Filhos únicos por opção

Cada vez mais brasileiras optam por ter apenas um filho. Saiba o que está em jogo nesta decisão

Renata Losso, especial para o iG São Paulo |

Amana Salles/Fotoarena
Liliane Ferrari brinca com a filha única, Luisa: "estimulamos a independência dela"
Segundo o IBGE, em 2009, o número médio de filhos por mulher era de 1,94. O índice levaria muitas avós a dizer que não se fazem mais famílias como antigamente. Ao longo das últimas décadas, o número caiu em todas as regiões e grupos sociais brasileiros – em 2000, ele marcava 2,39 filhos por mulher. Os motivos vão desde os gastos de se criar uma criança hoje em dia até a maternidade tardia. Mas a presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp) e terapeuta familiar Quézia Bombonatto ressalta: criar um único filho pode ser tão difícil quanto ter dois ou três correndo pela casa.




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“O filho único costuma crescer em um ambiente onde ele sente que reina”, diz. Não à toa vivem dizendo que filho único fica mais egoísta, mas toda regra tem exceções. Ser mais ou menos individualista depende também da vivência em casa, além da personalidade. De acordo com a psicóloga e psicoterapeuta familiar Ana Gabriela Andriani, é mais fácil aprender a compartilhar e pensar no próximo quando se convive com um irmãozinho desde cedo, mas a escola também pode proporcionar esta experiência ao filho único.

Para a psicanalista Vera Zimmermann, coordenadora do Centro de Referência da Infância e Adolescência (CRIA) da Unifesp, hoje em dia o filho único não é mais prejudicado pela solidão como antes. Se antigamente a mulher tinha um filho só por dificuldades pessoais ou falta de desejo e dedicação, hoje ela faz isso por opção, sem necessariamente criar situações afetivas complexas para a criança. “Hoje é preciso fazer uma escolha de qualidade, para ter uma vida profissional e familiar”, afirma. A escola também cumpre o papel de inserção da criança no meio social, portanto ser filho único não implica uma grande falta neste quesito.

Escolha e arrependimento

A microbiologista Maria Lígia Carvalhal, de 63 anos, é uma prova. Quando teve o primeiro e único filho Rafael, aos 37, ficou sempre atenta para ensinar o filho a conviver com as frustrações. “Não adianta dar tudo que a criança quer. Depois ela vai bater cabeça na vida”, diz. Segundo Maria Lígia, Rafael não foi superprotegido e sempre foi cobrado para a importância de aprender a dividir. E deu certo. Mas ele sempre esteve cercado de amigos desde quando começou a frequentar a escola. “Em casa e nas viagens, sempre tinha um, dois, três amigos”, conta. “Até hoje isso é muito importante para ele”.

Embora se orgulhe de ter criado um filho que jamais recebeu o rótulo pejorativo de “filho único”, associado a crianças mimadas, Lígia se arrepende de não ter tido um segundo. “Não por mim, mas por ele. Faz falta ter um irmão para repartir as neuras dos pais”, afirma. As ansiedades e expectativas dos pais se voltam naturalmente ao único filho e, para ela, esta é uma carga muito grande para uma criança só. Mas dar um irmão para Rafael estava fora de cogitação: com a carreira reencaminhada, Lígia não queria deixar um bebê logo cedo em berçários outra vez.

Segundo Zimmermann, hoje em dia a pressão social para a mulher engravidar diminuiu. Isso ajuda o desenvolvimento dos pequenos. “As mulheres podem amadurecer mais a ideia de ser mães e as crianças saem lucrando”, diz. No entanto, quando o filho é único, a tendência em protegê-lo demais é uma armadilha comum, mais facilmente evitada com a presença de mais uma criança. “Quando há mais de um, os pais podem transitar com o olhar por todos”, afirma. A terapeuta familiar Ana Gabriela concorda: “É mais difícil para estes pais deixar um filho único caminhar com as próprias pernas”.

Sem terceirizar

A superproteção não é o único risco comum corrido pelos filhos únicos. Há também a exigência em excesso. Para Ana Gabriela, a classe média brasileira de hoje valoriza, sobretudo, uma boa educação e uma boa escola. Com mais de um filho, fica mais difícil proporcionar o melhor a todos. “Hoje, com a questão da competitividade, os pais querem dar tudo. Mas quanto mais filhos se tem, menos se consegue dar”, afirma. E adeus cursos de inglês, natação, música. Com a mulher fora de casa, ser mãe também exige, além de gastos, um planejamento logístico mais complexo para o dia a dia do filho, desde um serviço de ônibus escolar até a contratação de uma babá – sem terceirizar a educação .

Para a blogueira Liliane Ferrari, de 36 anos, contratar uma babá está fora de cogitação. “Não dá para terceirizar a maternidade. Também por isso prefiro ter apenas uma filha”, conta. Luisa tem quase cinco anos e, segundo Liliane, não dá pouco trabalho. “Não tenho esse pique todo”, diz, justificando-se para as amigas que apregoam a necessidade de toda criança ter um irmão para brincar e aprender a compartilhar.

Luisa, diferentemente da impressão geral sobre os filhos únicos, costuma ser aberta a dividir e a oferecer. “Nós estimulamos a privacidade e a independência dela”, comenta. Para Liliane, a questão é os pais saberem lidar com a individualidade dos filhos e colocarem limites para as crianças se adaptarem socialmente.

Disputas saudáveis

Com a existência de irmãos na família, é comum haver negociações cotidianas para ver quem vai sentar em que lado no carro, quem vai tomar banho primeiro ou quem vai escolher a música da viagem. Pais de filhos únicos podem contornar esta falta, não permitindo que a criança sempre faça as escolhas. “Ofereça condições para ela aprender a lidar com a frustração”, diz Quézia.

Além disso, incentivar o filho a ter relações de amizade sem medo é essencial. Muitas vezes os pais têm medo do enfraquecimento do referencial de família devido à aproximação dos amigos. Mas, para Ana Gabriela, não há o que temer se os vínculos familiares forem sólidos. Cada um tem seu espaço e não haverá este tipo de competição.

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