As notícias sobre desastres naturais e violência urbana não param, mas esconder isso do seu filho não é a melhor saída

Trauma: evitar assuntos delicados não ajuda as crianças
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Trauma: evitar assuntos delicados não ajuda as crianças
Você pode preferir manter o seu filho por fora das tragédias que acontecem mundo afora, desde acidentes aéreos até casos como o de Isabella Nardoni, mas atualmente as notícias correm soltas e é muito provável que ele saiba de alguma tragédia pelos amigos da escola ou pela televisão. Como superprotegê-lo não é a melhor opção, a psicóloga Ana Paula Batista, da Clínica EDAC (Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico), dá a dica: é preciso manter o diálogo sempre em aberto. Fugir do assunto não é uma boa opção.

Diariamente temos contato com acontecimentos ligados à morte ou à violência e, dependendo do grau de informação e sensibilidade da criança, se ela não tiver um respaldo dos pais, pode fantasiar sobre o assunto e criar fobias desnecessárias. “São temas realmente difíceis de conversar, mas se a imaginação dela voar, ela pode acabar criando fobias ou medo exagerado de ficar sozinha, por exemplo”, explica a especialista.

É preciso, no entanto, ter muita cautela ao tratar desses assuntos. De acordo com entrevista dada pelo psicopediatra e diretor do “Healthy Steps at the Comprehensive Family Care Center (CFCC)”, em Nova York, Rahil D. Briggs, ao site da ABC, emissora de televisão norte-americana, deve haver uma abordagem delicada sobre o tema questionado ou até mesmo vivido pela criança.

“Os pais devem perguntar o que a criança está pensando sobre o assunto, mas sem pressioná-la”, afirma o especialista. Segundo Rahil, se a criança tiver perguntas, os pais devem dar respostas honestas e breves e, principalmente, apropriadas. Além disso, ele explica que se os pais passarem segurança a elas, demonstrarem que estão no controle da situação, será mais fácil evitar possíveis traumas.

Ao deparar com um caso como o de Isabella Nardoni, por exemplo, em que não somente crianças ficam impressionadas, mas também adultos, Ana Paula indica que, caso o filho questione o assunto, os pais devem informá-lo, mas privando-o de detalhes desnecessários. “Neste caso, em que aparentemente os pais assassinaram a menina, é preciso informar como o mundo funciona, que existem pessoas com comportamentos que não são bacanas e que para isto existe a polícia, os hospitais psiquiátricos. Ela vai absorver as informações importantes”, explica.

Embora grande parte das crianças não consiga expor os sentimentos com muita facilidade, principalmente as mais novas, a psicóloga Cibele Marras, da Clínica Multidisciplinar Elipse e especializada no atendimento a pessoas que passam por um luto, afirma que, quando os pais demonstram que também se assustaram ou se sensibilizaram com um determinado acontecimento, é possível também que a criança se sinta mais à vontade: “Ela vai perceber que possui sentimentos parecidos aos dos pais, e que também está autorizada a sentir-se assim”, diz. 

Para crianças que ainda não possuem muita facilidade para falar, a melhor maneira é ajudar com que ela se expresse por meio de brincadeiras, desenhos e, segundo Cibele, existem até livros infantis que podem ajudar a criança a expressar os sentimentos. “Existem várias formas para fazer com que ela coloque para fora, mas assegurar que elas estão seguras com os pais é o mais importante neste momento”, explica.

Na presença da tragédia

Diferente de ouvir falar de acontecimentos violentos, levar um susto com um acidente de trânsito ou até mesmo presenciar o falecimento de alguém próximo pode gerar problemas à criança. Mas não necessariamente.

“Vai depender da dimensão da situação, de como isso afetará a criança”, conta Cibele. Mas os efeitos posteriores ao trauma podem ser vários, desde maiores indícios de agressão até a apresentação de um comportamento regressivo, como voltar a fazer xixi na cama. “Se estes comportamentos se prolongarem por mais de um mês, por exemplo, é preciso procurar a ajuda de um especialista”, diz, porque a criança muitas vezes não consegue se expressar direito pela fala aos pais, impossibilitando a aceitação do acontecimento vivido.

Porém, é necessário saber que as consequências mais desfavoráveis ao desenvolvimento da criança não acontecem de uma hora para a outra. De acordo com Ana Paula, a criação de uma fobia ou algo mais patológico não acontece de repente, e sim quando já há uma predisposição para isso. “Se a criança ou adolescente já tem medo de água, já viu um afogamento ou tomou um caldo na praia, ele terá maior facilidade de desenvolver uma fobia se presenciar uma situação semelhante, por exemplo” explica.

Principais sinais que uma criança pode demonstrar após uma experiência possivelmente traumática:

- Medo de ficar sozinha
-Distúrbios do sono
- Alterações nos hábitos alimentares
- Maior dificuldade para brincar
- Incapacidade de se ligar a atividades que anteriormente gostava
- Regressão em geral, como voltar a fazer xixi na cama
- Questionamento repetitivo sobre o acontecimento
- Dificuldade de concentração
- Não querer ir para a escola
- Alterações de humor: depressão, irritação, isolamento
- Desenvolvimento de comportamentos obsessivos, como se assegurar que a porta está trancada

Se estes sinais se prolongarem, sem ajuda profissional especializada, o desenvolvimento psicológico e emocional da criança pode ser prejudicado. Além disso, ela pode desenvolver um comportamento que acarrete fobias, dependendo do trauma vivenciado.

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