Mesmo com a crise, pais contratam professores para melhorar o desempenho dos filhos – sejam eles universitários ou pré-escolares

Pais contratam professores particulares pensando em retorno de investimento
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Pais contratam professores particulares pensando em retorno de investimento
Com o início do ano escolar em grande parte dos Estados Unidos, o mercado de aulas particulares está esquentando. E este segmento parece ser imune à recessão. Mais pais estão pagando professores particulares para seus filhos.

Segundo Steve Pines, diretor executivo da Education Industry Association, os gastos com professores particulares vêm aumentando mais de 5% ao ano. Este percentual está abaixo do crescimento anual de 8% a 10% em 2007, quando a empresa de pesquisas em educação EduVenture estimava que o mercado gerava de US$ 5 A US$ 6 bilhões ao ano. Mas o mesmo continua forte, dado o estado financeiro da maioria das pessoas. E segundo Sandi Ayaz, diretor executivo da National Tutoring Association, o número de professores particulares certificados pela organização teve um crescimento anual de 18% nos últimos cinco anos.

Antigamente, os professores particulares focavam no auxílio às crianças com dificuldades em matérias específicas ou de aprendizado em geral. Atualmente, eles vêm sendo muito mais utilizados para guiar os alunos em instituições escolares particularmente difíceis, assegurando que suas notas sejam iguais ou superiores às de seus colegas, e para dar um polimento final nas redações do aluno ao ingressar na universidade. Tudo isso custa muito dinheiro aos pais e a questão é a seguinte: quais retornos os pais devem esperar de seus investimentos? E como este desejo se encaixa ao que é correto?

Antes de prosseguir, quero abordar a questão da justiça, que está cada vez mais presente no mundo dispendioso das aulas particulares. A resposta simples é que certamente não é justo que crianças abastadas possam ter professores particulares enquanto as menos favorecidas não.

Porém, nem tudo na vida é justo, e quero analisar as aulas particulares sob o ponto de vista do investimento. Existiria uma forma de mensurar o que os pais e os alunos estão recebendo por todo este dinheiro gasto? O que se deve esperar, de forma razoável, de um professor particular? Seria esse dinheiro bem gasto?

Pesquisa de preços

Mesmo com o aumento na procura por professores particulares, os pais não estão gastando como antigamente. Claro que alguns ainda estão, já que o dinheiro não é uma objeção quando o assunto é os filhos. Entretanto, mesmo em Manhattan, onde professores particulares são bastante comuns, muitos pais estão pesquisando preços na busca de opções mais acessíveis.

Sandy Bass, editora do boletim online Private School Insider
New York Times
Sandy Bass, editora do boletim online Private School Insider
“As pessoas estão fugindo de professores que cobram US$ 250 ou US$ 400 a hora/aula”, diz Sandy Bass, editora do boletim online Private School Insider . “Os professores particulares ainda são procurados, mas os pais agora pesquisam preços para conseguir uma ajuda a um custo mais razoável. Em Manhattan, esses valores vão de US$ 85 a US$ 150”.

Pines, da Education Industry Association, afirmou que a mesma reavaliação é observada no restante do país, aonde o valor médio da hora aula vai de US$ 45 A US$ 65. Pais que contratavam professores particulares em domicílio agora levam seus filhos a centros de estudo, enquanto outros, cujos filhos já frequentavam estes centros, estão reduzindo o número de horas ou ainda recorrendo a plataformas online. Ele relata que um grande concorrente neste mercado é a empresa de educação online TutorVista, sediada na cidade indiana de Bangalore, que cobra US$ 99,99 ao mês para auxílio escolar prestado através da internet.

O segmento onde foi observada uma maior diminuição na procura por professores particulares é o de pessoas com poucos recursos financeiros. No passado, a questão não era se elas podiam ou não arcar com tais despesas, mas se as mesmas podiam ser financiadas. E Jeffrey Cohen, CEO do grupo Sylvan Learning Centers, que opera uma das maiores redes de franquias de aulas particulares nos Estados Unidos, disse que a falta de financiamentos teve um grande impacto sob as famílias com menos recursos.

“Os programas existem, mas são difíceis de serem alcançados. Famílias que tinham uma ficha de crédito decente antes da recessão conseguiam aprovação para financiar tais programas. Eles conseguiam um empréstimo com pagamento mensal em muitos anos”.

Auxílio ou obstáculo

O pecado capital de um professor particular é fazer as redações de um aluno para seu ingresso à universidade. Essa é a parte mais obscura deste mercado. Afinal, a primeira linha do código de ética da National Tutoring Association, associação que congrega os profissionais norte-americanos, é: “Eu compreendo que meu papel como professor particular é o de nunca fazer o trabalho do aluno em seu lugar”.

Não causa surpresa o fato de que pessoas do segmento encolham os ombros quando o assunto vem à tona, especialmente no caso de aulas particulares online. “É aí que entra o papel dos pais como supervisores. O monitoramento em casa é necessário, e os pais não devem ficar afastados desta questão”, diz Pines.

Mas a principal pergunta que surge a partir deste fato é: como garantir que o dinheiro gasto está beneficiando seus filhos?”

Ajudar os filhos em áreas que eles estão tendo dificuldades é obviamente importante. Bass afirma, porém, que as aulas particulares devem também aumentar a pontuação padrão em exames. Ela explica: “É claro que um aluno que fez 550 pontos no SAT – a avaliação aplicada em alunos norte-americanos para entrar na faculdade – não irá conseguir 800 com aulas particulares, mas pode-se esperar um aumento de 100 pontos. Grande parte do resultado gira em torno da preparação do aluno para fazer a prova”.

A prática atingiu o extremo absoluto. Bass conta que a maioria das escolas primárias particulares de Nova York começou a descontar pontos no teste ERB - Early Childhood Admissions Assessment – administrado pela empresa Educational Records Bureau, pois os pais começaram a contratar professores particulares para ensinar os filhos de 4 anos de idade a terem um desempenho relevante no teste.

Embora essa seja uma forma de gastar dinheiro, talvez não seja a melhor maneira de ensinar aos filhos as habilidades que lhes serão necessárias a longo prazo, depois que eles conseguirem entrar naquele jardim de infância tão disputado. Isso pode acabar sendo muito mais um estorvo do que um auxílio.

“Sempre digo aos pais para terem cautela ao fazer isso”, disse Lloyd Thacker, ex-funcionário responsável por admissões de estudantes à universidade e atual diretor executivo da empresa Education Conservancy. “Isso não só põe em risco a vida escolar de seu filho – aquelas qualidades que fazem o processo do aprendizado acontecer – mas o fato de alguém te mostrar o caminho e fazer o processo por você põe em risco a habilidade que cada um tem de ser o que é”.

Em outras palavras, contratar um professor particular para um filho que está tendo dificuldades em matemática é um bom uso do seu dinheiro. Mas fazer o mesmo para que seu filho não precise se esforçar é um péssimo uso. “Em um mundo ideal, o próprio aluno deve perceber que consegue fazer isso sozinho”, disse Thacker, opositor convicto da cultura do excesso de aulas particulares. “E muitos deles conseguiriam, mas será que os pais se arriscariam a deixá-los tentar?”

Retorno ou fracasso?

Um conhecido do mercado financeiro que estudou em três instituições de primeiríssimo nível – St. Paul’s School, Yale e Columbia Law – fez a observação de que pais abastados atualmente pagam professores e escolas particulares como um contrato de futuros com as principais universidades americanas, e não conseguir o acesso a elas seria uma total decepção.

Apesar do tom claro de cinismo da observação, ela me surpreendeu: o que vem a ser o sucesso depois de pagar por milhares de horas de professores particulares ao valor de US$ 100 a hora/aula? O argumento de que essa atenção extra é uma forma de criar alunos bem preparados não é convincente, já que aulas particulares na fase universitária costumam ser uma ajuda corretiva.

A competição na escola claramente faz parte do pensamento dos pais, mas a universidade não é o único objetivo. “Os pais estão preocupados com a classificação dos filhos perante os colegas, os vizinhos, os alunos de outra cidade, de outro estado e até de outro país”, diz Cohen.

O lado positivo das aulas particulares é que o professor pode oferecer certo conforto aos alunos, dando-lhes a oportunidade de conversar com alguém além dos pais. “Eles podem dizer o que quiserem e aquela pessoa irá traduzir o que foi dito aos pais. É disso que os filhos precisam, pois eles têm medo de decepcionar os pais”, disse Bass.

Além de ser um bom uso do dinheiro, este valor terapêutico também é positivo pela forma que faz os alunos se sentirem em relação à escola. Pines explica: “As medidas mais qualitativas do sucesso são coisas como atitude, autoconfiança e a vontade de terminar o dever de casa. Os pais ficam gratos quando os filhos conseguem terminar o dever de casa sem a mãe ter de ficar pegando no pé deles”.

Talvez isso não os leve à Harvard, uma das universidades mais conceituadas dos Estados Unidos. Mas poder levá-los à felicidade.

(por Paul Sullivan)

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