Na maioria dos casos quem acompanha é o pai, mas pode ser qualquer outra pessoa da confiança da mãe

Eric desmaiou dentro do centro cirúrgico no nascimento de seu primeiro filho, Samuel
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Eric desmaiou dentro do centro cirúrgico no nascimento de seu primeiro filho, Samuel
Em um momento tão singular como o parto, onde a mulher está vulnerável e ansiosa, uma pessoa familiar por perto traz segurança e conforto. Além de proporcionar outros benefícios para a gestante e o bebê como redução do tempo do trabalho de parto e diminuição da necessidade de receber analgésicos.

“Medo e receio aumentam a dor. Estando amparada e feliz a pessoa suporta melhor os desconfortos e com isso as alterações na hora do parto tendem a reduzir, tanto no natural quanto na cesárea”, explica Cícero Venneri Mathias, médico obstetra da Universidade Federal de São Paulo e membro da Associação de Obstetrícia e Ginecologia de São Paulo (SOGESP).

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A presença do acompanhante no parto e pós-parto é garantida pela Lei 11.108, de 2005. A mulher tem, inclusive, o direito de decidir quem vai estar com ela na hora H. Em 2008 a Lei foi atualizada e os planos privados também foram incluídos pela Resolução Normativa nº 167 da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), vinculada ao Ministério da Saúde e responsável por regular os planos de saúde.

Pessoa de confiança
A psicóloga Ilana Setton descreve a presença dos familiares como um dos momentos mais importantes do nascimento do seu filho Raphael. Na hora do nascimento era só o marido e a mãe. Mas no trabalho de parto e depois do momento de expulsão estavam ali pai, irmão e sogros, conversando e até contando piada.

O vai-e-vem livre de pessoas só foi possível por ser parto normal, com controle menos rígido por não ser um procedimento cirúrgico. Nas cesáreas, só pode entrar uma pessoa e com a devida paramentação. Na maioria dos casos quem acompanha é o pai da criança, já que se está falando da formação de uma família, mas pode ser qualquer outra pessoa de confiança da mulher como a mãe ou uma amiga, por exemplo.

“É essencial ter pessoas que te apóiam. É um momento muito assustador, principalmente hoje que a gente tem pouco contato com nosso lado mamífero e uma escassez muito grande de informações”, conta Ilana, autora do blog 1 e 1 são 3 onde ela descreve de maneira emocionante a experiência de dar à luz.

Para Antonio Júlio Sales Barbosa, ginecologista e obstetra do Hospital Santa Catarina, o parto com acompanhante é bom para os dois lados. É uma hora de insegurança, dor e labuta, e a situação passada em conjunto vai estreitar os vínculos de um casal.

“Poder participar e ajudar no nascimento daquele ser que você construiu com sua mulher é uma experiência ímpar. O aprendizado que se tem como pai é inquestionável”, diz o médico.
Ele ressalta, no entanto, que o pai tem que ter certeza de que vai suportar esse momento. É muito importante que seja participativo desde o começo, da concepção ao acompanhamento do pré-natal. Assim, tanto o pai quanto a mãe vão saber o que esperar da situação e como se portar.

Desmaio no centro cirúrgico
“Até o último minuto meu marido tinha dúvidas se ia aguentar. No fim, ficou comigo e segurou minha mão”, conta Ilana Setton.

Já o gerente de planejamento Eric R. Ballinger, 40 anos, não agüentou o turbilhão de emoções misturado ao sangue e apagou no centro cirúrgico quando sua mulher Joy Bar, 37, dava à luz ao primeiro filho do casal.

“Ela estava na sala e eu sentado do lado de fora. Cinco minutos antes de nascer me chamaram. Estava completamente desconectado e isso trouxe uma dose extra de ansiedade. E, de repente, você é pai pela primeira vez. É uma emoção enorme”, descreve o pai de Samuel, hoje com seis anos.

“Lembro de escutar um barulhão. Achei que o bebê tivesse caído, aí falaram: ‘não, foi só o pai.’”, conta Joy Bar, bem humorada.

No segundo parto foi tudo diferente. Eric estava super feliz e bem mais tranquilo, pois sabia o que estava acontecendo. “Foi outro clima”, completa sua mulher.

Depois que o bebê nasce o trabalho não está terminado, pelo contrário, e alguém dando suporte faz toda a diferença. “Ajudar com o bebê, especialmente à noite e na hora da amamentação é fundamental para a mãe que está insegura e cansada, em processo de recuperação. Pode também contribuir para reduzir tristezas e até uma depressão”, explica o obstetra Cícero Venneri Mathias

Resistência

Mesmo com todos esses pontos positivos e de médicos e hospitais serem cada vez mais favoráveis à presença de acompanhantes, alguns ainda apresentam resistência. Acham que o acompanhante pode atrapalhar os procedimentos ou esbarrar em algum material esterilizado, o que traz muitos problemas no caso das cesáreas. Isso acontece principalmente em hospitais particulares, onde a ocorrência das cirurgias é alta.

Já na rede pública, onde há uma diretriz que limita as cesáreas, a realidade é outra. Por não se tratar de um procedimento cirúrgio, o parto normal permite que acompanhantes não sejam vistos como possíveis causadores de problemas. “Os hospitais, em sua maioria, se preparam para isso, incentivando o parto normal e seus comemorativos”, conta Antonio Júlio Sales Barbosa, que trabalhou por muitos anos no Sistema Único de Saúde (SUS).

Seus direitos
Alguns hospitais particulares ainda cobram uma taxa de paramentação para o acompanhante, que deve ser coberta pelo seguro. Caso não seja, deve-se guardar o recibo e pedir um reembolso. Se o plano não aceitar, a saída é entrar em contato com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ou o PROCON do estado.

Se houver desentendimento na questão do acompanhante, o que se pode fazer é procurar alguns órgãos para ter o direito assegurado. No caso de quem usará serviços de hospitais públicos, pode procurar o Ministério Público do estado, o Conselho Regional de Medicina ou o Ministério da Saúde. No caso de hospitais e planos particulares, os usuários devem procurar a ANVISA ou o PROCON.

Para evitar surpresas, é fundamental conversar com o médico e o hospital sobre a questão do acompanhante com antecedência. Assim, dá tempo de acertar tudo antes do parto.

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