Segundo mãe, avanço no idioma do filho foi notável. Mas especialistas recomendam cuidado

João Cândido e Lelyane no aeroporto, antes do embarque para o intercâmbio
Arquivo pessoal
João Cândido e Lelyane no aeroporto, antes do embarque para o intercâmbio
Aos cinco anos, sair da barra da saia da mãe para dormir na casa de um amigo pode ser um desafio e tanto. Com esta mesma idade, João Cândido foi bem mais longe: passou um mês estudando nos Estados Unidos. A oportunidade surgiu na escola de inglês do menino, e a mãe, Lelyane Damasceno, 47, sentiu que o filho estava completamente seguro para participar. Tão seguro que, ao perguntar a João o que ele faria se sentisse saudade, ouviu a resposta: “Qualquer coisa a gente se fala pelo Skype, mãe!” (programa de mensagens instantâneas com vídeo) .

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A experiência de João Cândido aconteceu no início de 2010, quando ele e mais 11 crianças, de quatro a 12 anos, passaram as férias de janeiro entre aulas em uma escola norte-americana e visitas a parques da Disney. Eloísa Lima, diretora pedagógica da escola Dice English Course, criou o programa há cerca de 20 anos. Enquanto a maioria dos cursos de intercâmbio estabelece idade mínima entre 7 e 8 anos, Eloísa contempla crianças a partir de quatro anos. Segundo ela, a despeito da idade precoce dos participantes, tudo sempre saiu como previa o figurino. Mas não sem muita preparação.

O objetivo do intercâmbio é proporcionar à criança a imersão no idioma e a vivência pedagógica em outro país, com atividades condizentes a sua faixa etária. Os alunos até realizam uma exposição sobre o Brasil para os novos amigos e colegas. Mas, antes do embarque, os possíveis participantes são avaliados em termos linguísticos e emocionais.

As crianças devem ter alguma noção de inglês, para não chegar lá sem entender nada, e precisam estar em um bom momento familiar, estáveis emocionalmente. “Não posso levar uma criança cujos pais estejam passando por instabilidades. Elas são muito sensíveis a emoções”, diz Eloísa.

Durante o ano anterior à viagem, as crianças passam por uma preparação e aprendem todas as regras a serem obedecidas enquanto estiverem longe dos pais. “Enquanto estamos lá, somos como uma família. E tentamos tornar a experiência o mais pedagógica possível, sem deixar a criança desassistida emocionalmente”, conta Eloísa. “Elas precisam saber que estão ali para falar inglês e não arrisco uma possibilidade de deixar a criança traumatizada” diz.

Vivência em outro país ajuda a adquirir hábitos importantes para a vida
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Vivência em outro país ajuda a adquirir hábitos importantes para a vida
Eu quero a minha mãe!

A psicóloga Maria Cristina Capobianco é especialista em comportamento infantil e adolescente. Para ela, há um risco em permitir que crianças entre quatro e cinco anos participem de uma experiência como esta. “A criança desta idade ainda é bastante dependente dos pais e pode sentir falta da rotina, de casa, da comida”, afirma. Por mais que a criança tenha pessoas queridas por perto, aos quatro anos de idade é difícil para ela se explicar e nomear o que sente.

Nesta fase, segundo ela, os pequenos ainda estão experimentando como é ficar longe dos pais. E pode ser muito marcante, caso ela não se adapte rapidamente. “A partir dos sete anos a criança já pode processar melhor os impactos de uma viagem como essa e aproveitar muito mais”, diz.

Aos sete anos as crianças já sabem dizer se estão com saudade ou, por exemplo, dor de estômago. Antes disso, se a criança não se adapta, a psicóloga e terapeuta familiar Monica Dorin Schumer diz que ela pode ficar com uma sensação de abandono. “Se isso não acontece, não vejo problemas”, completa.

Hábitos e costumes

“Mesmo sem lembrar conscientemente da experiência, o intercâmbio pode ser uma vivência interessante”, ainda comenta Maria Cristina. Segundo a especialista, a criança pode assimilar hábitos e costumes que serão muito úteis ao longo da vida. “Ela pode se acostumar a ser mais autônoma, a pedir as coisas por si mesma, a dizer palavras mágicas como ‘por favor’ e ‘obrigado’”.

Maria Irene Maluf é especialista em psicopedagogia. Embora afirme que a criança tem um poder de memorização e atenção maior a partir dos seis anos, a especialista não vê problemas em participar de um intercâmbio mais nova. “Talvez essa experiência para uma criança que é até superprotegida seja muito importante. Mas acho que com quatro anos é realmente ainda muito cedo”.

Aos pais dispostos e aos pequenos já nem tão dependentes, Eloísa Lima diz que o aproveitamento é grande. “Elas dão um salto qualitativo grande. Este único mês nos Estados Unidos representa um ano de trabalho regular nos estudos do idioma”, diz a especialista. Para João Cândido isso realmente aconteceu. “Ele é uma ‘esponjinha’, e voltou falando com muita fluência”, conta a mãe. Embora tenha escutado de muitas pessoas próximas que era um absurdo deixar o menino viajar sem os pais ainda tão pequeno, Lelyane conta que na próxima oportunidade o enviará novamente. Ele já terá nove anos – e o Skype como aliado.

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