O mito dos pais perfeitos

Educar os filhos ficou mais difícil? Especialistas discutem as diferenças de criar uma criança no mundo de hoje

Renata Losso, especial para o iG São Paulo | 04/11/2011 08:03

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Pais se sentem culpados e usam os limites como barganha

Com tantas mudanças no mundo ao longo das últimas décadas, da entrada massiva da mulher no mercado de trabalho aos avanços da tecnologia, a família com papéis previamente determinados – o “pai-provedor” e a “mãe-cuidadora” – perdeu seu lugar, assim como a posição invariavelmente autoritária (e não de autoridade) dos pais diante dos filhos.

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De acordo com a psicóloga e psicopedagoga Elizabeth Monteiro, autora do livro “Criando Filhos em Tempos Difíceis – Atitudes e Brincadeiras para uma Infância Feliz” (Editora Mercuryo), os pais ficaram um pouco perdidos diante deste cenário. “Aquilo que servia deixou de servir, mas um novo papel não foi encontrado para ser reposto”. E assim começou a dificuldade dos pais.

Caio Feijó é psicólogo e autor do livro “Pais Competentes, Filhos Brilhantes – Os Maiores Erros dos Pais na Educação dos Filhos e os Sete Princípios Fundamentais para Prevenir essas Falhas” (Novo Século Editora). Para ele, o sistema familiar atual se tornou horizontal: o pai não está mais no topo da pirâmide e, agora, quem tiver mais sentimento de culpa se submeterá a quem se colocar como vítima. É nesta hora que os filhos dominam os pais.

Muitas crianças passam boa parte do dia com babás, na escolinha ou com outro parente. Os pais, trabalhando muito e passando pouco tempo com os filhos, caem na armadilha da permissividade e deixam de estabelecer limites como uma forma de barganha.

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Falta de limites e insegurança

Trabalhar e dar a devida atenção aos filhos é possível, embora difícil. Mas se os pais ainda não sabem exatamente o que fazer, o cenário se complica. Segundo a psicóloga infantil especialista em família Pat Spungin, da Inglaterra, a autoridade dos pais também enfraqueceu ao longo do tempo e eles ficaram relutantes em dizer “não” às crianças por não se sentirem seguros de seus papéis como pais.

“Cinquenta anos atrás não se pensava em que tipo de pai se era, os filhos apenas eram tratados da mesma maneira com que os pais tinham sido criados. Hoje eles se sentem julgados e inseguros sobre como devem se comportar, já que ser pai é um papel em que algumas pessoas são boas e outras não”, diz. Se unirmos essa característica à facilidade de acesso à informação que a criança tem atualmente, já podemos ver os riscos dobrando a esquina.

Para a britânica, hoje em dia as crianças estão mais expostas às drogas e começam a beber por volta dos 14 anos. Muitas vezes, ainda, se sentem pressionadas a fazerem sexo antes mesmo de se sentirem prontas. Do outro lado, muitos pais não sabem falar sobre estes assuntos com os filhos.

Três gerações

Maura Luisa Renoldi Fernandes, de 45 anos, é mãe de Maria Eduarda, de 13 anos. Quando a escola pediu à menina que lesse um livro sobre uma garota contaminada pelo vírus da AIDS, Maura ficou chocada: “Acho que estão agredindo a ingenuidade das crianças e tirando-a delas”.

A mãe de Maura, Norma Aparecida Renoldi Fernandes, de 65 anos, mora com a filha e participa ativamente da criação da neta. Para ela, à filha foi possível aprender muito mais dentro de casa do que fora – diferentemente da neta, que recebe tanta informação de fora. Por isso, avó e mãe acabam sentindo a necessidade de multiplicar as conversas sobre assuntos mais complicados.

Para a psicóloga especialista em crianças e adolescentes, Ceres Alves de Araújo, Maura é uma mulher de sorte. Ter a avó como fonte de referência para criar os filhos, hoje em dia, é raro. “Muitos pais aprenderam a cuidar dos filhos com as próprias mães, mas hoje não é mais tão possível”, diz Ceres, que também é autora do livro “Pais que Educam – Uma Aventura Inesquecível” (Editora Gente). As avós muitas vezes ainda estão no mercado de trabalho e, além disso, muitas famílias se distanciaram.

O isolamento pode ser prejudicial para a aquisição de valores. Elizabeth Monteiro observa, em seu consultório, que muitas famílias só se reúnem no Natal. “Antigamente os avós, os tios, os primos, as cunhadas, todo mundo se ajudava. Hoje as crianças crescem em uma família fechada, olhando para o próprio umbigo. Faz um mal danado”.

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Buscar o modelo de pai ou mãe ideal só causa mais estresse na criação dos filhos

Cada um no seu quadrado

De acordo com Pat Spungin, não é apenas o trabalho dos pais que dificulta a criação e o vínculo com as crianças. “Muitas vezes as crianças estão escolhendo atividades que os mantêm longe dos pais e, mesmo em casa, ficam no computador, no videogame ou na televisão”, diz. Quando não há limites ou postura crítica, a tecnologia serve de porta de entrada para o consumismo infantil e para o ideal utópico da perfeição.

Buscar o modelo do pai ou da mãe ideal na casa do vizinho ou na mídia só vai deixar os pais mais perdidos. O mundo não é perfeito e não poderia ser diferente com você. Em vez de tentar ser um pai ou uma mãe perfeita, portanto, o melhor é ter como meta ser “bom o suficiente” e encarar a tarefa com responsabilidade, mas mais tranquilamente. “Não existe uma maneira perfeita para se criar um filho. Cada forma é diferente e o que funciona com um pode não funcionar com outro”, diz Pat Spungin.

Trabalhar o triplo para dar à criança o tênis da moda não vai levar a nenhum benefício de longo prazo: é preciso estar atento ao que realmente essa criança precisa e requer. Para a britânica, isso acaba sempre se resumindo a amor, limites e liberdade para serem elas mesmas – e não um produto de seus pais.

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10 Comentários |

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  • Paulo Sergio da Silva | 05/11/2011 00:13

    Acho que a família tem que se fundamentar no estilo de nossos avós, independente de modernismos. Filhos tem que respeitar os pais e ponto. Claro que os pais tem que fazer seu papel de educar e passar para os filhos as dificuldades da atual vida corrida. Os filhos, por sua vez, devem compreender e apoiar os pais. Nada de rebeldias sem fundamentos, tenho tres filhos, trato-os com respeito, mas sem muita proteção, para mim filho tem que seguir o que os pais determinam e pronto. Faço isso e tenho eles como amigos. Não me vejo sendo manipulado por um filho, pois isso seria uma vergonha para mim.

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  • Ailton Emboava | 04/11/2011 22:27

    os especialistas recomenda muito carinho e menas palmada, mas as criança confunde carinho com liberdade,e o despeito começa apartir dai.

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  • lawrence | 04/11/2011 22:26

    Bom,colocar limites nos Pais é facil, quando não se pai ou mãe,puseram um tal de ECA pra favorecer as crianças mas não ensinam as mesmas onde começa e onde termina o direito delas.\n Esse mesmo orgão não ajuda em nada só piorou pois nossas crianças e adolecentes de hoje se valem dessa lei absurda para fazerem o que bem intendem,agridem com total segurança pois sabem que tem uma lei á seu favor .\n Sou pai de duas meninas ,sei muito bem como é ter uma filha dificil em casa.\neu mesmo criei ,então sei como é.

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  • Bruno Guimarães | 04/11/2011 18:55

    Meus pais foram educados no período da ditadura militar, meu avô era um. Minha mãe já casada e com minha irmã já nascida levou um tapa no rosto por ter dado uma resposta ao seu pai e até sua morte não o abandonou, nunca reclamando ou revidando. Eu fui criado dentro dessa educação e nem por isso sou frustrado, desrespeito minha mãe, tenho trauma ou coisas do tipo como os pisicólogos inventam. Atualmente um professor não pode dizer "ai" na sala de aula que o aluno reclama na diretoria e o mestre é posto fora de seu emprego, tem seu carro riscado, é ameaçado de morte e por ai vai. Limite se põe quando criança, 3 gritos de autoridade e uma boa cinturada não faz mal a ninguém. Apanhei muito e nem por isso sou uma má pessoa! Levei uma surra pra aprender o que é certo e errado, coisa que hoje um pai ou mãe é preso se fizer isso. Tem que acabar com frescura e impor limites desde cedo para que no futuro haja respeito. Sou formado, bem de vida e muito feliz! Se um pisicologo ler isso, reflita sobre seus "métodos modernos de educar". Criança não conhece a vida, por isso deve ser educada com pulso forte, negócio de: "Ai meu filho não faça isso ou você vai pro canto do castigo e fica lá 05 minutos" O muleque sai de lá e faz tudo denovo.

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  • catia | 04/11/2011 16:50

    A palmada vale sim,filhos precisam de limites,tem a hora de conversar,de brincar,filhos se tratam com amor e carinho mas eles tem de saber que não mandam nos pais,eles tem de saber o limite das coisas,porque o macaco sabe o pau que sobe não é? porque ele aprende com a mãe,até as leoas punem os filhotes desobedientes,porque não são animais fracos pais fracos tem medo de punir e colhem o preço disso,se vc ama vc pune na medida certa.

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  • geraldo | 04/11/2011 15:17

    Educar.....em primeiro lugar, temos que considerar que tipo de educação os pais tiveram quando era a vêz deles obedecerem aos seus pais. Isso nos leva a situações confusas e permissivas hoje. Pais são pais. Não são amigos dos filhos. São pais. E pais dão os limites onde seus filhos podem trafegar......se extrapolam esses limites, tem que serem trazidos de volta, instruídos e devem continuar vivendo suas vidas. Quando dizem não, é não e isso deve ser defendido por ambos. Teimosias são coisas dos jovens, mas enquanto esses jovens estiverem sob a responsabilidade dos pais, os limites, o comportamento, será o admitido pelos pais, se conversas, sem discussões.Apenas isso.

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  • Daniel Santos | 04/11/2011 15:17

    Na minha época não existia um modelo ideal de educar os filhos, os mãe e o pai, ops na maioria das vezes a mãe era a educadora e dava certo com apenas um olhar, ai, veio a modenização criara o ECA (ESTATUTO DA CRIANÇA E ADOLESCENTE) para reparar erros que estavão sendo cometido, O ECA trouxe beneficios para criança e adolescente mas de outro lado ele tirou a autoridade da mãe e do pai (responsavel), a pergunta é existe maneira correta de educar os filhos, a obrigação da escola é de escolarizar e a dos responsavel é de educar, ah, quais as funções dos responsaveis com a criança, não posso acreditar que exista manual de instrução como educar um filho, uma coisa é certa estamos trocando a educação de educar por materiais em forma de presente um jeito de repor a nossa ausencia com o filho.

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  • rogeria | 04/11/2011 13:11

    Bom dia!!!\nTenho 44 anos e sou mãe de duas "meninas"(hoje uma tem 18 e a outra 21 anos), mas nunca tive problemas realmente na criação delas. Sempre disse "não" e explicava o "por que", elas sempre tiveram direito de reclamar, chorar, achar que não era certo, porem a última palavra era minha (e digo isso sem culpa nenhuma). O que vejo hoje são pais que tem medo de dizer "não" e que quem manda na casa e em tudo são as crianças. São elas que escolhem a roupa que vão vestir, o que vão comer, onde vão sair, que horas vão voltar pra casa porque estão com sono, eles é quem determinam tudo e assim se tornam pessoas insuportáveis e sem limites como vemos hoje. Em minha casa sempre conversamos muito(principalmente na hora da novela, a tv era e é segundo plano) e só proibia o que realmente era inconveniente. Lembro-me da hora mais gostosa que era quando ia fazer o jantar e elas levavam as cadeiras para a cozinha e ficávamos horas contando o que havia acontecido durante o dia, até os amigos (delas) quando chegavam se juntavam na cozinha e contavam também como fora o seu dia. Era muito legal porque não era como obrigação, simplesmente conversávamos. Acho que o que falta hoje é prioridade, é conversa, é tempo gasto com o que realmente importa.

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  • Prof. Mauricio | 04/11/2011 11:52

    Fácil e difícil são bem relativos...\n\nUma geração que achava normal ter medo dos pais e receber 'porrada' não tinha, por isso, pais dizendo "educar é fácil, é só impor medo e espancar"\n\nEssa geração que não acha normal apanhar ou ter medo nem por isso tem pais dizendo "educar é fácil, não precisa por medo nem espancar"\n\n\nO que é fato é que o despreparo, em nosso país, vai da concepção à aposentadoria, pois não aprendemos a cultivar talentos, apenas a colhê-los.\n\nSomos os piores sedentários pois não plantamos! Apenas exigimos. Não plantamos nem em nós mesmos...\n\n\nPara o processo educativo ficar fácil ele tem que se tornar parte de nossa cultura, ser agradável e gerar recompensas sociais.\n\nHá 50 anos quem diria ser fácil a uma adolescente falar sobre sexo? Mas o sexo já é tão cultural por aqui que a raridade é encontrar virgens aos 18 anos...\n\nInfelizmente, educar, em nosso país, passa por EDUCADORES, PROFESSORES, PAIS, MÃES, LÍDERES E GOVERNANTES MAL PREPARADOS COMO EU.\n\nMais infelizmente ainda é que os outros se acham muito preparados, capazes etc...\n\nSomente Freire para nos lembrar que somos 'eternamente inacabados'

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  • Monica | 04/11/2011 11:20

    EDUCAR É MUITO IMPOTANTE E PRECISO PARA UMA CRIANCA.

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