Geração Z ensina os pais a usar tecnologia

Criados em ambientes digitais, filhos invertem papéis, viram professores dos pais e derrubam mito de que novas mídias afastam a família

Carla Hosoi, especial para o iG São Paulo | 09/09/2011 08:04

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Foto: Wagner Meier/Fotoarena Ampliar

Ana Luiza e a mãe, Christiana, entre celular e laptops: pais precisam conhecer o universo virtual para regular o acesso dos filhos

Assim como há tabus perpetuados por gerações e gerações, há também abismos capazes de se abrir ou se fechar de acordo com as relações estabelecidas entre avôs, pais e filhos. Para a Geração Z, denominação usada para os nascidos de meados dos anos 90 até o início desta década, a “fluência tecnológica” pode encurtar distâncias – não só da jovem geração com o mundo, mas também dentro de casa.

“A Ana Luiza foi quem me introduziu ao MSN, Orkut, plataformas de blog. Aos 8 anos ela já me pediu para ter acesso a esses aplicativos e eu tive que aprender como funciona, as regras, as responsabilidades envolvidas. Desde os 6 anos ela curte novas tecnologias e já fazia livrinhos no Power Point com essa idade”, conta a mãe e analista de sistemas Christiana Ferreira.

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Hoje, a pequena “nativa virtual” já tem 12 anos e continua explorando com facilidade os ambientes digitais, antecipando novidades, descobrindo como equipamentos e programas funcionam, sem recorrer a manuais, tutoriais ou mesmo ao conhecimento dos próprios pais. “Outro dia eu comprei uma máquina fotográfica nova e em cinco minutos ela descobriu que ela também funcionava como um GPS. Eles são muito rápidos, aprendem o mecanismo de funcionamento de tudo com uma velocidade impressionante”, diz a mãe.

Casos como o de Ana Luiza ilustram as estatísticas comprovadas por pesquisas feitas tanto no Brasil como no exterior. Aqui, uma recente pesquisa feita pela Quest Inteligência de Mercado detectou que 79% dos internautas da geração Z criam e compartilham informações como vídeos, textos e músicas na web, sendo assim a principal geração produtora e disseminadora de conteúdo virtual. Já o Joan Ganz Cooney Center, centro de pesquisas e inovações norte-americano voltado ao estudo de mídias digitais para o desenvolvimento de crianças, constatou que mais de 1/3 dos pais de crianças com 3 a 10 anos declararam ter adquirido algum conhecimento tecnológico com seus filhos. Segundo o relatório, a maior parte dos pais tem sob controle a “explosão” da mídia na vida das crianças.

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Em casa

O acesso à tecnologia faz parte não apenas da vida escolar, mas da rotina familiar de muitas crianças, algumas até em fase pré-escolar. Maria Clara, 5 anos, é filha do publicitário Guilherme Loureiro. Desde os dois anos se interessa pelo computador. “A escolinha tinha um site com jogos feitos para a idade dela e nós a ensinamos a digitar as teclas certas para ela mesma colocar a senha e aprender a jogar”, relembra o pai. Hoje ela não tem problemas em operar um iPad.

Disponibilizar tantas ferramentas e informações aos filhos ainda pequenos causa estranheza e desafia muitos pais a uma reflexão sobre o assunto. Mas, tanto no caso de Ana Luiza como no de Maria Clara, a acessibilidade é supervisionada de perto, com regras muito bem estabelecidas pelos pais, que impõem horários e condições para o uso dos dispositivos. “A cultura tecnológica hoje é uma realidade. Eu não proíbo, mas busco um equilíbrio”, argumenta Guilherme.

Para Christiana, mãe de Ana Luiza, as regras são muito claras e aceitá-las é condição incontestável para ter acesso à tecnologia. Mas, para estabelecer as regras, ela também precisa entender das novidades. “Tenho que aprender constantemente, para saber o que posso liberar e com quais restrições. Se você acompanha e ensina, tanto ela como eu conseguimos nos apropriar da tecnologia de maneira construtiva”, acredita.

Segundo José Milagre, advogado e perito em segurança na internet, o cenário de “pais analógicos criando filhos digitais” exige muito mais que proibição e controle vigiado. Para ele, censurar com guarda-costas digitais, programas Proxy e outras ferramentas do tipo apenas distancia pais e filhos. “As crianças são mais espertas e acabam burlando essas regras técnicas. O melhor caminho é o do bom-senso e do diálogo. Os pais precisam entender essa realidade e marcar presença, navegar, conhecer. Assim terão argumentos para evitar a superexposição dos filhos, afastando-os dos perigos digitais, que não são poucos”, explica.

Leia também
- Encontros virtuais diminuem distância entre pais e filhos em países diferentes
- Crianças x computadores: benefícios e males da era tecnológica

Experiência digital como ponte


O intercâmbio de experiências digitais pode diminuir conflitos entre pais e filhos. A evolução tecnológica vai apresentar, cada vez mais, novas mídias e formas de se comunicar. Permanecer resistente ou indiferente a tantas mudanças certamente não leva ao estreitamento dos laços familiares. “Antes era a TV, depois veio o DVD, agora há computadores, dispositivos mobiles, celulares. Não são propriamente os novos adventos tecnológicos que distanciam ou aproximam pessoas dentro de casa, mas o diálogo, a abertura ou a falta desses canais de comunicação. A tecnologia pode potencializar um problema, mas nunca é sua causa”, ressalta a neuropsicóloga Mônica Carolina Miranda, da Unifesp.

A engenheira Lucila Saito, mãe de Henrique, 9 anos, e Marilia, 6, não nega: muitas vezes, é mais fácil tirar algumas dúvidas com o próprio filho do que buscar, ela própria, a solução. “Eu tenho um iPhone. Para baixar um aplicativo, recorro ao Henrique, porque eu nunca fiz isso. Tudo para ele é mais fácil. Outro dia mesmo estávamos num restaurante e eu preocupada em voltar para ligar para minha mãe no Skype. De repente o Henrique estava falando com ela no Skype do meu telefone. Nem eu, nem meu marido sabíamos ser possível fazer isso”, conta.

Se hoje existe a possibilidade de alternar os papéis de aprendiz e tutor entre pais e filhos, por que não aproveitá-la com as devidas responsabilidades? “Os filhos têm maior domínio instrumental dessas tecnologias e sabem disso. Mas reconhecem, sim, os pais e os professores como detentores dos porquês de tantas informações”, finaliza Maria Elizabeth Almeida, professora do Departamento de Pós-graduação em Educação da PUC-SP.

Como salienta o perito José Milagre, os ambientes virtuais são como “paisagens naturais” para os representantes da geração Z. Mas o fato de serem habilidosos manipuladores de ferramentas tecnológicas não os torna capazes de lidar com tanta informação. “Eles precisam de educação digital. E quem pode proporcionar isso são os pais e educadores”, recomenda.

Leia também
- Crianças na internet: cuidados básicos
- Você é amigo do seu filho no Facebook?

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10 Comentários |

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  • Marcela | 10/09/2011 18:35

    Muito boa a materia! \nSou seguidora do inventandocomamamae e vi a matéria lá! Ficou ótima! Parabéns às meninas e a reporter. Grande matéria. Não tenho filhos, mas meu irmão ja tem um outro entendimento sobre tecnologia. Impressionante!\n

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  • Gustavo | 10/09/2011 18:33

    Muito boa a reportagem. Meu filho dá um show em mim nessas coisas. \nCurto demais o inventandocomamamae e não podia deixar de prestigiar as meninas aqui. Parabéns pela matéria

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  • Manuela Gonçalves de Souza | 10/09/2011 18:31

    Eu amei a materia! \nSou seguidora do Blog Inventando Com a Mamãe e curti demais a materia! Parabéns!

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  • Almir Casimiro | 10/09/2011 08:39

    Que a tecnologia e a informatica tem seus beneficios isto é fato, mas temos que atentar e estimular as crianças a praticar atividades fisicas e brincadeiras ao ar livre, pois caso contrario em breve esta geração Z será mais conhecida como a geração FAT. Já li varias reportagens de pessoas que possuem milhares de amigos virtuais e nem meia duzia de amigos reais. Precisamos refletir sobre isto...

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  • Daniel | 09/09/2011 23:43

    que bobagem , nao existe geração A, B, C , D, X, Y , Z. W..\n\n\nisso e pura invencao para se ganhar mais dinheiro com livros, palestras..etc..

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  • Atualidade | 09/09/2011 22:16

    Geracao Y / Z .... tudo invencao .... nao existe geração deste tipo.... alias, a geracao atual aprende tudo de maneira superficial, errada, ou seja, aprende mau de tudo...\nTenha sorte de nao cair nas maos de um futuro medico da geracao Z.... que provavelmente estará te abrindo com bisturi tunado e ouvindo algum MP3 da vida... e salve-se quem puder!!!!

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  • Gilberto José Muniz | 09/09/2011 19:36

    A mesma relação anlógica-digital existe entre alunos e professores. Muita vez o analógico do professor faz exsurgir nos alunos o seu descrédito, o que não é bom. Urge que as autoridades educacionais promova abertura no sentido de melhor entrosamento entre o ensino e a aprendizagem. Só pode haver ensino se, concomitantemente, houver aprendizage. O diálogo é a porta a ser aberta. Seja onde for. Uma idéia será a formação de grupo dos alunos mais "entendidos" nas tecnologias virtuais, para integrar, mesmo que akgumas vezes, o Consekho diretor das escolas, visando introduzir na grade escolar, cada vez mais, o ensino virtual.

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  • APOLO | 09/09/2011 18:47

    Geração Z ensina os pais a usar tecnologia...\nJa vi que sou uma excessão, afinal tenho 46 anos e sou eu que ensino os jovens a dominar os computadores e técnologia em geral.\nSó pra vocês saberem que os velhos também são tão bons quantos os jovens, acredito que somos até melhores.\n

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    Fernando Nishimura | 09/09/2011 22:55

    Quem viveu década de 80 e 90 sabe que naquele tempo a tecnologia não era tão fácil e acessível assim, como é atualmente. A geração Z está simplesmente se beneficiando das facilidades criadas pelos pais da geração X e até Y.

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    Lilian | 09/09/2011 21:46

    Eu vejo o mesmo que o Apolo, tenho 45 anos e estou me formando agora em computação mas sou professora de informática desde 1985. Temos que acompanhar o desenvolvimento da tecnologia e não ficar parado no acostamento vendo os carros passarem cada vez mais velozes.\n

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