Alana Tramontim, Amanda Gomes e Thaisi Dias foram as vencedoras em suas categorias. Conheça os bastidores do concurso

No ônibus da volta, o assunto de maior sucesso foi o rumor de um concurso que deve acontecer “logo” na cidade de Venda Nova do Imigrante, interior do Espírito Santo, e que leva as vencedoras “direto para fazer trabalho em lojas e comerciais”. Do nome ninguém se lembrava com certeza, mas o consenso era de que se tratava de “top model alguma coisa”. As mães se organizaram em um rápido mailing para saber mais detalhes deste concurso, e também de um na cidade paulista de Orlândia, “onde tem uma etapa que a Gisele Bündchen passou”. Ao fim de uma disputa, como era o caso, há sempre mais vencidas que vencedoras. Era melhor pensar na próxima chance do que na atual derrota.

Sessenta e duas meninas entre seis e treze anos disputaram neste final de semana o título de Miss Brasil Infantil. Divididas em três categorias – mini, infantil e pré-teen – as crianças viajaram, cumpriram compromissos sociais, falaram com a imprensa e desfilaram para julgamento. A carga não é leve. Só no sábado, foram dez horas de atividades seguidas, incluindo uma “tarde livre” compulsória no parque de diversões, em um dia com chuva ininterrupta e uma das mais baixas temperaturas do ano. As dez horas de atividades, parque e chuva incluídos, foram cumpridas com cerca de metade das crianças usando sapatos de salto. No dia seguinte, mais oito horas de compromisso, sem contar preparativos como cabelo e maquiagem, que em alguns casos começaram de manhã ou até no dia anterior. Aliás, antes mesmo do evento em si, a agenda já era pesada: oito, nove, doze horas de viagem até chegarem a Santa Catarina. No caso das candidatas da região Norte, mais de um dia.

Emelly Victória é uma das que vieram do Amazonas. A candidata não se lembra da primeira vez que participou de um concurso de beleza e explica que sonha em ser miss desde que era criança. Ela tem nove anos. Junto com ela, vieram outras cinco meninas. Quando deixaram Manaus, a temperatura estava perto dos 30 graus. A pequena Pietra Bezerra, 6, saiu com ela do calor e agora se vira como pode com um casaco peludo até os pés e alguns números maior que o seu. Nada que a impeça de brincar nas xícaras giratórias.

(Foto: Fabrízio Motta dos Santos/Fotoarena) Chuva, diversão e compromissos antes do grande dia
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(Foto: Fabrízio Motta dos Santos/Fotoarena) Chuva, diversão e compromissos antes do grande dia
As histórias de como as candidatas entraram em um concurso de beleza pela primeira vez não mudam quase nada. Em geral, as meninas moram fora das capitais e são abordadas na rua ou na escola por alguém que tem alguma agência. Envaidecidas e esperançosas diante da possibilidade de uma carreira de modelo, mães e meninas começam a investir em concursos. Foi assim com as mães de Sthefany Oliveira, 7, e Luana Kantor, 12, ambas em sua primeira disputa nacional. As duas tentam manter os pés no chão diante da empolgação e afirmam que as filhas são as principais interessadas nos concursos, mas não negam que adoram ver as meninas “vestidas de Cinderela”, como diz a mãe de Sthefany.

Mas suas filhas vestidas de princesas não são a única coisa que as mães veem. Também pela primeira vez em um concurso de beleza,a autônoma Elisângela Pessoa não segurou o choro ao ver a filha de sete anos com o coração partido ao ser desclassificada logo na primeira leva. Depois de gastar cerca de R$ 9 mil - “dinheiro que não tenho” - em viagem e produção, ela teve que explicar para a pequena Tayna Lira por que os jurados não a acharam bonita o suficiente para ser escolhida. “Se fosse um evento que dava para desistir no meio, eu já tinha desistido. Isso choca a mente de uma criança”, disse. “E esse negócio de que o que vale é a graciosidade, a espontaneidade, não é bem assim. Pode ver que nenhuma das finalistas da categoria mini é morena. E todas têm os vestidos mais glamurosos”, desabafa enquanto se prepara para a viagem de dois dias de volta.

(Foto: Fabrízio Motta dos Santos/Fotoarena) Amanda Gomes chora ao receber a faixa de Miss Brasil Infantil
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(Foto: Fabrízio Motta dos Santos/Fotoarena) Amanda Gomes chora ao receber a faixa de Miss Brasil Infantil
Todas as candidatas estão acompanhadas por um responsável, geralmente a mãe. Quem pode, traz mais acompanhantes. Quem pode, porque o custo é alto: só a inscrição no concurso custa R$ 800. As candidatas ainda têm que arcar com viagem, hospedagem e roupas (são três trajes em julgamento). As mães entrevistadas pelo Delas estimaram um gasto médio entre R$ 2 mil e R$ 3.500 apenas para este concurso. Não há prêmio além do título.

O objetivo de toda essa saga é ser avaliada – e aprovada – como miss. O que isso significa exatamente é um pouco menos claro.

A palavra “miss” é o pronome de tratamento em inglês que se refere às mulheres solteiras, ou seja, senhorita. Ser ou ter sido casada é motivo de desclassificação em qualquer concurso de miss oficial, assim como ter posado nua ou sido filmada fazendo sexo. Isso porque, como a importância do estado civil sugere, os concursos avaliam o que seus criadores acreditam ser os atributos ideais de uma futura esposa – beleza, elegância, capacidade de entreter e manter conversas sociais. E, obviamente, sua disponibilidade e “virtude”. Esses são os valores do julgamento a que se submetem as senhoritas de um concurso de miss.

Em um concurso de miss infantil, todos fazem questão de frisar que o mais importante é que a “criança tem que ser criança”. O coordenador das candidatas de Mato Grosso, Ronaldo Dias, explica que o que está em julgamento é a “graciosidade e o desembaraço” das pequenas, pouco antes de recomendar a uma de suas candidatas de seis anos: “vai lá e arrasa”.

Ronaldo, os organizadores, as mães e os demais coordenadores repetem o discurso de que, quando se trata de crianças, é preciso evitar o abuso de maquiagem, salto, trejeitos. Nenhum cogita a possibilidade a associação desses três itens a uma disputa entre crianças ser um exagero em si.

(Foto: Fabrízio Motta dos Santos/ Fotoarena) Depois da parte divertida, a dor nos bastidores
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(Foto: Fabrízio Motta dos Santos/ Fotoarena) Depois da parte divertida, a dor nos bastidores
Considerando-se o que acontece na indústria dos concursos de beleza norte-americanos, o Miss Brasil Infantil talvez realmente não tenha nenhum exagero. Histórias de mães que fazem bronzeamento artificial nas filhas, depilam impúberes, colocam apliques imensos e dolorosos de cabelo parecem ser quase exclusividade deles. Até a infame dentadura infantil, usada para esconder as “janelinhas” de quem perdeu os dentes de leite, fez aparição tímida por aqui: uma adepta da prótese contra cinco banguelas orgulhosas no desfile nacional. Mas será que é a comparação que ameniza o concurso brasileiro?

As senhoritas com menos de treze anos dificilmente terão que se preocupar com casamentos anteriores. Mas uma vez dentro do contexto dos concursos, fazem parte de todo o resto. Todo o gestual de flerte para seduzir os jurados, por exemplo, está lá: mãozinha na cintura, olho no olho, requebros desengonçados de quadril, sorriso imbatível no rosto. A perspectiva que alivia nosso lado na comparação com os gringos também pode ser responsável por uma ilusão de ótica. Depois de ver a categoria mais jovem desfilar posuda, de vestido, maquiagem, luvas e penteado, a categoria seguinte sempre parece composta por moças ou mulheres. Não é. As participantes deste concurso ainda não chegaram à adolescência.

Clima de família

“O esquema aqui é de família”, um dos organizadores, ao autorizar que a reportagem viaje no ônibus junto com as candidatas de Camboriú até Penha, cidade onde está o parque temático Beto Carrero World e onde acontecerá o evento. E é verdade. De um lado, está a empresa Danilo D´Ávila, responsável pelo evento e totalmente gerida por parentes. Danilo é o mestre de cerimônias, sua filha Dani e o marido Hamilton são organizadores, sua esposa cuida dos bastidores, os outros filhos produzem material de divulgação.

Do outro lado estão as senhoritas acompanhadas de suas mães, avós, tias, pais e irmãos. No ônibus, elas fazem bagunça e cantam músicas que se canta em viagens. Comem porcarias, dormem no colo da mãe, fazem a avó chorar ao aparecerem vestidas de princesas.

Muitas fazem dos concursos de beleza um estilo de vida e acabam formando sua própria comunidade. Se conhecem e se revêem a cada evento. As meninas brincam nos bastidores e consolam as amigas que ficaram de fora; uma mãe ajuda a vestir a filha da outra, dividem caronas, formam alianças e torcidas. Claro que toda mãe tem a filha mais bonita e que merecia ser a vencedora, caso os jurados não fossem cegos. Mas não há competição predatória, sabotagem, mães arrastando meninas a contragosto. Há, sim, muita expectativa na pequena plateia, composta quase que exclusivamente de parentes diretos das meninas. Uma expectativa de levar a faixa para casa, mas também de um futuro parecido com a noite de princesa. Mesmo que a relação entre as duas coisas não seja clara.

Quando o mestre de cerimônias e dono da empresa promotora Danilo D´Ávila começou a anunciar as finalistas da categoria mini (até sete anos) , as candidatas que aguardavam nos bastidores estavam brincando e não deram a menor bola. Sthefany Oliveira, a primeira a ser chamada, nem ouviu se nome até que alguém veio buscá-la.

O formato dos anúncios cria um suspense bom de assistir, mas péssimo de viver: grupos cada vez menores de meninas vão sendo chamados ao palco. Enquanto esperam, as crianças começam aos poucos a perceber que ficaram de fora. É a parte em que a brincadeira realmente perde a graça. Sem entender bem a dinâmica de finalistas, classificadas e prêmios paralelos, um bando de criancinhas começa a ficar de olhos arregalados e inevitavelmente caem no choro. Confusas, até premiadas choram meio sem saber o que houve. Amiguinhas tentam consolar umas às outras.

Depois de todo suspense, Alana Tramontim, Amanda Gomes e Thaisi Dias, são anunciadas vencedoras nas categorias mirim, infantil e pré-teen. Vão para casa mais satisfeitas do que as outras 59 crianças. Mas sem saber direito o que ganharam.

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