Você pode incentivar as habilidades do seu filho desde pequeno, sim. Mas sem alimentar expectativas que o pressionem demais

Médico, astronauta, biólogo ou engenheiro? Os pais não precisam ir tão longe e logo definir o futuro profissional de seus filhos, mas observar os talentos deles pode ajudá-los a chegar, no tempo certo, à profissão que ele mesmo escolher. A chave é reconhecer algumas habilidades da criança – até mesmo durante a gestação – para oferecer a ela os estímulos adequados durante o crescimento.

“No ventre, a mamãe já detecta se ele é ativo ou passivo, se mexe bastante ou fica mais paradinho”, exemplifica Adriana Imbroisi, diretora da escola de educação infantil Santo André da Materna, cuja metodologia consiste em estimular e perceber inteligências múltiplas. Conforme o pequenino cresce, certas características ficam mais visíveis, basta observar suas atitudes cotidianas: se prefere livros a brinquedos de montar, se quando começou a andar logo queria correr e desbravar os quatro cantos da casa, se o seu olhar fica atento quando uma música começa a tocar. “Apenas tome cuidado para não rotular nem fechar as possibilidades”, ensina a educadora.

Os irmãos Romeu, de 3 anos, e Matias, 4: um adora cozinhar e até quebra ovos sozinho; o outro tem ouvido aguçado para a música
Bruno Zanardo/Fotoarena
Os irmãos Romeu, de 3 anos, e Matias, 4: um adora cozinhar e até quebra ovos sozinho; o outro tem ouvido aguçado para a música
A relações públicas Ceres Maldonado, 30, é mãe de Matias, 4 e Romeu, 3. Os dois mostraram desde pequenos que tinham talentos especiais: o mais velho adora ouvir as músicas dos Beatles e canta tudo, mesmo sem saber uma palavra do que está falando. Além do mais, vive fazendo um batuque. Já o caçula sempre adorou acompanhar os pais na cozinha e pediu para aprender a quebrar ovos, misturar alimentos e fica fascinado com a comida pronta. “Busco fazer essas coisas que eles gostam junto com eles. Conto que tem algumas escolas que ensinam a fazer música ou culinária e se eles gostariam de frequentar algumas aulas. É tudo bem tranquilo, sem cobrança, apenas para eles se divertirem”, conta a mãe.

Cardápio de atividades

Segundo a psicopedagoga Deborah Ramos, é a partir dos quatro anos que as crianças demonstram talentos para atividades específicas. Em comparação às outras, é nessa fase que elas apresentarão linguagem bem desenvolvida para a comunicação, destreza manual para trabalhos artísticos, capacidade nata de liderança, ótimo desempenho para música, esportes, canto, cuidado com animais... “Existem crianças muito tímidas que poderão dificultar a descoberta destes talentos. Cabe aos pais, que a conhecem na intimidade, detectar e estimulá-las”, avisa.

E como a própria criança vai descobrir suas inclinações? Isso depende do cardápio de possibilidades que lhe é oferecido – e cabe aos pais oferecê-las em variedade. “Também é papel dos pais mostrar uma variada gama de atividades para os filhos, para que eles tenham a oportunidade de decidir o que querem fazer, bem como observar o interesse da criança e estimulá-la a praticar aquilo para desenvolver seu potencial”, acrescenta Ana Lúcia Gomes Castelo, terapeuta do Hospital Infantil Sabará.

Brincadeiras para aprender

Esta fase é ideal para, a partir das brincadeiras, estimular os interesses da criança com brinquedos, jogos, filmes e atividades. De acordo com Ana Lúcia, escolinhas de esportes, música e dança também são bem-vindas para desenvolverem aptidões físicas e emocionais. Mas atenção para não projetar os seus planos no pequeno. “Tais atividades devem ser aprendidas com amor e felicidade. Os pais devem acompanhar as rotinas e estar seguros de que a criança desenvolve seu potencial de maneira adequada e, o mais importante, feliz”, completa. Os cursos devem ser vistos com cautela e sempre escolhidos de acordo com a vontade da criança. “Forçá-la a estudar música enquanto ela apenas quer brincar com sons pode prejudicar o talento em vez de estimulá-lo”, explica Deborah.

Para definir o limite entre o incentivo e a pressão, basta notar e aprimorar o dom por meio de brincadeiras – jogos e brinquedos temáticos, por exemplo. A medida, inclusive, pode ajudar a criança a aprender aquilo em que tem dificuldade, aproveitando uma mãozinha do seu maior talento. Adriane Imbroisi ilustra: uma criança ativa, com inclinação para esportes, mas com dificuldade para se alfabetizar, pode ser estimulada a lidar com as letras através de jogos de campo. “Pode-se, por exemplo, criar um jogo na quadra com letras grandes no chão, para que ele se movimente e, simultaneamente, aprenda o alfabeto”.

Em tempos de “crianças prodígio”, os especialistas alertam para que os pais tenham um olhar mais objetivo das condições de seus filhos, para que não lancem expectativas maiores do que as crianças podem realizar. Embora os menores realmente estejam se desenvolvendo com muito mais energia e facilidade devido às opções e oportunidades que lhes são mostradas, eles são apenas crianças, com um longo caminho a trilhar para descobrir sua vocações, seus talentos, e se desenvolver nos mais diversos aspectos da vida.

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