Frases de Roberto Justus colocam a participação paterna em discussão e mostram que, apesar dos avanços, o jargão está longe de ser realidade

Justus com a filha Rafaella: para o empresário, participar de menos tarefas não o torna menos pai
Orlando Oliveira/AgNews
Justus com a filha Rafaella: para o empresário, participar de menos tarefas não o torna menos pai
Não basta ser pai, tem que participar. O velho slogan parece atingir o auge do seu significado em pleno século 21. O exercício da paternidade tem sentido cada vez mais amplo: às vezes, o pai assume vários papéis na vida do filho, da gestação à maturidade. Em outras, continua apoiado sobre pensamentos tradicionais, tendo apenas uma função em relação aos filhos.

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A recente declaração do publicitário Roberto Justus trouxe o tema da participação paterna de volta à tona. Em entrevista para a apresentadora Luciana Gimenez, ele disse: “Troco [fraldas] por experiência, mas não gosto. O pai não precisa se sacrificar em certas coisas. (...) Eu não posso amamentar, então por que tenho que acordar junto? E não sou menos pai por causa disso” (veja o vídeo ao final da página) . A declaração revela um quadro diversificado de pais, que têm participações diferentes nos cuidados diários de seus filhos, mas sempre com uma boa justificativa para os erros, acertos, falhas, presença, ausência.

“Aqui no Brasil convivemos com o antigo e o novo a todo tempo, por conta da nossa diversidade cultural, econômica, física e educacional, entre outras. Em alguns aspectos, a família continua sendo como era. Mas também já não é mais a mesma”, diz Ceneide Cerveny, psicóloga e professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica).

Segundo Ceneide, as mulheres querem sim os pais mais presentes, e eles também querem estar mais perto dos filhos. “Mas não dá para esquecer que, nos primeiros meses, uma criança exige muito mais da mãe. É natural e sempre vai ser assim”, opina.

Mas o “curso natural das coisas” não pode ser interpretado como uma sobrecarga materna. “O pai não amamenta, mas pode sim nutrir o bebê e a mãe com apoio e equilíbrio, estando presente neste momento”, sugere a pediatra e professora da Faculdade de Medicina da USP Ana Maria Escobar. “Fazer o bebê arrotar para que a mãe volte dormir mais tempo já ajuda muito”, completa.

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Caio e o filho, Enzo, nadam juntos: ele não levanta à noite, mas dá banho, troca, faz e dá comida
Arquivo pessoal
Caio e o filho, Enzo, nadam juntos: ele não levanta à noite, mas dá banho, troca, faz e dá comida
Sintonia do casal


Para o analista de sistemas Caio Lanzoni, 27, pai de Enzo, de 8 meses, o mais importante neste arranjo de “quem faz o quê” é a sintonia do próprio casal. Foram raríssimas as vezes em que ele acordou de madrugada, desde o nascimento do filho, seja para trocar uma fralda ou mesmo para acalmá-lo. “Minha mulher sempre foi lá, sem me requisitar, e nunca me senti obrigado”, conta.

Caio participa em outros momentos. “Eu dou banho, faço comida, dou comida, fico com ele se a mãe precisa ir ao médico ou tem outro compromisso. Nunca precisamos explicitar verbalmente você faz isso, eu faço aquilo. Contamos um com o outro, sem cobranças”, explica.

A maneira como se estabelece a relação entre pai e filho depende de muitas variáveis. O psiquiatra Luiz Cuschnir, do Instituto de Psiquiatria do HC (Hospital das Clínicas) da Faculdade de Medicina da USP, chefia um grupo de estudo sobre a evolução do homem contemporâneo em sessões de psicoterapias. Para ele, os pais vivem situações muito diferentes quando são mais jovens e quando são mais velhos, sem falar da educação e paradigmas vigentes de cada época ou da diferença de idade dos casais.

Houve sim uma maior interação e envolvimento dos homens no papel de pai. Mas, segundo o psiquiatra, a ligação de um pai com seu filho também depende do grau de maturidade que ele tem para estabelecer a importância da relação. “Nem sempre é pela ação física do amamentar que se estabelece a importância da presença, mas pelo contato constante que inicia a ligação emocional com este filho”, complementa.

Julia olha para o pai, Lui, que passou a trabalhar menos por escolha própria:
Arquivo pessoal
Julia olha para o pai, Lui, que passou a trabalhar menos por escolha própria: "o tempo com minha filha não tinha preço"
Grávidos

Mas há casos e casos. Alguns homens literalmente ficam grávidos com suas esposas, enquanto outros só entendem o que está acontecendo ao pegar o filho no berçário ou chegar em casa com o novo membro da família nos braços. Para o ator Lui Strassburger, 55 anos e pai da pequena Julia, 3, tudo aconteceu junto. “Nasceram a filha, a mãe e o pai”, conta orgulhoso.

Ele e sua esposa não pretendiam ter filhos. A gravidez veio depois de 20 anos de casamento, sem planejamento mas também sem grandes neuroses. Ele tinha mais de 50 e a mulher, 42. “Eu fiquei literalmente grávido, acompanhei toda gestação e sou um pai muito presente e participativo”, diz o ator.

Embora seja um típico pai faz-tudo – aquele que dá banho, faz comida, trocava fraldas, põe para dormir – Lui não critica quem não seguiu essa direção. “Cada um tem seu próprio entendimento sobre a paternidade, sua escala de valores. Foi uma escolha minha, pessoal. Passei a trabalhar menos, a ganhar menos, porque achei que esse tempo que eu poderia ter com minha filha não tinha preço. Só agora, que ela tem 3 anos, estou voltando a um ritmo mais puxado”, justifica. Ele e sua mulher contam hoje com a ajuda de uma babá três vezes por semana, por meio período apenas.

Mas, segundo Lui, o fato de ter sido pai mais velho – aos 52, quase a mesma idade em que Roberto Justus recebeu Rafaella, aos 54 – certamente possibilitou um outro olhar sobre o nascimento da filha. “Costumo me comparar com o jogador mais velho de um time de futebol, que joga mais no meio de campo, se move mais quando é necessário, usando a inteligência e experiência para canalizar energias”, diz o pai. Para ele, uma certeza é clara: não vivenciaria a paternidade dessa maneira se tivesse sido pai aos 30.

O que torna um homem mais ou menos pai é relativo. Embora estejam construindo uma nova paternidade, participando cada vez mais dos cuidados, da educação, oferecendo possibilidades e apresentando o mundo, os pais ainda investigam a importância do próprio papel.

Para o psiquiatra Luiz Cuschnir, nem todos os pais atingem a consciência da sua importância. Por isso mesmo devem ser orientados e valorizados, principalmente pela mulher, já que esta é colocada em posição de mais valor pela crença em seus “instintos maternos”. “Com essa mudança de atitude, a sociedade absorve esses conceitos e passa a discuti-los mais. Hoje os homens debatem esse assunto entre eles, passam a criar um novo conhecimento e sentem-se reconhecidos por isso”, explica.


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