Conheça o dia a dia de Iara e Janaína, mães de Kaylla e terceiro casal de lésbicas a conseguir registro da filha com dupla maternidade no Brasil

Sapeca, Kaylla tem 3 anos. A menina de enormes olhos azuis e cachinhos não gosta que mexam no seu cabelo e adora brincar com bonecas, carrinhos e bichinhos de pelúcia. De Artur, vizinho e melhor amigo, diz que é seu namorado. Vai bem na escola e ainda tem pique para aprender capoeira e ballet. O dado mais incomum da pequena biografia de Kaylla Brito Santarelli é que ela tem duas mães.

Kaylla mostra a foto das mães. Na outra mão, uma boneca
Bruno Zanardo/Fotoarena
Kaylla mostra a foto das mães. Na outra mão, uma boneca

A administradora Janaína Santarelli, 29 anos, e a enfermeira Iara Brito, 25 anos, se apaixonaram à primeira vista. Uma semana depois de se conhecerem já estavam juntas. A união conta nove anos e desaguou naturalmente no desejo de formar família. Como outros casais, Janaína e Iara se prepararam para isso: compraram uma casa, se estabilizaram financeiramente e começaram as tentativas de gravidez.

Janaína grávida no quarto verde...
Arquivo pessoal
Janaína grávida no quarto verde...
Quem engravidou foi Janaína. Elas procuraram uma clínica de inseminação artificial e começaram o processo. Na hora de escolher o doador de sêmen, Iara tinha o pedido na ponta da língua. “Queria que fosse meio ‘indiozinho’, como eu, de cabelos escuros e olhos puxadinhos”, diz. Deu certo na segunda tentativa.

... e as três juntas no quarto transformado em rosa
Bruno Zanardo/Fotoarena
... e as três juntas no quarto transformado em rosa
Os médicos explicaram que levaria cerca de 20 dias para o corpo produzir os hormônios que confirmariam a gravidez, mas a ansiedade era tanta que elas compraram na farmácia dúzias de testes de gravidez. Janaína fazia teste todo dia. Quando apareceram as duas linhas azuis pela primeira vez, Iara desabou no choro.

Ela acompanhou com ansiedade a gravidez da parceira e até enjoou junto, como outros casais “normais”. Mas Janaína recusa o rótulo de “normal”. “O que é o normal? Existe o comum. As pessoas são o que são”, afirma.

Janaína optou por ficar em casa, mas Iara não abre mão de cuidar da filha (veja a galeria de fotos com a rotina da família ao final da página) . “Não basta ser mãe, tem que participar”, diz a enfermeira. Quando não está de plantão, divide com Janaína os cuidados com lição de casa, o banho e a ida à escola da filha. Por volta de um ano, Kaylla naturalmente diferenciou as duas: Janaína é chamada de “mamãe” e Iara, de “manhê”.

Elas não sabiam o sexo do bebê e prepararam um quarto verde. Assim que aprendeu a falar, Kaylla bateu o pé e ganhou um quarto rosa, como queria.

Na escola

A manhã da família é cheia: café da manhã, lição de casa e brincadeiras com o Tui. Este é o apelido de Artur Moreira, o vizinho de 5 anos, que logo bate à porta para brincar – quando não é ela quem vai à casa do vizinho. A mãe de Tui, a técnica de laboratório Jaqueline Moreira, 30 anos, é vizinha da família Britto Santarelli no condomínio onde vivem, em Jandira, cidade da Região Metropolitana de São Paulo.

Janaína e Iara deixam Kaylla na escola: mensagens da professora são endereçadas às
Bruno Zanardo/Fotoarena
Janaína e Iara deixam Kaylla na escola: mensagens da professora são endereçadas às "mamães"
Com a convivência dos filhos, Jaqueline, Iara e Janaína rapidamente ficaram amigas. “As pessoas falam, perguntam sobre elas, têm curiosidade, parece que nunca viram nada igual. E é um casal como qualquer outro”, conta a vizinha Jaqueline. As crianças brincam de tudo: capoeira, corrida de cavalo, carrinhos e bonecas. Estudam na mesma escola, mas pela diferença de idade, em áreas separadas.

Kaylla garante que Tui é seu namorado – e faz cara feia se alguém disser que ele é feio. E Tui, concorda que Kaylla é sua namorada? “Ela é sim”, afirma, sério. Jaqueline, ao ver os dois expressando carinho, discorda das opiniões de que a criação seria o fator determinante da orientação sexual do indivíduo. “Para você ver que não é bem assim como algumas pessoas falam”.

A professora de Kaylla no Colégio Rui Barbosa, onde a menina estuda, Valéria Picarelli, diz que ela é tranquila e se entrosa bem com os colegas. As mães participam ativamente das reuniões e de diversas atividades extracurriculares junto com outros pais – a escola instituiu o “Dia da Família”, para contemplar os novos arranjos familiares, cada vez mais comuns.

“Até agora, não tivemos nenhum comentário”, diz Valéria. “Mas trabalhamos a diversidade desde cedo e no futuro, caso alguém estranhe ela ter duas mães, a questão vai ser trabalhada”. A professora passou a endereçar as mensagens na agenda escolar às “mamães”. Por enquanto, Iara diz que Kaylla se defende bem: se perguntam “cadê seu pai?”, ela responde “eu tenho duas mães”. Se insistem, ela encerra a conversa dizendo “não quero falar sobre isso”.

Adoção, casamento e família

Kaylla é a terceira criança a ter a dupla maternidade reconhecida. Há um caso em São Paulo – uma mãe gerou a criança e a sua parceira doou o óvulo – e outro no Pará, onde uma criança de abrigo foi adotada por um casal de lésbicas.

Kaylla entre bonecas e brinquedos: centro das atenções
Bruno Zanardo/Fotoarena
Kaylla entre bonecas e brinquedos: centro das atenções
Breno Miranda, advogado do casal, entrou na Justiça com os processos de união civil e de reconhecimento da maternidade de Iara quando Kaylla já tinha dois anos. “A defesa do caso da Kaylla se baseou na relação de afeto entre a Janaína e a Iara. O afeto das duas – com fotos, contas no mesmo endereço por anos – são uma prova de união duradoura”, afirma o advogado. “É importante o reconhecimento da maternidade porque elas passam a ter poder pátrio igual a uma criança com um pai e uma mãe: caso uma faleça a outra tem a guarda e, em caso de separação, tem o direito a pensão”, explica Breno. “Agora, os direitos das duas mães são iguais”.

Para o advogado, a decisão acompanha mudanças na sociedade. “Proibir algo que já existe é preconceito. A primeira instância na sociedade que deve reconhecer direitos básicos é a Justiça”.

A chegada de Kaylla não foi surpresa para as famílias de Iara e Janaína. “Eles já sabiam que queríamos ter filhos. Só não tinham ideia de como íamos fazer”, conta Janaína. Tia de Iara, Sebastiana Barbosa de Britto, 54 anos, incentiva as duas. “Achei muito corajoso, tem que ter muito pulso. Tem críticas e preconceitos, mas elas já têm uma certa idade e sabem o que querem. É só ter pé no chão”. Mas reconhece as dificuldades vindouras. “Elas vão ter que preparar a Kaylla para o mundo, para a escola, para as perguntas que ela vai ouvir. Até agora, estão levando muito bem”, afirma Sebastiana.

Kaylla facilmente se torna o centro das atenções. Carismática, envolve quem estiver por perto e não se intimida nem nas aulas de capoeira, para onde vai a trupe completa. Jaqueline, Artur, Iara, Janaína e Kaylla fazem a aula juntas, no Centro de Referência à Juventude de Jandira, que também oferece aulas de muay-thai.

A família feliz na traseira do carro: duas mulheres, uma menina e um cachorro
Bruno Zanardo/Fotoarena
A família feliz na traseira do carro: duas mulheres, uma menina e um cachorro
“O ambiente de lutas é um pouco machista, mas nosso maior princípio é a disciplina”, afirma o professor de capoeira Flaviano Alves da Silva. “No horário em que elas fazem, a convivência entre todos é ótima”. No tatame, a pequena ensaia os movimentos da capoeira Luanda ora com Tui, ora com Iara, capoeirista veterana, ora com coleguinhas que vai conhecendo por ali.

A trupe volta para casa de carro. Na traseira do Fiesta, o adesivo da família feliz mostra duas mulheres, uma garotinha e um cachorro – Kaylla, suas mães e Mickey, o pinscher de estimação escolhido pela menina. Iara acaba de fazer uma tatuagem com eles e a frase “amor eterno”. E se depender da vontade da “manhê”, à flor da pele.


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