipe colheram amostras de sangue de 495 adultos com TDAH e de 97 de seus familiares, além de 187 pessoas sem um histórico do transtorno – todos eles da Noruega. Foram também coletados dados sobre o diagnóstico e os sintomas psicológicos destes indivíduos.

Depois disso, os pesquisadores seqüenciaram os genes de 646 dos participantes e encontraram nove mutações, oito delas relacionadas às duas enzimas envolvidas na síntese corporal de serotonina.

Os pesquisadores constataram que os filhos de mães predispostas a uma baixa produção de serotonina tinham maior probabilidade de desenvolver TDAH. Dentre 38 membros familiares e 41 crianças, os participantes cujas mães apresentaram uma das mutações tiveram um risco de 1.5 a 2.5 mais alto de desenvolver o transtorno, comparados aos outros participantes que não apresentaram essa mutação ou às crianças cujos pais apresentaram mutações.

Soma de fatores

O número e a severidade dos sintomas variaram enormemente, o que sugeriu que no caso dos filhos de mães com essas mutações, “o resultado clínico provavelmente depende da soma de vários fatores genéricos e ambientais, além de variações nos níveis de serotonina da mãe”, disseram os pesquisadores noruegueses.

Eles também enfatizaram que serão necessários outros estudos replicando estes resultados para confirmar essa relação, “preferencialmente em amostras maiores”.

O Dr. Setephen Zuchner, professor associado e diretor do Centro de Genoma Molecular Humano da University of Miami Miller School of Medicine, afirmou que existe um debate considerável sobre a proporção da contribuição genética do TDAH.

“Eu acho que a contribuição genética é certamente significativa. Há poucas dúvidas de que o TDAH tem um componente genético”, disse ele. Entretanto, Zuchner acha que o desenvolvimento do problema é resultado tanto da genética quanto do ambiente. “Não é comum a idéia de que somente a genética pode causar o transtorno”, disse ele.

Zuchner também destacou que este é um estudo pequeno, então seria prematuro tentar identificar o risco de desenvolver TDAH baseando-se nessas mutações genéticas. “Eu prefiro ser cauteloso e não tirar conclusões maiores a partir deste pequeno estudo”, disse ele.

Estudos

Pelo menos um estudo encontrou alguma evidência de uma contribuição genética para o TDAH. Um relatório da edição online da revista especializada The Lancet de 30 de setembro constatou que muitas pessoas acometidas pelo transtorno aparentemente têm uma anormalidade genética que talvez os predisponha à conexão mencionada, relatam pesquisadores do Reino Unido.

A equipe britânica analisou informações genéticas de 366 crianças com TDAH, comparando-as com um grupo de controle de 1.000 indivíduos de mesma etnia. O primeiro grupo apresentou probabilidade significantemente maior de ter segmentos de DNA duplicados ou ausentes – as chamadas variações no número de cópias de segmentos de DNA (CNVs). Os pesquisadores observaram que este tipo de variação genética é mais comum em indivíduos com distúrbios cerebrais.

As descobertas foram replicadas em um estudo de 825 pacientes islandeses com TDAH e mais 35.000 participantes de um grupo de controle do mesmo país.

Em materiais de base do estudo, os pesquisadores britânicos disseram ter esperanças que as descobertas venham a superar o estigma do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade – associado por muitos a problemas dos pais ou a uma dieta pobre em nutrientes – ao sugerir que o transtorno tem um componente genético. Finalmente, um terceiro estudo – desta vez um pequeno estudo de caso de cerca de 250 crianças – constatou que crianças com TDAH são mais propensas a sofrer depressão ou tentar o suicido na adolescência.

Na verdade, de 16 a 37% dos indivíduos com TDHA sofrem de um transtorno depressivo importante ou de uma forma relativamente branda de depressão conhecida como distimia, disse o pesquisador Andrea Chronis-Tuscano, da Universidade de Michigan.

“Essas descobertas sugerem que é possível identificar crianças com TDAH ainda muito jovens que correm um sério risco de desenvolver depressão e comportamento suicida mais tarde. Com base no que já é conhecido sobre os resultados anti-sociais do TDAH na infância e o risco de danos involuntários que o transtorno apresenta, não seria prematuro testar programas de prevenção na fase inicial, criados para reduzir as sérias conseqüências comportamentais e afetivas do TDAH no início da infância”, declararam os autores do estudo, na mesma edição de The Lancet.


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