Em busca de alternativas para o modelo da superforma pós-gravidez, mulheres comuns trazem o corpo imperfeito à luz

Até Leila Diniz ser fotografada com a barriga de fora na praia de Ipanema em 1971, seria impossível ver em capas de revista famosas exibindo seus corpos durante a gravidez. A atriz contrariou os costumes da época e se tornou a primeira mulher a se exibir grávida e de biquíni. Hoje o corpo de uma grávida já não é mais tabu – mas a verdadeira forma pós-gravidez, sim.

Foto enviada por mãe no Shape of a Mother: apoio de mulheres na mesma situação ajuda a lidar com a forma pós-gestação
Divulgação/Shape of a Mother
Foto enviada por mãe no Shape of a Mother: apoio de mulheres na mesma situação ajuda a lidar com a forma pós-gestação



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Cansada de ver estrelas do cinema e da música posarem para capas de revistas exibindo incríveis corpos pós-parto, a norte-americana Bonnie – mãe solteira de duas crianças – decidiu criar um site para as mulheres dividirem suas histórias e discutirem sua relação com a verdadeira forma pós-gravidez. Assim nasceu The Shape of a Mother , depois que Bonnie acidentalmente observou uma mulher na mesa ao lado, em um restaurante na Califórnia. “Embora ela tivesse o peso certo e boa forma, tinha o mesmo excesso de pele em volta da barriga que eu tenho. Ocorreu-me que o corpo pós-gestação é um dos grandes segredos da sociedade”, ela conta, na introdução ao site.

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Não faltaram mães dispostas a dividir suas histórias e exporem o próprio corpo em busca de compreensão. Sarah, de 25 anos, é uma delas. Ao ganhar mais de 30 quilos durante a gravidez, batalhou durante dois anos após a gravidez para perder peso. Conseguiu. Hoje pesa menos do que antes da gestação, mas seu corpo dificilmente será o mesmo.

“Estou tão contente em poder ver outras mulheres com barrigas que se parecem com a minha, que lutam da mesma maneira que eu e que questionam se voltarão a se sentir sensuais, lindas, confiantes outra vez”, escreve Sarah.

Ao se deparar com mães que passam pelas mesmas questões, Sarah não se sente mais sozinha. Mas, mesmo com o apoio dos pares, nem todas resolvem seus grilos. Por mais que tenha ganhado elogios de diferentes leitoras, Shantel, de 23 anos intitulou o próprio depoimento de “Hating my Body” (“Odiando meu corpo”) e diz achar “medonha” a barriga que tem hoje, somente cerca de quatro meses após o parto.

Gwen faz um contraponto à história de Shantel. Seu depoimento, intitulado “I love my body” (“Eu amo meu corpo”), defende a beleza de cada corpo em particular com intensa sinceridade. “Meu corpo não é perfeito. Meus seios estão mais caídos, minhas coxas não são mais lisas, a minha barriga está cheia de estrias desbotadas. É isso que eu tenho e dane-se, eu o amo”.

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Aceitação X Idealização

Para a psicóloga Rachel Moreno, autora de “A Beleza Impossível – Mulher, Mídia e Consumo” (Editora Ágora) e coordenadora do Observatório da Mulher, a iniciativa do site “The Shape of a Mother” é uma possibilidade para a construção de referências alternativas. “A cultura e a mídia deveriam oferecer essa pluralidade, mas o modelo colocado na maioria das vezes é único e sedutor”, comenta.

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De acordo com a psicóloga Cynthia Boscovich, especializada na orientação e tratamento de grávidas e mães, é comum as mulheres se preocuparem com o surgimento de estrias e outros incômodos durante a gestação, mas o importante é que a preocupação não se torne uma obsessão. Não tem jeito: o corpo irá mudar. E o retorno à forma demora mais do que os poucos meses usualmente levados pelas famosas que estampas as capas de revista.

Toda mulher é meio Leila Diniz?

Embora seja um desejo comum à maioria das mulheres, a ideia de engravidar também traz a sua dose de angústia, usualmente relacionada às mudanças que o corpo irá viver e que, muitas vezes, irão permanecer. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro “Toda mulher é meio Leila Diniz” (Editora Bestbolso), socializar esses receios é uma forma de amenizar o sofrimento. Mas a antropóloga não vê o site como uma forma de contestar o modelo de corpo atual.

Como as mulheres que ali se apresentam costumam esconder o próprio rosto nas fotografias publicadas, Mirian vê uma autocensura embutida nos depoimentos. Apesar de todas as iniciativas contra a imposição desmedida de um padrão de beleza irreal, conquistado à base de retoques em programas de computador , um site como o “The Shape of a Mother” mostra que a questão ainda mexe com muitas mulheres.

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