Em entrevista, a nutricionista e autora Elaine de Pádua dá dicas para os pais e diz que o segredo para fazer as crianças se alimentarem bem é a insistência

Seu filho pode não gostar de escarola, mas quantas vezes você já ofereceu a verdura a ele? E de quantas maneiras diferentes? Para a nutricionista Elaine de Pádua, especializada em alimentação na infância e adolescência e autora do recém-lançado “O que tem no prato do seu filho? Um guia prático de nutrição para os pais” (Editora Alles Trade), existem muitos truques e receitas que podem fazer com que as crianças mudem de ideia a respeito de alimentos para os quais reservavam apenas uma careta de nojo. O segredo está principalmente na criatividade e na insistência dos pais.

Elaine de Pádua, autora de
Divulgação
Elaine de Pádua, autora de "O que tem no prato do seu filho": segredo é insistência
Em seu livro, a nutricionista idealizadora da Nutriland mostra que é possível, sim, proporcionar uma alimentação mais saudável para as crianças e tornar a boa nutrição um hábito infantil – não somente um dever a ser cumprido. E isso até mesmo para aqueles que já estão acostumados somente às facilidades das redes de fast food.

O Delas conversou com a autora e levantou algumas soluções para as crianças terem cada vez mais vontade de trocar a bolacha recheada por um bolo caseiro ou uma fruta fresca. Elaine também cedeu sete receitas para você começar a colocar a alimentação saudável do seu filho em prática ; clique aqui para vê-las .

iG: De onde surgiu a ideia de escrever “O que tem no prato do seu filho”?
Elaine de Pádua: A história começou quando um paciente meu resolveu se tornar vegetariano aos sete anos de idade, uma decisão que levou a mãe dele ao desespero. Ser vegetariano exige que haja um consumo maior de frutas e legumes, mas não foi o que aconteceu no caso dele, que acabou se tornando um “massariano”: só queria comer massa e não colocava frutas e legumes na boca. A mãe, preocupada, me procurou para que pudesse orientá-la. Quando fui atendê-lo, ela me contou que havia procurado livros sobre nutrição infantil e não encontrou nada muito interessante sobre o assunto. “Por que você não escreve um livro, então?”, ela me disse. Como trabalho muito com crianças, sempre tento preparar um material muito prático para os pais, com informações, receitas e sugestões. São eles os grandes educadores dos filhos, então foi como um sonho poder orientá-los de maneira mais informal. E motivá-los, também. Moramos num país com tantas opções de frutas, verduras e legumes, por que não introduzir estes alimentos na vida das crianças de maneira simples, prática, com receitas fáceis e baratas? É preciso lembrar que, às vezes, a criança não gosta da forma que um alimento é preparado, mas existem diferentes maneiras de oferecê-lo a ela que podem gerar ótimos resultados. E sem complicar a vida de ninguém.

iG: O primeiro capítulo do livro é para crianças vegetarianas. Você tem visto muitos casos assim ultimamente?
Elaine de Pádua: Na verdade, não. O que acontece é que algumas crianças têm aversão a comer carne por não gostarem de mastigar, mas não exatamente pela questão dos animais – embora existam crianças que o sejam exatamente por isso. As crianças se habituam a alimentos menos sólidos, como sopa e purê, e às vezes acabam crescendo com um pouco de preguiça de alimentos mais duros. Quando a criança começa a ter dentinhos, é importante que já comece a mastigar. Então, depois dos seis meses, é preciso que os pais amassem a comidinha no garfo, para que os filhos já comecem com a mastigação. Seguindo assim, aos dois anos ela já vai comer de tudo, além de desenvolver o movimento dos músculos faciais, tornando-se mais preparada para aceitar os alimentos mais sólidos.

Agora, se a criança quer mesmo ser vegetariana, é ideal que os pais procurem um acompanhamento profissional para verificar sempre se há um consumo adequado de frutas, legumes e verduras. A criança está em fase de crescimento e nutrientes como o ferro e as vitaminas B12 não podem deixar de existir na dieta. A falta desse tipo de nutriente pode prejudicar o crescimento dela.

iG: Quais são os principais erros que os pais costumam cometer em relação à alimentação dos filhos e o que eles devem fazer para garantir que eles sejam mais saudáveis?

Elaine de Pádua: Muitas pais querem que os filhos comam alguma coisa que eles mesmos não comem. Então falam que o filho não come verdura ou legume, mas os próprios pais também não o fazem. E eles são exemplos fundamentais para que haja uma mudança de hábito da criança. Se a mãe já não comia tais alimentos até mesmo na gestação, complica mais ainda, então é preciso que os hábitos dos pais também se modifiquem desde o começo. Outra coisa que acontece muito é a criança não gostar e nunca querer um determinado alimento e a mãe desistir de oferecer. Pesquisas dizem que para a criança realmente ter aversão a algum alimento, ela precisa ter tido contato com ele aproximadamente 15 vezes. Sendo assim, os pais devem apresentar a escarola, por exemplo, de diferentes formas para realmente ter certeza de que a criança não gosta: no suflê, na torta, no sanduíche.

Capa do livro
Reprodução
Capa do livro "O que tem no prato do seu filho"
iG: As crianças podem se envolver neste processo?
Elaine de Pádua: Fazer com que a criança participe é muito importante, negociando com ela, mostrando os alimentos saudáveis e usando bastante a criatividade. A culpa também é um fator de peso: alguns pais se sentem culpados por trabalharem bastante e raramente estarem por perto. Eles tentam compensar a ausência presenteando os filhos com balas e chocolates, mas isso pode trazer mais problemas. É preciso ter limites. A obesidade infantil e o sobrepeso têm aumentado muito ultimamente e isso tudo leva a doenças que podem causar sérios problemas no futuro. Então começa por aí: é preciso pensar no que é mais adequado para manter o corpo funcionando bem. Por isso, também é sempre necessário olhar o valor nutricional dos alimentos, a quantidade de calorias, gordura, colesterol, fibras: tudo isso é importante para poder mostrar para a criança o que é bom para a saúde e o que não é. Alimentos artificiais, por exemplo, só devem ser oferecidos em caso de necessidade.

iG: Como os pais podem ajudar as crianças a comerem – e gostarem – dos alimentos mais saudáveis como verduras e legumes? Existe algum segredo para que isso aconteça?

Elaine de Pádua: Apresentar os alimentos de forma interessante para as crianças. Os pais podem fazer suflê, torta, bolo: se a criança não gosta de cenoura, vamos fazer um bolo de cenoura. E então, devagarzinho, o hábito vai se modificando. De repente, se a criança não come mamão, então os pais devem servir com iogurte, por exemplo. Não come beterraba? É legal misturar com o arroz ou com o feijão. A chave é utilizar formas diferentes de introduzir o alimento na vida da criança e conseguir com que ela coma. Os pais acabam muitas vezes dando as mesmas opções, mas com receitas diferentes é possível que as crianças aceitem muito bem. E misturando cores e desenhos para formar pratos mais alegres também atrai a atenção delas. Se elas estão envolvidas na elaboração do prato, então, ainda mais.

iG: O quão importante é para as crianças tomarem diariamente café da manhã e o que os pais podem fazer para que isso aconteça?

Elaine de Pádua: A criança que toma café de manhã tem uma chance menor de engordar. É assim que funciona: nós passamos por uma privação de alimentos durante a noite. De manhã, o organismo precisa funcionar e ele vai tentar tirar essa energia de algum lugar. Se não comermos nada de manhã, de onde sairá essa energia? Dos músculos. Então, se a criança deixar o café da manhã de lado, ela corre o risco de comer muito mais do que precisa na hora do almoço – além de não mastigar os alimentos muito bem, por estar com muita fome. O café da manhã, portanto, é fundamental para manter o organismo funcionando bem e para que as crianças também tenham um aproveitamento escolar maior. Aquela que estiver mal alimentada terá uma maior dificuldade de atenção. E não precisa montar aquela mesa de propaganda de margarina: se não há tempo para organizar um café da manhã logo ao acordar, deixe a mesa posta já na noite anterior, guarde uma fruta já cortada na geladeira, compre uma caneca ou um prato mais bonitinho para os filhos e lembre-se que deixar o alimento mais bonito visualmente funciona. Em pouco tempo ela estará comendo mais adequadamente – o que acontecerá no café da manhã e no almoço.

iG: Quais os principais problemas relacionados à má alimentação que podem surgir durante a infância e adolescência?
Elaine de Pádua: São complicações que podem surgir ao longo do tempo: além de sobrepeso, obesidade e anemia, a criança pode ter colesterol alto e diabetes precoce, hipertensão, má formação óssea por conta de uma possível deficiência de cálcio – especialmente com a falta do café da manhã. Neste último caso, pode até haver uma futura osteoporose precoce, além de outras doenças mais sérias que podem aparecer no futuro.

iG: No caso de uma criança já com sobrepeso, quais as principais atitudes que os pais devem tomar para ajudá-la a ter uma alimentação mais saudável?
Elaine de Pádua: O principal de tudo é nunca criticar a criança. Às vezes os pais ficam muito desesperados com o problema e acabam tornando-o ainda maior. O ideal é controlar a alimentação para que a criança não chegue ao sobrepeso. Se já chegou, será preciso traçar um plano alimentar para perder estes quilos e deixar o peso controlado, mas sem ansiedade. Tornar a alimentação da criança mais equilibrada e saudável e estimular a prática de atividades físicas é o necessário, sem estresse. Não adianta querer que a criança emagreça tudo que ganhou em dois ou três meses. É um processo em que a criança precisa ser reeducada, e muitas vezes ela acaba comendo dois pacotes de bolacha por dia por ansiedade, problemas na escola, falta de vínculo com os amigos, separação dos pais, entre outros aspectos. Cada fator deve ser analisado para que a criança vá emagrecendo e criando novos hábitos.

iG: Qual o principal papel dos pais na educação alimentar dos filhos?
Elaine de Pádua: Eu sempre digo que é preciso acreditar que é possível fazer com que as crianças se alimentem melhor: pequenas mudanças podem trazer grandes benefícios. Com isso, os pais devem se tornar mais presentes na alimentação dos filhos, colocarem um pouco mais a mão na massa e experimentarem mais. Além disso, é preciso realmente colocar limites e deixar os doces e guloseimas somente para momentos especiais, principalmente quando os pais estiverem junto com a criança. E claro, tornar a vida dela mais familiar neste momento de se alimentar. Os pais devem sentar para comer com os filhos, tornar o momento mais participativo e olhar para o filho, conversar, estimular um convívio sempre melhor e saber o que ele está comendo. Com atitudes simples podemos conseguir ótimos resultados. O segredo é o ânimo.

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