Quando crianças frequentam a pré-escola, suas mães têm uma participação 28% maior no mercado de trabalho

Mães trabalham 19 horas a mais por semana quando os filhos frequentam pré-escola
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Mães trabalham 19 horas a mais por semana quando os filhos frequentam pré-escola
“As mães só voltam a trabalhar quando colocam a criança na escola, ou quando alguém pode tomar conta do filho”, conta Jaqueline Severino da Costa, autora da tese de doutorado Impacto da frequência pré-escolar dos filhos sobre o trabalho das mães, defendida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba, em fevereiro de 2011. O trabalho foi orientado pela professpra Ana Lucia Kassouf.

Para avaliar o efeito da frequência dos filhos sobre o trabalho das mães, Jaqueline estudou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 2002 e 2008, por meio de uma análise instrumental econométrica de regressão descontínua. Essa análise aproxima os dados estudados, que são particulares de cada amostra, de serem genéricos e faz com que possam ser utilizados para a criação de estimativas, por exemplo. Ela buscou dados de famílias com filhos na faixa etária dos cinco anos.

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A pesquisadora constatou que a frequência pré-escolar dos filhos aumenta em aproximadamente 28% a participação das mães no mercado de trabalho. Além disso, a jornada de trabalho sobe em 19 horas semanais. São quase quatro horas diárias a mais. Porém, o aumento da jornada não reflete em aumento salarial. “A escolaridade das mães pode ter um peso maior sobre os salários, inibindo a influência de outros fatores, como a jornada de trabalho”, afirma Jaqueline.

Outra constatação do estudo é a de que a data de nascimento da criança interfere na sua frequência pré-escolar. Crianças com cinco anos completos antes do dia 1° de março podem frequentar a pré-escola. Porém, aquelas que completam tal idade após essa data acabam entrando em um nível inferior. Sendo assim, essas crianças teriam 3% menos chances de frequentar a pré-escola. “Parece um valor pequeno, mas na realidade não é. E essas crianças não frequentam a pré-escola apenas por não terem nascido na data estabelecida pelo governo”, lamenta a pesquisadora.

Caçulas
Jaqueline ainda afirma que os impactos são diferentes dependendo da condição de caçula ou não da criança de cinco anos. Ela dividiu as famílias em dois grupos: o primeiro é formado por famílias cujo filho caçula é a criança de cinco anos e o segundo é composto por aquelas em que a criança dessa idade possua irmãos mais novos. Segundo ela, no primeiro grupo, a frequência pré-escolar da criança tem maior impacto no trabalho da mãe. Porém, no segundo grupo, o impacto é menor. “Isso acontece porque nestes casos, mesmo que a criança de cinco anos frequente a pré-escola, existem filhos mais novos para serem cuidados”, explica. Assim, é possível afirmar que, geralmente, é o caçula que tem maior impacto na vida profissional da mãe.

A idade das mães também afeta sua vida profissional. Mães mais velhas tendem a colocar logo os filhos na pré-escola e, consequentemente, a participar mais do mercado. Isso por já terem maior experiência e carreira melhor consolidada.

Uma maior frequência pré-escolar de crianças ajudaria a capacitação de pessoas para contribuição social e econômica do País. “Deve-se investir nisso pois os benefícios são de curto prazo, como a geração de empregos diretos em creches e escolas, e de longo prazo, com o melhor desenvolvimento da capacidade cognitiva das crianças e a participação feminina no mercado de trabalho”, afirma a pesquisadora.

Outros trabalhos
Questionada sobre outros trabalhos na área, Jaqueline conta que existem outros estudos. “O que me despertou curiosidade sobre o assunto foi a leitura de dois textos do economista argentino Samuel Berlinski, que estuda a educação, entre outras coisas”, explica. No Brasil, cita o trabalho de Ricardo Paes de Barros, que acompanha famílias no Rio de Janeiro e estuda o mesmo assunto tratado por ela. “Para fazer isso é preciso ter recursos. Infelizmente eu não tenho como fazer um trabalho de campo acompanhando famílias como ele faz”, afirma a pesquisadora, destacando que os resultados encontrados por Barros são semelhantes aos que ela encontrou na sua pesquisa.

* Reportagem de Victor Francisco Ferreira

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