As ferramentas disponíveis na Internet são vistas como alternativas práticas e baratas para ajudar a manter a família conectada


Dona Norma e seu
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Dona Norma e seu "encontro" com a filha, que mora na Itália
O avanço tecnológico e as redes sociais transformaram a comunicação entre as famílias. Bem utilizados, Facebook, Twitter, Myspace, Orkut, MSN e Skype, entre outros, podem encurtar distâncias entre pais e filhos que vivem em países diferentes – mesmo quando estes pais estão longe da idade do público-alvo das redes sociais.

Norma Arcibelli, 77 anos, ganhou um computador da filha, Maria Cecília, que está morando na Itália e com quem conversa diariamente pelo Skype. O presente foi uma providência para que a mãe, moradora de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, pudesse manter um contato mais próximo com a filha – que não se contenta em falar por telefone e quer ver a “fisionomia” para saber se a mãe está bem. “É diferente do telefone. Ela tem que me ver. Ela é do tipo São Tomé, só acredita vendo pelo computador”, brinca dona Norma.

Maria Cecilia Arcibelli, 55 anos, fez questão de equipar a mãe para tentar repetir com ela o bom relacionamento que tinha com as próprias filhas pela internet. “Não consigo me imaginar a 10 mil quilômetros de distância da minha mãe sem poder falar com ela e, principalmente, sem vê-la”, explica a médica, acostumada a usar a internet para conversar com a filha Daniela, aos 24 anos que estudou nos Estados Unidos, e com a mais velha, Cláudia, que com a mesma idade foi para a Holanda, onde mora até hoje.

Para a psicóloga Beatriz de Paula Souza, do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), apesar da evolução da tecnologia, nenhuma mídia é capaz de estabelecer um contato com tudo que se tem direito – não só palavras, mas também silêncios, pausas, hesitações e todo o resto. Ela adverte que só a comunicação à distância não contenta, porque não tem todos os elementos da comunicação presencial e não substitui o encontro, no qual as pessoas podem se tocar, se abraçar.

Brincando de mamãe e filhinha

Para a psicóloga, os instrumentos oferecidos pelas novas tecnologias não substituem e não alcançam a plenitude do cuidado real, mas, na impossibilidade do encontro presencial, ajudam a cultivar o vínculo. O importante é não acreditar que o virtual esteja satisfazendo a necessidade da vivência real fundamental ao ser humano.

Maria Cecília, por exemplo, tem até as senhas do Facebook das filhas, para cuidar de jogos interativos (como a fazendinha) da dupla quando elas estão viajando ou muito ocupadas. Mãe e filhas podem estar, com essa prática, suprindo a necessidade que têm de exercerem os seus papéis na família. “O modo de lidar com a fazendinha pode estar ajudando a suprir simbolicamente o cuidado da relação mãe e filha”, opina.

A psicanalista Maria Angela Santa Cruz diz que não vê inconveniente em pais e filhos maduros compartilharem a mesma rede social. Mas lembra que, no caso de filhos adolescentes, isso é mais complicado. “Uma coisa é contato via Skype com filho que está fora, outra coisa é participar da rede social como se fosse um deles. Os adolescentes não gostam que os pais se misturem numa coisa que não é deles. E alguns pais acabam se infantilizando. O pai não pode se ‘adolescentizar’ como o filho”, alertou.

A médica Alexina Lúcia Calle de Paula Witt, 44 anos, prefere não abusar dos avanços tecnológicos. A ideia é preservar a privacidade e a autonomia do filho Raul, que aos 15 anos está longe da casa dos pais em Recife (PE) desde janeiro, para intercâmbio de um ano na Holanda. A mãe não fala com o adolescente todas as semanas, embora seja capaz de manter uma conversa pelo Skype por duas horas em um domingo à tarde depois de longo período sem contato direto. “Quando ele está conectado e eu entro, ele manda uma mensagem. Eu espero ele tomar a iniciativa”, conta.

Alexina demonstra preocupação em não ser invasiva em relação à vida do filho fora – afinal, ele foi viver esta experiência justamente para aprender a “se virar”. “Um dos intuitos é que ele aprenda a ficar mais independente. Ele resolve as coisas, depois eu fico sabendo”, explica a mãe. Mas ela reconhece as vantagens das tecnologias e das redes sociais na hora de manter contato e acredita que os recursos tecnológicos oferecem boas oportunidades para o relacionamento. “É prático, é barato, facilita muito a vida. Tem ajudado a nos manter conectados”, conclui.

Do outro lado do mundo

Depois das longas cartas, telefonemas escassos e cartões portais, Donária Smith, de Curitiba, se esbalda com as facilidades da internet enquanto a filha viaja pelo mundo. Sylvia, 31 anos, administradora hoteleira, mora em Hong Kong, na China. Mas não é de hoje que conversa à distância com a mãe. Ela saiu de casa pela primeira vez aos 10 anos, para fazer um intercâmbio nos Estados Unidos, e aos 15 fez outro na Alemanha. Depois, estudou e trabalhou na Alemanha, na Suíça, nos Estados Unidos e na França – sempre em contato online com a família.

Donária pede ajuda ao neto para manter contato com a filha, Sylvia
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Donária pede ajuda ao neto para manter contato com a filha, Sylvia
“Agora simplificou. Não parece tão distante, porque você vê a pessoa pelo Skype”, celebra. Entusiasta das novas tecnologias, ela diz que consegue até dosar as mensagens faladas e escritas. Quando quer tratar de assunto mais particular entre as duas, só escreve – para evitar que “a casa toda” ouça a conversa.

Dependendo da relação entre pais e filhos, a psicóloga Maria Angela acredita que as novas tecnologias realmente facilitam um encontro. “É um contato direto. Você não pode pegar, mas, já é mais direto do que o telefone. Pode facilitar. Mas para pais e filhos que se estranham muito, a tecnologia não é capaz de quebrar barreiras”, opina.

A internet também une as gerações: Donária tem o auxílio do neto Leonardo, 12 anos, para entrar no Facebook e acompanhar as fotos das viagens de Sylvia. Ela não quis ter a sua própria página na rede social porque não gosta de compartilhar informações pessoais, mas gosta de saber da vida da filha pela tela e aprecia a ajuda do neto. “Ela foi mergulhar nas Filipinas, na Tailândia, pôs as fotos lá e falou para o Leonardo me passar. Ele faz na minha frente, eu vejo e aprendo”, diz.

A psicóloga Beatriz de Paula Souza também já sentiu de perto o impacto das novas mídias na vida familiar. Percebeu que falava mais com a filha Mariana, 27 anos, quando ela morou um ano em Londres, do que quando ambas moravam em casas diferentes em São Paulo. “Se as tecnologias servirem para me afastar da minha filha, elas são ruins. Se servirem para mostrar que preciso estar perto da minha filha, são boas. Se substituírem ilusoriamente o presencial, consistem em mau uso”, resume. Beatriz continua usando a internet para os encontros virtuais com a filha Gabriela, de 29 anos, que desde os 22 mora em Manaus (AM) e passou um ano na Finlândia.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.