“Minha mulher perdeu o desejo sexual depois de ser mãe”

Psicanalistas ajudam maridos e mães a entender por que a libido é afetada durante a gravidez e após a chegada do bebê

Flávia Werlang, especial para o iG São Paulo |

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O fim do desejo: modificações hormonais, alterações de rotina e revisão da relação estão envolvidos com a maternidade
Ao tornarem-se mães, muitas mulheres sentem todo seu mundo reorganizado. O foco volta-se completamente para o bebê. Enquanto isso, os maridos se veem envolvidos em um grande problema, mesmo se desejaram igualmente a chegada do bebê.

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O analista de informática André*, casado há sete anos, vive um desafio desde o esperado nascimento do filho, há seis meses. “A experiência de ser pai tem sido maravilhosa. Durante a gestação não houve nenhuma perda na nossa vida afetivo-sexual, mas agora a energia da minha mulher é tão canalizada para o bebê que não tem sobrado muito espaço. Sexo não pode deixar de ser importante, senão o casal vira irmão. Aí é a morte da relação”, diz.

O caso é mais comum do que se imagina. “Tive minha primeira filha há dois anos e três meses. De lá pra cá não tenho vontade nenhuma de namorar meu marido. Nem lembro mais que ele está ao lado na minha cama. Às vezes, invento desculpas e coloco nossa filha para dormir junto com a gente. O que está acontecendo?”, questiona a paranaense Silvana*.

Vínculo

Uma das razões para o comprometimento exagerado é o vínculo psicológico absoluto – e equivocado – com o bebê. A mãe quer proteger seu bebê de todo o mal e acha que só a sua presença e cuidado é capaz de salvá-lo. Mas uma relação mãe-bebê saudável é aquela em que a mãe acredita que seu bebê existe, desde o começo, como um ser independente.

“Após a maternidade as mães entram em uma espécie de bolha com o bebê. Esta passagem deve ser temporária e, para o bem dela e do bebê, é preciso romper isso. A boa mãe não é aquela que não desgruda da cria, mas aquela que sabe sair e voltar”, explica o psicanalista Mário Corso.

No livro “A Arte de Amar”, o psicanalista Erich Fromm diz que a mãe deve não só tolerar, mas também desejar e dar apoio à separação do filho. “O pai é o primeiro a entrar na vida da dupla, o que ajuda o filho a sair. Se isso falhar, as consequências são bem trágicas para o pequeno. Não se trata apenas de um pai se sentindo abandonado. Se um filho fica ancorado nessa posição de farol da vida para a mãe, vai ser mais difícil sair depois. É ele que vai pagar essa conta mais tarde”, explica Corso.

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Gravidez: logo após o parto, a mulher se sente maternal, não erotizada

Cansaço

Outras razões são de ordem mais prática. Após o nascimento, a rotina fica cheia de novidades e se torna bastante cansativa. “Só depois de um próprio tempo a mulher retoma o próprio corpo. Ela se sente maternal, não se sente erotizada. Quando o bebê começa a ir para a creche, ela volta a olhar para si mesma”, avalia a psicóloga Étila Ramos.

Étila sugere aos maridos o papel de incentivador, convidando a mulher a voltar à vida além do bebê. Fazer elogios, providenciar algum tempo sozinhos, deixar o bebê uma noite com os avós. “O homem tem que reconquistar esta mulher porque ela tem um novo amor: o bebê”, resume.

Hormônios

“Durante a gravidez eu sentia muita vontade de transar, mas depois que meu filho nasce, passou. Isso me frustra porque vejo meu marido sempre com muito desejo e eu nunca tenho vontade”, diz a catarinense Thaís*.

No fim da gravidez e após o nascimento do bebê, há o aumento natural da prolactina. De acordo com Paulo Gallo, professor de Ginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, este hormônio desempenha um papel importante para a produção do leite, além de inibir a ação dos hormônios femininos produzidos pelo ovário, o que causa ressecamento vaginal e atrofia na mucosa vaginal. “Estas alterações são mais intensas nos primeiros seis meses. A partir do quarto mês, a prolactina começa a baixar e no sexto já está normalizada. As alterações da gravidez regridem e a produção do leite acontece naturalmente, devido à sucção do bebê”.

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A gestação altera os níveis de hormônios, mas nem só de hormônios vive o desejo
Se a mulher estiver sem desejo ainda após um ano, o ginecologista recomenda que ela procure o ginecologista para fazer uma avaliação hormonal. “Pode ser um problema orgânico”, sugere Gallo.

Mesmo assim, contornar esta fase é possível. “A gente não vive só de hormônios. O desejo é mobilizado por hormônio, mas também é fruto de uma produção racional. Se a gente não tem desejo, tem de construir este desejo. O que não pode é ficar esperando que ele venha como vinha antigamente, porque a dinâmica hormonal mudou”, explica o psicanalista Luiz Alberto Py.

Parceria

Não há como negar que a vida mudou desde a chegada do bebê. Mas se existe a intenção de manter o casamento, é preciso começar pela sinceridade. “Às vezes a mulher apenas não está a fim, não gosta. Nem todos precisam gostar de sexo; o problema é não admitir. Senão é o outro que fica como incompetente”, afirma o psicanalista Mário Corso.

Se você quer salvar a relação, deixe as cobranças de lado e pense o que é possível fazer daqui para frente. “Não importa quem errou, importa quem consegue consertar. Geralmente são os dois juntos. Em vez de colecionar um álbum de erros do parceiro, é melhor pensar nas nossas oportunidades de consertar estes erros”, completa Py.


* Os sobrenomes foram omitidos a pedido dos entrevistados.

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