Críticas em relação ao peso afetam autoestima de crianças desde os 10 anos de idade

Crianças são atingidas por críticas de coleguinhas desde os 10 anos
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Crianças são atingidas por críticas de coleguinhas desde os 10 anos
Quando se inicia, até mesmo entre o sexo masculino, a percepção mais severa diante do corpo? Segundo um estudo realizado pela Universidade de Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos, até mesmo os pré-adolescentes, quando importunados pelos colegas com piadas de mau-gosto, tendem a ser ainda mais críticos e intolerantes consigo mesmos.

A pesquisa calculou o índice de massa corporal (IMC) de estudantes entre 10 e 11 anos de idade. Depois disso, os pesquisadores examinaram a percepção deles em relação ao próprio corpo. Os resultados, divulgados na publicação online sobre saúde mental Psych Central , mostraram que aqueles que estavam com sobrepeso – e eram motivo de chacota por isso – tendiam a julgar a si mesmos com maior severidade do que aqueles que não eram vítimas do problema.

“De certa forma, a crítica ao peso é uma das últimas formas socialmente aceitáveis de crítica”, revelou um dos realizadores do estudo, Timothy D. Nelson, ao Psych Central. Com isso, as crianças que vêem o próprio corpo de maneira negativa correm maior risco de desenvolverem transtornos alimentares, entre outros problemas psicológicos.

Para a psicóloga especialista em psicologia infantil e nutrição pela Unifesp, Patrícia V. Spada, há que se considerar os valores e padrões estéticos estimulados atualmente e a maior suscetibilidade dos pré-adolescentes e adolescentes a sofrerem com uma busca às vezes inatingível – e em alguns casos prejudicial.

Não posso ser assim?

“Quando estes jovens percebem que estão acima do peso se inicia uma fase de sofrimento emocional pela dificuldade de reversão deste quadro e também pelos prejuízos sociais, como o bullying, por exemplo”, afirma a especialista. Com isso, os problemas psicológicos também vêm à tona: baixo rendimento escolar, tristeza profunda, depressão e agressividade ou passividade excessiva.

“Hoje em dia eles são altamente vaidosos”, lembra a nutricionista da Nutrociência Assessoria , Adriana Martins de Lima. Ela, que realiza há alguns anos um projeto que liga o currículo escolar a assuntos relacionados à alimentação e educação nutricional na Escola Carlitos, de São Paulo, afirma que entre grupos de meninos e meninas de 10 anos, o ponto mais delicado a ser discutido é a questão do peso. “Ao explicar como é construído o gráfico de crescimento, em que avaliamos peso e estatura, nem todos encaram a discussão tranquilamente: os meninos fazem gozações e as meninas se escondem”, explica.

Entre bonecas e modelos

Do lado feminino da infância, no entanto, o problema é ainda mais gritante. “É muito comum meninas de 10 anos verem o próprio peso de maneira distorcida, achando que estão mais gordinhas do que deveriam estar”, conta a nutricionista. Mas até mesmo antes desta idade a estética dos poucos quilos entra em cena. Segundo ela, que já viu meninas entre sete e oito anos brincando de serem modelos e proibindo a coleguinha acima do peso de entrar na brincadeira, a tendência é a preocupação com o assunto ser cada vez mais precoce.

De acordo com Ana Paula Baptista, psicóloga infantil da Clínica EDAC (Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico), de São Paulo, já é comum pegar crianças até mesmo abaixo dos 10 anos evitando comer muito preocupadas com a estética. “Elas estão recebendo estas informações de que devem buscar o ideal da perfeição muito cedo, um ideal que raramente é alcançado”, comenta.

Enquanto os adultos possuem maior maturidade para se posicionar diante da imposição de modelos da sociedade, Baptista explica que as crianças, os pré-adolescentes e até mesmo os adolescentes de hoje estão no auge do aprendizado de valores e conceitos e irão repetir o que vêem para depois elaborarem uma opinião própria. “Então se a moda é ser magérrimo, eles vão querer seguir aquele modelo, quando na verdade é necessário que eles valorizem a si mesmos, o que possuem de diferente”, explica a psicóloga.

Transtornos alimentares

De acordo com Baptista, ao mesmo tempo em que a criança pode ter uma baixa auto-estima e ter uma distorção do próprio peso, ficando com a vontade de ser cada vez mais magra a qualquer custo, ela pode deixar a vaidade de lado e deixar de se importar, desenvolvendo um comportamento destrutivo por achar que não há saída.

“São defesas para lidar com o problema, que podem ir desde obesidade à magreza extrema”, afirma. Mas lembra: na fase da infância, é mais comum ela ter alterações de humor ou comportamento. Mas se o problema começa ali, é na adolescência que ela pode tentar resolver ou se encaminhar realmente para uma doença.

Estética familiar

O papel da família é muito importante. A sensibilidade da criança em relação ao corpo irá depender da valorização que é dada a ele no ambiente em que ela vive: “Às vezes os pais nem falam que elas precisam se cuidar para não engordar, mas se a mãe se preocupa muito com isso, a criança vai repetir este mesmo padrão.” Não que o assunto não deva ser citado, já que a alimentação saudável e a prática de exercícios e esportes são importantes para as crianças, mas não especificamente com este valor de estética por trás.

Segundo Martins, reforçar os pontos positivos da criança, independentemente do corpo que possui, é uma forma de deixá-la com a auto-estima mais em cima. “Se uma criança está acima do peso e caminhando para reduzi-lo, mostrar os aspectos positivos dela torna menos sofrível este processo e faz com que ele se valorize mais”, revela a nutricionista.

Spada explica que é importante manter-se em contato com os filhos e perceber se estão tristes ou felizes, sociáveis ou isolados, e se sentem que possuem espaço para perguntarem ou argumentarem sobre o assunto. “Fortalecer um vínculo afetivo desde a gravidez é um importantíssimo fator de proteção contra esse tipo de problema”, afirma.

Segundo ela, a criança que não aprender a entrar em contato com as emoções poderá considerar apenas os insultos. “Acabam vivendo como se o valor como indivíduo único – certamente com muitas qualidades – não fosse considerado por eles mesmos e, desta forma, não conseguem modificar comportamentos que trazem danos à saúde em geral”, revela.

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