Como os pais devem lidar com a predileção dos meninos por itens do universo feminino na infância

Cena do filme francês
Divulgação
Cena do filme francês "Minha Vida em Cor de Rosa", de 1997
Você se sente confortável olhando um menino brincar com bonecas ou cozinhar em lindas panelinhas? Nem todos os pais e mães conseguirão dizer “sim” com sinceridade. Isso se dá, em grande parte, porque a sociedade ainda não consegue assimilar a diferença entre gênero e sexualidade. Brincar de boneca, gostar de maquiagem ou experimentar as roupas da irmã não são sinais contundentes de homossexualidade.

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Um menino pode desafiar o gênero masculino gostando de coisas definidas como “de menina” sem necessariamente se sentir atraído por outros garotos. “As crianças e os adolescentes têm necessidade de experimentar o mundo. Hoje, as crianças se sentem liberadas para algumas experiências que antigamente eram malvistas”, afirma a educadora Irene Maluf.

O que fazer

Pode-se enquadrar nestas experiências antes malvistas brincar com bonecas ou ter curiosidade com relação à maquiagem da mãe. Em uma sociedade onde o homem troca fralda dos filhos e cozinha para a mulher que trabalha até tarde, torna-se razoável a ideia de que os filhos também transitem com mais facilidade entre as tarefas anteriormente associadas a cada gênero.

“Brinquedos podem ser considerados unissex em uma sociedade onde os homens desempenham funções antes tidas como femininas”, aponta Irene.

Para os pais que convivem com essa realidade, a recomendação é deixar o filho fazer suas descobertas, sem cobrança ou punições. “Não adianta proibir de brincar com determinados brinquedos. Se o pai não se sente confortável, pode apenas evitar comprar, por exemplo”, recomenda Ana Lucia Gomes Castello, psicóloga do Hospital Infantil Sabará.

Além de uma questão de curiosidade e experimentação, alguns meninos se interessam por objetos tipicamente femininos devido aos exemplos com os quais convive. Um dos conselhos de Ana Lucia é introduzir à rotina da criança figuras masculinas para que ela possa formar sua personalidade de forma mais autêntica. “Vemos muitos meninos que ficam com mães e avós e acabam sem uma figura masculina para entender que existem dois gêneros. Ampliar suas referências do universo masculino também é importante para a criança.”

E quando os pais notam que a fase de experimentar itens do universo feminino não passa? "Nossa cultura é machista e a grande maioria não lida com o fato de ter um filho gay com naturalidade. Se os pais percebem que essa tendência realmente existe, devem entender que a orientação sexual de um filho não irá mudar quem ele é", afirma a sexóloga Carla Cecarello.

Criança transgênero

Algumas mães conseguem lidar com mais naturalidade diante de um filho com predileções femininas. É o caso da blogueira norte-americana que se identifica apenas como “mãe do C.J.”, seu filho de cinco anos.

Ela o define como uma criança que desafia padrões de gênero. No blog, a mãe descreve C.J. como “a criança mais encantadora que já se viu (...). Suas paixões incluem Barbie, Princesas da Disney, Moranguinho e cabelos e sapatos femininos”.

“C.J. brinca com coisas de menina desde os dois anos. Achamos que era uma fase, mas não foi. Cresci com um irmão gay e vejo muitas similaridades entre os dois”, relata. O que ainda é apenas uma percepção pode se tornar real no futuro, de acordo com Irene. “A sexualidade de um indivíduo é definida por volta dos dois anos. Se ele for homossexual, será desde essa idade”, diz Irene.

Um pouco diferente de C.J., o filho de Amelia, também norte-americana e blogueira do Huffpost Gay Voices, tem sete anos e não se interessa pelo universo feminino – ele se identifica como homossexual e adora o personagem Blaine, da série de TV “Glee”, a quem chama de “meu namorado”. “Meu filho se identifica como sendo gay porque tem sentimentos românticos por garotos. Ele não se enquadra em estereótipos. Sabemos que não foi uma opção dele gostar de meninos, se isso se conservar dessa maneira no futuro. É um filho maravilhoso e nós o amamos independente de sua orientação sexual”, conta a mãe.

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A mãe de C.J. e Amelia não são as únicas a encararem de frente uma situação que seria embaraçosa para muitos pais. Blogs e livros discutindo a questão da criança transgênero são cada vez mais comuns e dão vozes às mães que passam pelas mesmas dúvidas e inseguranças. O debate também é retratado em filmes como o francês “Minha Vida em Cor de Rosa” (Ma Vie en Rose), de 1997, e “Uma Família Bem Diferente” (Breakfast with Scot), comédia dramática canadense de 2007.

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Essas mães, no entanto, não são a regra. “Na maioria dos casos os pais não percebem a homossexualidade dos filhos porque isso não é uma possibilidade até então. Quando uma mãe fica grávida pensa várias coisas, mas jamais vai cogitar se o filho será gay”, explica Edith Modesto, presidente do Grupo de Pais de Homossexuais.

“Embora gostar de coisas femininas não seja um sinal contundente de homossexualidade, trabalhar com essa hipótese desde a infância do filho pode ajudar as mães a sofrerem menos, por ganhar tempo para se preparar para ter um filho diferente do que a sociedade diz para ela que é o correto”, finaliza Edith.

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