Atletas contam experiências e desafios das responsabilidades dentro e fora das quadras

Ficar longe dos filhos parece mais difícil do que ganhar o campeonato mundial. Ao menos, para os atletas do esporte brasileiro. Entre treinos e competições aqui e pelo mundo, eles se desdobram para combinar carreira e paternidade.

Difícil? Um pouco. “Procuro me concentrar no trabalho e me dedicar à família, mas seria maravilhoso se o dia tivesse mais do que 24 horas para que pudesse aproveitar melhor tudo isso”, conta o jogador de vôlei de praia, Emanuel Rego, que acaba de ter seu segundo filho, o pequeno Lukas.

Leila e Emanuel: o pai estava jogando um dia antes do nascimento do pequeno Lukas
Divulgação
Leila e Emanuel: o pai estava jogando um dia antes do nascimento do pequeno Lukas
Fruto da relação com a também jogadora Leila Gomes Barros, o bebê nasceu um dia após o pai vencer a etapa de Fortaleza (CE) do Circuito Brasileiro 2010. “Estar ao lado da esposa nesse momento mágico foi uma sensação única”, desabafa.

Após 18 anos disputando oficialmente nas areias, é a segunda vez que Emanuel passa por essa situação. Em 1997, foi Mateus que veio ao mundo. “Nos dois casos, precisei ficar longe das etapas seguintes do campeonato. Sempre há prejuízos, mas eu tento minimizar isso ao máximo”.

Jogador de alto nível, Emanuel não diminuiu o ritmo e continua a treinar forte. O objetivo é conquistar, junto com o parceiro Alison, o título brasileiro deste ano, além da classificação para os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.

Nesses tempos de trabalho duro, quem ajuda a diminuir a distância é o telefone. “A carreira me faz abrir mão de horas em família, dias, semanas e, às vezes, até meses, mas faz parte. Por mais que esteja ausente em alguns momentos, sou um pai muito participativo”.

Leandro Vissoto, da seleção masculina de vôlei e pai de Catharina, tem na profissão um ponto de apoio. O jogador acompanhou o parto da criança, mas seis dias depois teve que voltar para a concentração. “Caso não pudesse participar queria fotos e tudo mais que tenho direito. Felizmente coincidiu com a folga do grupo no final de semana”, diz, sorridente, o jogador.

Durante a gravidez, Leandro usou o telefone e a internet para saber de todas as novidades da gestação. Agora, sempre que pode, viaja à Belo Horizonte e ao Rio de Janeiro para visitar a família. “Analiso a agenda do clube e da seleção e me planejo. É importante ter a cabeça no lugar e poder levar bem as coisas, se não, nada sai da maneira que deve: nem a atenção que é preciso com a esposa durante a gravidez e nem a minha atuação em quadra.”

Ao falar do fato de conciliar a carreira com a paternidade, o jogador é direto: “A Catharina passou a ser o que eu mais prezo e por quem eu tenho que batalhar todo dia. Por isso, a carreira e os resultados não podem ter menos importância. Meu trabalho continua com a mesma relevância que antes, só que agora tenho que dividir as atenções com a família que cresceu”. Para ele, o melhor é trabalhar bastante, já que a correria dos jogos e treinamentos ajudam a passar o tempo.

E para não perder nenhuma fase do crescimento do bebê, as fotos no celular diminuem os momentos de saudades. Nessas ocasiões, o jogador conta que o apoio da família é primordial. “Quando as pessoas que estão à sua volta compreendem a importância dos seus compromissos, fica tudo mais fácil”.

Transferido recentemente para o Vôlei Futuro, o atleta disputará a Superliga ainda este ano. “Espero que seja uma nova jornada de muito sucesso. Retornei ao Brasil para ficar mais próximo da minha família e acredito que serei tão feliz quanto fui na Itália”, completa entusiasmado.

Realizado como pai, Leandro diz que o segredo para continuar com suas conquistas profissionais é muita disciplina e paciência. E, mesmo com aperto no coração ao deixar a filha e partir, garante que desempenha bem o seu papel de jogador. “Sou como um soldado indo para a guerra. Preciso ir, vencer e voltar para casa e reencontrá-la.”

A jogadora de volei Isabel entre as filhas, Carolina, à esquerda, e Maria Clara, à direita
Wagner Meier / Fotoarena
A jogadora de volei Isabel entre as filhas, Carolina, à esquerda, e Maria Clara, à direita
E quando a atleta é a mãe? Será possível seguir carreira nos esportes e ter vários filhos? Maria Isabel Barroso Salgado, mais conhecida por Isabel, garante que sim. Ex-jogadora de vôlei de praia e de quadra, a atleta deu à luz quatro filhos. Ícone da geração que transformou o vôlei no segundo esporte preferido dos brasileiros, teve a primeira filha aos 18 anos. “Apesar de ter vindo antes do planejado, Maria Clara foi muito desejada”, conta a atleta.

Quem a conhece sabe que sua vida foi sempre agitada. Dos 12 aos 44 anos jogou em mais de dez clubes brasileiros e ainda fez carreira no vôlei de praia, em que formou dupla com a própria filha, Carolina, então com 17 anos. Mas diferente do jogador Leandro, a esportista levava os filhos para quase todos os campeonatos. “Ao receber a convocação, se não pudesse levar eles, eu não iria”, confirma a jogadora.

Mas para viajar o mundo aos 28 anos, com todas as crianças, ela confessa que precisou de muita estrutura. “Tive duas babás que me ajudaram muito. Até levei o filho de uma delas certa vez. Éramos uma trupe muito divertida.”

Assim, as crianças cresceram entre viagens para países como a Itália e o Japão e desde cedo aprenderam muito sobre gastronomia e culturas diferentes. “A primeira vez que a Maria Clara andou de ônibus sozinha foi aos sete anos no Japão. Foram só quatro paradas, mas a viagem foi tensa e emocionante para todos”, conta, aos risos. Ela garante que essas experiências foram enriquecedoras e ajudaram na atual ligação entre eles. “Somos uma família muito unida. Acompanho os treinos e jogos dos meus filhos na praia e ainda tenho pique para brincar com João, meu neto”. Apesar de não negar o lado difícil, como o retorno ao preparo físico, Isabel garante que não tem do que se queixar. “Deu tudo muito certo”, finaliza.

Paula Pequeno, musa das quadras, também afirma sua boa relação com as duas filhas. Depois de ser considerada a melhor jogadora do mundo, em junho de 2006, às vésperas do Campeonato Mundial, a atleta engravidou de Mel. “Vivia um excelente momento na carreira. Apesar de me afastar, me recuperei a tempo e voltei para o Mundial do Japão.” Para ela, viajar bastante e não ter contato com a filha durante as competições faz parte do trabalho. “Recompenso com muito amor e carinho quando estou ao lado dela”.

E quando estão longe uma da outra? “Nos falamos através da webcam. Procuro ver o rosto dela para saber se está realmente bem”. Aos quatro anos, Mel também aprendeu a usar o rádio para se comunicar com a mãe. Assim como para Isabel, morar fora do país não trouxe grandes problemas para Paula. “Na Rússia, a adaptação da minha filha foi tranqüila”, comenta.

Homens ou mulheres, em um ponto todos os profissionais concordam: ao ter filhos, a satisfação de voltar para casa é ainda mais prazerosa. “O estímulo aumenta com esses torcedores tão especiais”, resume Isabel.

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