Quase 96% das grávidas que não são casadas na Coreia do Sul escolhem o aborto; das que têm o bebê, dois terços doam para adoção

Seul, Coreia do Sul – Quatro anos atrás, quando descobriu que estava grávida do ex-namorado, Choi Hyong-sook considerou o aborto. Mas depois que ela escutou o pequeno som da batida do coração de seu filho em imagens de ultrassom, não conseguiu levar adiante o plano. À medida que a gravidez avançava, ela se voltou para o irmão mais velho. A reação dele soaria familiar a mães solteiras na Coreia do Sul: segundo ela, ele tentou arrastá-la para uma clínica de aborto. Mais tarde, ele a pressionou para dar a criança para adoção.

“Meu irmão disse: ‘Como você pode ser tão egoísta? Você não pode fazer isso com os nossos pais’”, disse Choi, 37, cabeleireira em Seul. “Mas quando a agência de adoção levou meu bebê, senti como se o tivesse jogado no lixo. Parecia que a terra tinha parado de girar. Eu os convenci a devolver meu filho depois de cinco dias”.

Agora, Choi e outras mulheres na mesma situação estão tentando montar a primeira associação de mães solteiras do país para defender o direito de criar os próprios filhos. É um passo pequeno, porém incomum em uma sociedade que exclui mães que não se casaram.

O grupo inexperiente e novo de mulheres – somente 40 estão envolvidas até agora – está investindo contra uma das maiores ironias da Coreia do Sul. O governo e comentaristas se preocupam com a taxa de natalidade do país, uma das mais baixas do mundo, e lamentam a reputação internacional da Coreia do Sul como exportador de bebês para adoções estrangeiras.

A cada ano, a pressão social leva milhares de mulheres solteiras a escolher entre o aborto, que é ilegal, mas desenfreado, e a adoção, que é considerada socialmente vergonhosa, embora encorajada pelo governo. As poucas mulheres que decidem criar uma criança sozinha arriscam uma vida de pobreza e desgraça.

Quase 90% das 1.250 crianças sul-coreanas adotadas em países estrangeiros no anos passado, a maioria por casais americanos, nasceram de mulheres solteiras, de acordo com o Ministério da Saúde, Bem-Estar e Assuntos Familiares.

Em sua campanha, Choi e as outras mulheres atraíram aliados incomuns. Os adotados nascidos na Coreia e as suas famílias estrangeiras têm voltado para cá nos últimos anos para falar pelas mulheres, que enfrentam as mesmas dificuldades na Coreia de hoje que as mães dos adotados enfrentaram décadas atrás.

Um dos apoiadores, Richard Boas, um oftalmologista de Connecticut que adotou uma garota coreana em 1988, disse que estava ajudando outras crianças estrangeiras adotadas na América quando visitou uma agência de serviço social na Coreia do Sul em 2006 e começou a repensar sua “mentalidade de resgate e salvador”. Lá, encontrou várias grávidas, todas solteiras e na casa dos 20 anos.

“Olhei ao redor e me perguntei por que essas mães estavam dando as crianças”, disse Boas. Ele criou a Rede de Apoio a Mães Solteiras Coreanas, que faz lobby por melhores serviços de bem-estar por parte do estado.

“O que vemos na Coreia do Sul hoje é discriminação contra mães naturais e favorecimento à adoção em nível de governo”, disse Jane Jeong Trenka, 37, adotada nascida na Coreia que cresceu em Minnesota e agora lidera o Verdade e Reconciliação para a Comunidade de Adoção da Coreia, um de dois grupos organizados por adotados coreanos que voltaram para a terra natal para advogar em favor dos direitos dos adotados e mães solteiras. “A cultura não é uma desculpa para abusar dos direitos humanos”.

Estatísticas
Em 2007, 7.774 bebês nasceram de mães solteiras na Coreia do Sul, 1.6% de todos os nascimentos. Nos Estados Unidos, quase 40% dos bebês nascidos em 2007 tinham mães solteiras, de acordo com o Centro Nacional de Estatísticas de Saúde. Quase 96% das grávidas não-casadas na Coreia do Sul escolhem o aborto, de acordo com o Ministério da Saúde, Bem-Estar e Assuntos Familiares.

Das mulheres não-casadas que dão à luz, acredita-se que cerca de 70% dão os filhos para adoção, de acordo com uma pesquisa financiada pelo governo. Nos Estados Unidos, os dados são de 1%, revela o Departamento de Serviços Humanos e de Saúde.

Durante anos, o governo sul-coreano tem trabalhado para reduzir as adoções além-mar, que chegaram ao pico de 8.837 em 1985. Para aumentar as adoções caseiras, oferece subsídios e benefícios extras de plano de saúde para famílias que adotam, e designou o dia 11 de maio como o Dia da Adoção.

Também gasta bilhões de dólares por ano para tentar reverter a taxa de natalidade que cai, subsidiando tratamentos de fertilidade para casais casados, por exemplo. “Mas não vemos uma campanha para mães solteiras para criar nossos próprios filhos”, disse Lee Mee-kyong, mãe solteira de 33 anos. “Uma vez que você se torna uma mãe solteira, é tachada de imoral e uma falha. As pessoas nos tratam como se tivéssemos cometido um crime. Caímos para o degrau mais fundo da sociedade”.

O governo paga uma compensação mensal de 85 dólares por criança àqueles que adotam crianças. Oferece metade disso para mães solteiras de crianças dependentes.

Estigma social
O governo está tentando aumentar os pagamentos para ajudar as mães solteiras e acrescentar mais facilidades para prover cuidados a grávidas não-casadas, disse Baek Su-hyun, funcionário do Ministério da Saúde. Mas o estigma social inibe as mulheres de avançar. Chang Ji-young, 27, que deu à luz um menino no mês passado, disse: “A irmã do meu ex-namorado gritou comigo no telefone exigindo que eu fizesse um aborto. A mãe e a irmã disseram que cabia a elas decidir o que fazer com meu filho porque era a semente da família delas”.

As famílias cujas filhas não-casadas ficam grávidas às vezes se mudam para esconder a gravidez. Mães solteiras geralmente mentem sobre o estado civil por medo de serem despejadas pelos senhorios e as crianças ofendidas na escola. Só cerca de um quarto dos sul-coreanos está disposto a ter um relacionamento próximo com uma mãe solteira como companheiro de trabalho ou vizinho, de acordo com um levantamento recente pelo Instituto de Desenvolvimento de Mulheres Coreanas, financiado pelo governo.
Choi, a cabeleireira, disse que a família mudou o telefone para evitar contato com ela. Quando o pai foi hospitalizado e ela foi vê-lo com o filho, disse ela, a irmã os proibiu de entrar no quarto. Quando escreveu para ele, o pai queimou as cartas. No ano passado, cerca de três anos depois do nascimento, ele finalmente aceitou Choi de volta à casa.

“Naquele dia, eu o vi no banheiro, chorando em cima de uma das minhas cartas”, afirmou ela. “Percebi o quanto deve ter sido difícil para ele também”.

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