Livros que contam histórias difíceis – sobre alcoolismo, perdas ou separações – podem ajudar as crianças que lidam com problemas semelhantes

Se para os adultos já é difícil expressar sentimentos e superar traumas, para as crianças o desafio de passar por algumas situações inesperadas se torna ainda maior. Mas de acordo com Lucélia Elizabeth Paiva, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP, os livros podem ajudar – e muito – nessa hora. Eles ajudam a criança a expressar o que sente sobre diferentes conflitos e, assim, encontrar uma possibilidade de resolução para seus problemas.

Um livro infantil que, de forma direta ou mais sutil, fale sobre a separação dos pais, sobre a morte de um ente querido ou sobre um problema familiar como o alcoolismo, por exemplo, pode envolver a criança que ouve a história de forma a acolhê-la e mostrar que ela não está sozinha. “Mas a história em si não vai fazer milagre”, ressalta Paiva. É importante que a criança tenha a possibilidade de trazer as angústias à tona, que haja um espaço para ela se expressar. “O principal não é a história em si que será contada ao filho, mas como a dinâmica desta história irá acontecer”, explica.

Independentemente do assunto, o livro só fará a criança lidar com suas perdas se o adulto que estiver utilizando este recurso realmente achar que tudo aquilo faz sentido. “Tem adulto que lê uma história e nem se dá conta do que se trata por não ver os detalhes, não se envolver”, diz Lucélia. Se isso acontecer, é difícil que a criança realmente alcance o objetivo da história. Mas, bem empregado, o livro “servirá como um espaço para se conversar com a criança sobre o assunto ou para que ela pense a respeito sobre a situação que vivencia”, explica. “E o adulto que a acompanhar deve se sentir confortável para tratar de uma temática delicada”.

A psicóloga Cibele Marras, da Clínica Elipse, em São Paulo, explica que a fantasia é uma forma que a criança usa de associação com o real. Ela identifica aquela história sobre a vinda do novo irmãozinho ou sobre a separação dos pais do personagem como algo que ela vive. “Assim ela consegue aprender alguns recursos para lidar com situações mais conflitantes”, diz Cibele. Utilizar livros infantis com temáticas específicas, portanto, pode ser um instrumento poderoso para que a criança acesse os sentimentos e comece a entendê-los. Aquela criança que fica mais agressiva na escola por viver em casa a separação dos pais, por exemplo, encontra através do livro maneiras mais satisfatórias de lidar com o problema.

Segundo Marineide Gomes, doutora em Educação e Professora do Curso de Pedagogia da Unifesp, as crianças irão tirar as consequências das histórias a partir do mundo e do contexto em que vivem. “Junto com a história, sempre haverá alguma forma da criança se manifestar”, diz. As histórias ativam a imaginação e, se existe ainda a possibilidade da criança recontar aquele livro, ela pode colocar elementos novos e sair daquele enredo para se apropriar dele: “É isso que faz sentido para as crianças: explicar a complexidade da realidade no nível em que ela consiga entender”.

Cibele acrescenta que se pai ou mãe – ou ambos – estiverem juntos nessa, melhor ainda. Isso se já houver um conforto para tratar do assunto, claro. “Se os pais não estiverem preparados para tratar da temática, qualquer que seja ela, podem acabar enfrentando dúvidas que não estão prontos para responder”, afirma a especialista.

Para isso, é importante que se conheça o livro a ser lido e, sobretudo, que ele traga uma solução para o conflito. “O adulto deve sentir que é uma história que pode acolher a angústia daquela criança sobre o que ela está vivendo”, explica Lucélia. Nas prateleiras, não faltam livros capazes de ajudar as crianças na superação de situações dolorosas e amedrontadoras. Confira alguns na galeria.


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.