Seu filho se recusa a tirar a fantasia e jura ter superpoderes? Saiba como protegê-lo e o que ensiná-lo nesta fase fantástica

Daniela e Paulo Ricardo: ele acha que pode virar o Homem-Aranha se for picado por um aracnídeo
Alexandre Carvalho/ Fotoarena
Daniela e Paulo Ricardo: ele acha que pode virar o Homem-Aranha se for picado por um aracnídeo
Não se assuste ao encontrar seu filho com a cueca vestida sobre a calça, uma toalha amarrada nas costas e um cabo de vassoura na mão: seu objetivo supremo, enquanto ele tem entre três e cinco anos, é se tornar um super-herói. Para pais e mães, a fase é uma das mais divertidas da infância. Mas é preciso conter o riso, pois ela marca um importante período em que o faz de conta se torna um simulado para a maturidade.

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“Do ponto de vista de desenvolvimento cognitivo, querer ser um super-herói é um exercício de criatividade”, afirma Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia. “Há também o aspecto motor: a criança pula, se mexe, observa uma ação e copia. Ela está se colocando no lugar do super-herói”. De acordo com a psicopedagoga, trabalhar o lado lúdico é essencial. E a função dos adultos neste momento é entrar na brincadeira para pontuar a transição entre a realidade e o sonho.

A policial Daniela Viggiane, por exemplo, precisa observar o filho de quatro anos de perto. Evitar aparecer de farda perto do filho e explicar as consequências do uso de uma arma estão entre os principais cuidados da mãe. “Não deixo nada ao alcance, com medo do Paulo Ricardo pegar. Ele vê as coisas na televisão e eu explico o tempo todo que aquilo é apenas para a polícia”. Mesmo assim, Paulo Ricardo está certo de que, se for picado por uma aranha, pode ser tornar o próprio Homem-Aranha. “Eu falo que se ele for picado pode até morrer. Mas adianta? Ele pegou o rolo de crochê da minha mãe e amarrou pela casa toda”.

Superseguro

Todo super-herói tem um poder fantástico capaz de torná-lo diferente dos simples mortais: uma força descomunal, a capacidade de voar, grudar nas paredes ou andar sobre chamas. É justamente isso que deixa os pais de cabelo em pé, pois muitas vezes a criança é incapaz de distinguir a fantasia do mundo real. “Os pais não podem exagerar ao incentivar a fantasia da criança”, afirma Angela Donato Oliva, professora de pós-graduação em psicologia social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “Uma coisa é brincar, e a brincadeira é algo muito sério no desenvolvimento. Mas viver a fantasia o tempo todo pode se tornar pernicioso”.

Especialmente na fase heróica do seu filho, janelas devem ter proteção (se já não a tem). E é preciso redobrar a atenção com cordas (podem enrolar no pescoço), sacos plásticos (podem sufocar) e fogo. “Por mais que os pais digam que o super-herói não é real, as crianças podem embarcar na fantasia”, ressalta Angela. “É uma fase de desenvolvimento específico. A criação de sinapses é muito intensa e o cérebro está registrando uma série de coisas capazes de acentuar a fantasia”.

Com as meninas, o risco é diferente. Elas compartilham um mecanismo parecido, mas de olho em outros modelos. “As meninas se fixam em heroínas, sim, mas não aquelas caracterizadas pela força e capacidade de lutar”, explica Lidia. Sob a influência dos “valores femininos” apregoados pela cultura contemporânea, elas sonham em ser outros ídolos. “Elas se identificam com a Xuxa, com as modelos esquálidas, com a Hanna Montana”. Para a psicóloga, muda apenas o objeto. E, da mesma maneira, os pais devem sempre mostrar o limite entre a realidade e a fantasia. Especialmente porque muitos destes modelos reforçam comportamentos incondizentes com um modo de vida saudável para o corpo e a mente infantis.

Virtude de super-herói

Mas, se por um lado a fase da imaginação heróica acentua alguns riscos e requer vigilância dobrada, por outro funciona como uma poderosa ferramenta educativa para os pais. “Eles podem usar a postura ética dos super-heróis como um auxiliar pedagógico”, afirma a psicóloga Lidia Aratangy. “A vantagem é acreditar que o bem sempre vence o mal. Os super-heróis mobilizam a coragem, o desejo de vencer os medos, de proteger os mais fracos, de defender ideais e combater o inaceitável”. Desta forma, explica Lidia, os ideais da ética, da coragem e da humildade são retransmitidos em nossa sociedade.

Se o seu filho prefere representar o lado “do mal”, não se preocupe. “Eles devem ver o contexto, porque o vilão pode ser muito interessante. No Tom e Jerry, por exemplo, quem é o vilão?”, argumenta Angela. “Às vezes, a criança percebe que o super-herói só existe se tiver com quem se confrontar”, completa. O papel do vilão também ajuda a criança a compreender que quem faz coisas erradas deve lidar com as consequências. Neste momento, ela começa a constituir o desenvolvimento moral.

Senhor das armas

Durante o faz de conta, o vilão pode ser preso ou até morrer. Alguns pais se recusam a comprar armas de brinquedo para os filhos – e provavelmente irão se irritar ao ver o filho improvisando um revólver ou uma espada com objetos da casa, ou simulando um tiroteio com o próprio dedo. “As crianças passam do super-herói para a questão das armas. A arma é a questão do poder e o atirar nem sempre está relacionado a destruir”, explica Quézia. O momento é perfeito para os pais trazerem à tona a discussão sobre as armas do mundo real. “Os pais devem devolver a situação explicando que a arma destrói e mata. A arma deve representar a segurança para se proteger do mal, do homem mau, e apenas policiais podem usá-la”.

Se as encenações de morte também preocupam, tenha calma. Na fantasia, ela nem sempre expressa sentimentos violentos ou mórbidos. “Não tem o mesmo peso da morte de um adulto. Há outra conotação: a criança está testando um mecanismo social, aquilo é um ensaio para a vida adulta”, diz Angela.

Aproveitando a fase dos super-heróis, a função dos pais é mostrar que o roubo e a maldade são valores ruins para as pessoas e a família. “Não adianta um sermão sobre a questão bélica; é preciso ser objetivo, claro e curto e voltar ao assunto sempre, em doses homeopáticas”, aconselha Quézia. “É preciso mostrar para os filhos que a força deles pode ser outra: acreditar no bem, ser um bom menino”. Como os super-heróis.

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