Ser uma boa madrasta é reconhecer seu papel dentro de uma família que já têm laços e problemas muito antes de sua chegada

Os contos de fada cristalizaram uma imagem nada favorável para as madrastas. Elas são mulheres que vêm tomar o lugar da boa mãe, perseguindo e explorando os filhos do casamento anterior – quando não tentando livrar-se sumariamente deles. “A primeira vez que uma criança escuta a palavra madrasta é nos contos de fadas, em que as personagens eram realmente más”, diz a terapeuta familiar Roberta Palermo, autora do livro “100% Madrasta: Quebrando as Barreiras do Preconceito” (Integrare Editora), explicando um estereótipo que, embora bem contrário ao mundo real, ainda sobrevive.

Na verdade, as mulheres que se casam com pais separados já ganharam espaço e são figura comum nas novas famílias. Elas provam que é possível ter uma boa convivência com as crianças e adolescentes que ocupavam a casa antes. Mas muitas ainda cometem erros fatais. Conversamos com especialistas e mulheres que viveram essa experiência para saber quais são eles – e como evitá-los.

1. Falar mal da mãe da criança
As madrastas surgem na vida das crianças durante a separação dos pais, um momento bastante delicado. Esse é o principal ponto que a madrasta deve entender ao entrar em uma relação. Sofrer a separação dos pais e ainda ter de conviver com uma pessoa estranha que chega já é informação suficiente para os filhos.

Alessandra, madrasta, evitou as armadilhas dando atenção especial à enteada
Flavio Moraes/Fotoarena
Alessandra, madrasta, evitou as armadilhas dando atenção especial à enteada
2. Comprar a provocação das mães que usam a criança para atingir a mulher atual
Alessandra Gomes da Silva tinha uma boa relação com a mãe de um de seus enteados. Mas logo percebeu que a mãe da outra era jogo duro. “Quando ela mandava a menina para visitar o pai, colocava roupa suja na mochila, brigava por dinheiro”, conta. Em vez de comprar a briga, Alessandra entendeu que a criança precisava de mais carinho e atenção – e quando estava com ela se dedicava a isso. “Tem mulher que desconta seus ciúmes no filho. E tem madrasta que desconta na criança o que mãe faz”, compara. Para Marina Massi, doutora em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo), o melhor é evitar o confronto, mas não se submeter indiscriminadamente ao que vem da ex-mulher. “É preciso deixar claro que o ataque vem do outro lado e que, no fundo, a mãe não está conseguindo refazer a vida e ser feliz”, explica a psicóloga. “Marque o seu lugar como um lugar de paz e não de guerra familiar”.

3. Tentar ser melhor que a mãe das crianças
Quando se casou, Claudia Maria da Silva Righetti conheceu seu enteado, Thiago, com 4 anos. Hoje, ele tem 29 anos e ela sempre soube dividir bem cada momento. “Quando o Thiago casou, eu defendi que a mãe dele entrasse com o pai na igreja. Quando o filho deles nasceu, eu sempre soube que ela seria a avó. Ele acabou me escolhendo como madrinha”, conta. 

4. Manter uma rotina à parte nos finais de semana que estiver com a criança
Para construir uma relação saudável, Claudia conta que se dedicava integralmente a Thiago nos dias de visita ao pai. Criou, ao longo dos anos, uma relação de respeito e amizade, que sobreviveu até à adolescência, quando ele dava mais importância aos amigos do que à família. Claudia entrou na vida de Carlos e seu filho Thiago já refletindo sobre seu papel naquela relação familiar. “Quando nos casamos, fiz questão que ele participasse de tudo para se sentir parte, sem achar que estava perdendo o pai dele”, conta. O casal até decidiu não ter lua-de-mel para não se afastar muito tempo da criança.

5. Medir forças com o enteado
O desafio complica quando os filhos são adolescentes. Enquanto as crianças tendem a ser mais obedientes e se adaptam facilmente, os adolescentes vivem a fase do enfrentamento. Vale redobrar a atenção para não querer ocupar o lugar da mãe ou impor novas regras. E, se houver birra, a primeira providência é conversar com o companheiro. “É preciso explicar a situação com franqueza e pedir que ele, com muito jeito, vá falando aos poucos que eles resolveram se separar e que a madrasta não foi a culpada”, recomenda Roberta. Segundo Marina, isso ocorre quando os enteados culpam a madrasta pela separação dos pais. Entrar nesse jogo só prejudica a boa convivência de todos na família.

6. Exigir ser amada pela criança
Essas atitudes são comuns a madrastas que querem ter o lugar de “segunda mãe” a qualquer custo. Para estas, um aviso: não há como esperar que os filhos amem a madrasta da mesma maneira que amam suas mães. “Amor pode ser construído, mas se não acontecer, tudo bem! Uma relação muito próxima pode ser difícil, mesmo nos melhores casos”, explica Roberta. Quem deve reconhecer a dedicação da madrasta ao filho é o pai, que pode apoiá-la no seu papel de madrasta e ser um bom moderador na família.

7. Impor novas regras, invadindo o espaço dos pais

Tanto na convivência diária como nas visitas periódicas, a madrasta não deve ter o papel de educar as crianças – essa responsabilidade é exclusiva do pai. Mesmo tendo razão, o que ela pode fazer é criar novas regras, desde que o pai compactue com elas. “Se a madrasta quer colocar a criança para dormir mais cedo, não pode obrigá-la a menos que o pai concorde”, diz Roberta Palermo.

8. Sentir ciúmes da relação que a criança tem com os pais
Quanto melhor a família se dá, melhor também será sua relação com as crianças. Alessandra Gonzaga de Almeida entendeu o recado quando se casou e passou a conviver com Gabriel, de 10 anos. O menino, hoje com 16 anos, mora com a avó, mas toda a relação da família é saudável. “Como a criança está passando por um momento difícil, o melhor é ser amiga dela. Não acho certo comprar pessoas com presentes, por exemplo. Dar atenção é muito mais importante”, conta ela.

Relembre as madrastas - boas ou más - mais famosas

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.