Com atenção redobrada dos pais e timidez dos filhos deixada de lado, viver em outro país é vantajoso para formação da personalidade

Dario e a mãe ao lado de recordações da Austrália: lição de perseverança
Randes Nunes da Cunha/Fotoarena
Dario e a mãe ao lado de recordações da Austrália: lição de perseverança
A publicitária Lia D’Amico tinha oito anos quando, durante um almoço em família, foi questionada pelo pai sobre o que achava de morar nos Estados Unidos. Sem saber muito bem o que aquilo significava, perguntou: “O que as pessoas comem lá?”. Ainda hoje, aos 24 anos, lembra muito bem a resposta: “Ele me disse que tinha McDonald’s, então eu topei”. A ideia era passar três meses fora do país. Mas a experiência de viver na cidade de Boston com a família acabou se prolongando por dois anos, e a vida em inglês – e com neve – trouxe muitos benefícios para Lia, embora a volta ao Brasil tenha sido mais difícil do que se poderia imaginar.

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Passar pela experiência de viver em outro país durante a infância ou adolescência é, sem dúvida, uma ótima oportunidade para ampliar os horizontes. Segundo a psicóloga e psicopedagoga Vera Lotufo Belardi, da Unifesp, a experiência não somente trará pontos positivos, como aprender um novo idioma e conhecer uma cultura diferente, mas também um grande desafio: conseguir se adaptar socialmente ao novo país. Quanto mais nova a criança for, mais facilmente ela vai cumprir este objetivo. “A adolescência envolve uma questão de enraizamento no grupo de amigos que já existe, mas desde que os pais expliquem as razões para a mudança e o filho entenda, só há benefícios”, afirma Vera.

Dario e os irmãos uniformizados para ir à escola na Austrália
Randes Nunes da Cunha/Fotoarena
Dario e os irmãos uniformizados para ir à escola na Austrália
No caso de Lia, a mudança da família foi motivada pela empresa em que o pai trabalhava na época. Já para a cartorária Luciana Franco de Castro, de Goiânia, 49 anos, a decisão de ir para a Austrália com o marido e os três filhos em 2004 foi tomada por outra razão: “Nós queríamos ficar mais perto dos meninos e dar a eles a oportunidade de estudar, mesmo que por um tempo determinado, numa escola de primeiro mundo”. Os meninos são Danilo, Davi e Dario, que tinham 14, 12 e oito anos na época. Além disso, Luciana e o marido queriam mostrar aos filhos que eles poderiam conquistar o que quisessem, bastava querer. A Austrália foi o destino escolhido por ser bem distante do Brasil – mas, ao mesmo tempo, ter um clima parecido.

Não foi difícil convencê-los a topar a experiência. “Eles ficaram bem animados, e nenhum quis desistir da ideia”, afirma Luciana. Eles sabiam desde o começo que estariam de volta ao Brasil – e à mesma escola – em seis meses. Para ela, isso facilitou a aceitação da viagem. Mas chegando lá, quem ficou mais assustado foi Dario, o caçula. “O Dario não sabia nada de inglês, por isso logo no primeiro dia de aula ele chorou bastante”. O nervosismo, porém, durou três dias. Logo depois ele começou a se acostumar e teve muita facilidade: “Mesmo não falando nada no começo, ele era o mais extrovertido dos três, então soube se virar bem na escola”.

A segurança das crianças menores para encarar a nova vida em um país estrangeiro está baseada no pai e na mãe, já que até por volta dos cinco anos elas não entendem muito bem o que está acontecendo. “Levar algo de que elas gostem muito pode ajudá-las a se sentirem mais tranquilas”, diz Glória Varella, diretora pedagógica da escola Kid’s Time, em São Paulo. A partir dos sete anos, elas já entendem o contexto familiar. Com isso, muitas conversas devem entrar na pauta. Adolescentes e pré-adolescentes podem oferecer resistência maior a mudanças. As amizades já cultivadas são os principais motivos para a rejeição da ideia de uma viagem.

Fábio Cardelli na escola em Londres, o segundo depois do professor: aos sete anos, só sabia
Arquivo pessoal
Fábio Cardelli na escola em Londres, o segundo depois do professor: aos sete anos, só sabia
Timidez e enfrentamento


Segundo Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta familiar da PUC-SP, crianças muito tímidas correm o risco de sofrerem caladas com as dificuldades e não conseguirem se expressar no novo idioma por medo de errar. “É uma fase de enfrentar o desconhecido e, para isso, não pode deixar as incertezas atrapalharem”, diz. O apoio familiar, portanto, é fundamental para as crianças não se fecharem socialmente diante das dificuldades. Um exemplo é o músico Fábio Cardelli, de 26 anos. Quando foi com a família para Londres, em 1992, teve bastante ajuda dos pais para se adaptar.

Ele tinha sete anos e do inglês só sabia duas palavras: “yes” e “no” (“sim” e “não”). “O primeiro mês foi uma terapia de choque: eu não sabia nada do idioma e era bem tímido, então tive que aprender na marra”, diz. O uso de gestos no início da convivência escolar foi essencial. Mas em aproximadamente três meses Fábio já sabia o inglês muito bem: “Foi como aprender a andar de bicicleta, até hoje eu sou naturalmente fluente”. A família ajudou bastante neste período. A mãe dava aulas de inglês em casa e todos passeavam muito pela cidade. “Meus pais sempre nos levavam para conhecer museus e parques de Londres, o que me ajudou a me identificar e desenvolver com o local”.

Aprender uma língua estrangeira morando fora pode ser uma terapia de choque, mas é a melhor maneira de realmente aprendê-la. Segundo Glória, estudar pelo menos um pouco antes de viajar já ajuda a se sentir mais seguro na hora H. O resto é questão de tempo. “Mas os pais devem estar muito presentes na vida delas”, diz.

Guilherme entre o irmão mais velho e a mãe: participação no time de futebol da escola norte-americana
Arquivo pessoal
Guilherme entre o irmão mais velho e a mãe: participação no time de futebol da escola norte-americana
Os pais do publicitário Guilherme Merlino, de 25 anos, também colaboraram bastante para a adaptação em Ann Arbor, uma pequena cidade perto de Detroit, em Michigan, nos Estados Unidos. Ele também tinha sete anos na época, em 1993, e o pai tinha sido expatriado. A vida lá acabou durando três anos para a família, mas o começo foi bem difícil para Guilherme: “Era uma cultura muito diferente, a escola era integral e rígida, então meu pai me buscava na escola todos os dias durante o recreio para almoçarmos juntos”.

Quando começou a entender melhor o inglês, Guilherme passou a se enturmar. No entanto, os pais permaneciam muito presentes sempre. A mãe dele, por exemplo, trabalhava voluntariamente na biblioteca da escola. “Eles colaboraram para que eu me adaptasse da melhor maneira, sem me sentir sufocado. Eu os procurava quando precisasse”, conta. No final das contas, Guilherme se adaptou tão bem ao local que entrou para o time futebol da escola – e também do Estado – e voltou ao Brasil falando português com sotaque norte-americano.

Lia e uma prima esquiando: voltar foi mais difícil do que ir
Arquivo pessoal
Lia e uma prima esquiando: voltar foi mais difícil do que ir
Cidadãos do mundo


A duração da jornada fora do país influencia – e muito – na readaptação ao voltar para a casa. “Às vezes as crianças se adaptam tão bem que não querem mais voltar”, diz a psicóloga Vera Lotufo Belardi. Foi o caso de Lia. “Eu já estava um pouco mais velha e era mais apegada aos amigos que fiz lá. Quando voltei, eu era muito diferente das outras crianças: virei a menina esquisita da escola, um extraterrestre”, conta.
Para Guilherme, depois de três anos nos Estados Unidos, a volta também foi bem complicada. Além das dificuldades de readaptação, ele foi alfabetizado em inglês e perdeu três anos do aprendizado da língua portuguesa. “Fiquei sem base, demorei muito para me recuperar e tive até que fazer aulas particulares”. Mesmo assim, ele não duvida que a experiência tenha valido a pena.

Lia tampouco hesita em reconhecer a importância da experiência de viver em outro país, ainda muito cedo, na formação de sua personalidade hoje: “Quando meus pais não estavam por perto, eu precisava me virar e me abrir para outra cultura”. Para Luciana, a experiência de seis meses na Austrália deu maior segurança aos filhos e os fez perceber que, tentando o que se quer, é sempre possível conseguir. “Hoje eles têm facilidade para enfrentar qualquer problema”, diz. Os dois filhos mais velhos, por exemplo, já saíram de casa para estudar em outras cidades.

A diretora pedagógica Glória Varella assina embaixo: “a criança volta mais amadurecida mesmo”. E vai além. Para Fábio Cardelli, a experiência fez ver as diferenças entre as pessoas com maior naturalidade. “Hoje eu me sinto mais cidadão do mundo”.

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