Segundo pesquisa britânica, um a cada cinco homens sofre com depressão pós-parto. Entenda o quadro e saiba como procurar ajuda

Segundo pesquisa britânica, um a cada cinco homens sofrem depressão pós-parto
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Segundo pesquisa britânica, um a cada cinco homens sofrem depressão pós-parto
Se todo mundo sabe que ser mãe não é fácil, ser pai tampouco é um mar de rosas. Um estudo recente publicado pelo Conselho de Pesquisa Médica (MRC) do Reino Unido afirma que um a cada cinco homens também vivencia a depressão pós-parto. Liderado por Irwin Nazareth, Diretor do Quadro Geral de Pesquisa Prática do MRC, o estudo revelou que 3% dos pais de 86.957 famílias analisadas entre 1993 e 2007 haviam sofrido de depressão no primeiro ano após o nascimento do filho, enquanto 13% das mães apresentaram o problema. No entanto, até o 12º aniversário da criança, houve um total de 21% de pais que se depararam sintomas depressivos. Entre as mães, a porcentagem subiu para 39%. De acordo com o filósofo e psicanalista Arthur Meucci, o problema não provém de uma desordem psíquica ou hormonal, como ocorre com as mulheres ( leia depoimento de autora de livro que superou a depressão pós-parto ) .

Segundo Meucci, também autor do livro “A vida que vale a pena ser vivida” (Editora Vozes), entre os últimos dias de gestação e o início da vida do bebê a mulher pode entrar numa condição psicológica conhecida como preocupação materna primária, que proporciona a ela uma maior sensibilidade em razão de se comunicar com o filho. “Essa relação de simbiose entre a mãe e a criança precisa ocorrer, é algo natural. Mas sua constante depende do contexto, da história de vida desta mãe e do momento que ela vive, podendo ou não acarretar uma depressão”, explica o psicanalista. No lado masculino, é o aumento da ansiedade que pode falar mais alto.

De acordo com o site do jornal britânico The Guardian , algumas das razões para o surgimento da depressão pós-parto masculina, levantadas pela própria pesquisa, são as dificuldades como o sono comprometido, as maiores responsabilidades e as mudanças no relacionamento com a esposa.

“O homem que antes conversava com a mulher sobre problemas no trabalho, por exemplo, pode ficar sem essa alternativa, pelo estado frágil em que a mulher se encontra por um determinado período após o parto”, exemplifica Meucci. Com isso, ele não conta mais com uma válvula de escape e acaba acumulando momentos de tristeza – mas que não necessariamente implicam na depressão. “Não é uma questão biopsicológica. São situações que podem deixar o homem desmotivado, e serem tanto sintomas de estresse como depressivos”.

Vida a três

Para Sandra Fedullo Colombo, terapeuta especialista em sistemas humanos e organizadora do livro “Ainda existe a cadeira do papai?” (Editora Vetor), a chegada do bebê na vida do casal exige recursos emocionais de tranquilidade interna e maturidade que nem sempre estão presentes. “É preciso sair do centro e se tornar mais periférico, já que agora o bebê é o centro”, explica a especialista. Segundo ela, esta atitude necessária pode tocar o lado infantil e carente do adulto que agora não pode ter todo o carinho e atenção da esposa, por exemplo. “Perceber a necessidade de atenção de que o bebê precisa pode gerar estresse, tristezas e a perda do nosso ‘lugar de adolescente’, e isso pode causar a depressão”, explica. Embora a maioria das pessoas não chegue a este ponto, pode haver bastante sofrimento.

Muitas vezes a sintonia inicial da mulher com o filho pode fazer com que o homem se sinta isolado, principalmente se o casal estiver passando por uma fase mais conflituosa, por exemplo. Porém, se eles cooperaram um com o outro fortemente até então, a possibilidade de uma depressão pós-parto diminui bastante.

A comunicação tem um papel realmente importante nesta hora. Para o psicanalista e especialista em paternidade Rubens de Aguiar Maciel, embora haja uma expectativa cultural de que o homem deve ser forte e ganhar a vida para a família, na pós-modernidade a história muda: “Hoje o homem não é tão diferenciado da mulher, ambos possuem sentimentos e ele também pode se expressar”.

Sou pai, e agora?

De acordo com Maciel, a paternidade pode trazer muitas expectativas e medos ao homem, pelo surgimento de muitas fantasias em relação a ela, e diante disso é possível que ele reaja com ansiedade e até mesmo angústia: “Existem receios em relação ao saber cuidar do filho adequadamente, tanto do ponto de vista da educação e da saúde como do financeiro, além da parte emocional envolvida”. Ainda, segundo o site do MRC , a pesquisa também revelou que os pais mais suscetíveis a sucumbirem à tristeza são os mais jovens, entre 15 e 24 anos, além daqueles com históricos de depressão e de classes desfavorecidas.

Irritabilidade, sono irregular, ataques de ansiedade, perda de motivação e questionamento sobre tudo são alguns dos sintomas que Meucci aponta como indícios de que a coisa não anda bem. “É possível que, durante os dois primeiros anos da criança, surja uma necessidade estranha de mudar de profissão, mudar de casa, por exemplo”, afirma o especialista. Além disso, como diz Fedullo, não se envolver tanto com a chegada do bebê e buscar consolos fora de casa – como refugiar-se no trabalho ou procurar relações extraconjugais – são outras atitudes que o homem pode tomar a fim de suprir com o vazio que pode estar sentindo.

Porém, há algumas distinções que podem ser feitas para definir entre o estresse incumbido com a paternidade e a depressão propriamente dita. Para Meucci, o discurso de um depressivo não possui muita lógica, ela ou é pobre ou não é compartilhada. “Ele dará explicações pouco racionais, além de ter uma grande sonolência e nenhuma vontade de sair da cama”, afirma ele. Ainda, é possível também que ele se torne mais narcisista e fale somente dele: “É possível perceber claramente se ele para de dar importância para o filho e para a esposa e fale somente do que ele fez, do que ele acha. Se ele nunca foi assim, nesta fase pode significar o caminho para o quadro depressivo”.

Deixando o super-homem de lado


A dificuldade em levar a vida normalmente é um indicador da chegada da depressão, que costuma ser mais duradoura do que a tristeza que pode haver durante a fase inicial da vida do filho. Mas pode-se evitar chegar ao cume do problema. “Ao perceber que está passando por alguma angústia, o pai deve conversar bastante com os amigos neste período, seja sobre problemas com o emprego ou em casa”, recomenda Meucci. Respeitar as horas de sono, não se desesperar em fazer hora extra no trabalho para ganhar mais dinheiro e cumprir com a finalidade dos finais de semana e feriados também são atitudes a serem tomadas. Dar uma de super-homem não melhorará a situação. Muito pelo contrário, pode até piorá-la.

A terapeuta Sandra Colombo recomenda que, no momento de transformação familiar com a chegada do bebê, a conversa entre o casal deve ser mantida assiduamente. Se a instabilidade emocional perdurar, vale procurar um profissional. Nesse caso, o ideal é procurar uma terapia conversacional de casal: “Se eles dividirem essa etapa será muito mais fácil para os dois”. No pós-parto, afinal, superar a tristeza é uma necessidade que surge também para o bem do novo integrante da família.

“Se o bebê é recebido numa família angustiada, de alguma forma a criança sente que está atrapalhando e essa impressão pode ser um trauma e se deslocar para o resto da vida”, revela Maciel. Tal acontecimento pode colaborar para que ele chegue à fase adulta mais inseguro. Além disso, um pai muito irritado pode fazer com que a criança cresça muito agitada e se sinta culpada pelo sentimento que o pai apresenta.

De acordo com o site do jornal britânico The Telegraph , o líder do estudo realizado indica que os homens também devem ser resguardados para a paternidade, assim como são as mulheres quando ganham a licença-maternidade. “A depressão dos pais pode ter um sério impacto sobre o comportamento e o desenvolvimento das crianças, tornando-se vital que sejamos mais compreensíveis a fim de diminuir a carga sobre a família inteira”, afirmou Irwin Nazareth ao jornal. Mas, segundo Colombo, as dificuldades do pós-parto prevalecem, amplamente, até os dois anos de idade da criança. “Homem e mulher passam por uma série de situações emocionais nesta fase; depois disso, o conceito é outro”, afirma ela.

“O nascimento, o início da vida escolar e a entrada na adolescência, por exemplo, são momentos importantes de diferentes ciclos”, explica. Cada um destes momentos terá um impacto diferente sobre os pais e eles não devem necessariamente ser chamados de depressão, mas sim de perdas e tristezas. “Transformações mexem com o coração e com o lugar de cada um na família, que se transformam com o nascimento do filho. Mas é preciso paciência para entender o processo – e muita conversa sobre o assunto entre o casal”, conclui.

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