Audrey de Almeida, 44 anos, conta como descobriu que palmadas e puxões de orelha não adiantavam

Audrey com a foto dos quatro filhos: deixar de bater foi processo de autoconhecimento
Arquivo pessoal
Audrey com a foto dos quatro filhos: deixar de bater foi processo de autoconhecimento
“O Luca foi o meu primeiro filho. Hoje ele está com 23 anos, mas me separei do pai dele ainda durante a gravidez e o criei basicamente sozinha. Eu tinha 21 anos quando ele nasceu e não estava preparada. Durante a infância, ele era muito peralta e às vezes eu achava que podia resolver com uma palmada. Mas era uma coisa tão impensada! Se aquilo tinha acontecido comigo durante a infância, automaticamente podia acontecer com ele também. E ele também aprontou umas poucas e boas.

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Nunca me esqueci da primeira vez em que dei umas palmadas de verdade no Luca. Ele jogou um copo de vidro do quarto andar do prédio em que vivíamos e o objeto caiu bem ao lado da moça da limpeza. Ele tinha uns três anos e, sem mais nem menos, jogou o copo pela janela. O copo ficou estilhaçado, o Luca podia ter matado a mulher. Aí ele levou umas palmadas, sim, sem dúvidas.

Depois disso, lembro também de uma vez em que ele inundou o apartamento. Ele estava com uns três anos, também, e enquanto eu estava no telefone, ele parou de brincar na sala e entrou no banheiro e ligou a torneira do bidê. Só que tinha uma toalha dentro do bidê e a água começou a transbordar. Acho que ele foi ficando desesperado e trancou a porta do banheiro. Quando eu olho para os meus pés, vejo tudo molhado. Ao ver que aquele aguaceiro estava saindo do banheiro, comecei a chamar por ele e nada. Ele não abria a porta, eu só sabia que ele estava bem porque ouvia os passinhos dele para lá e para cá.

Isso deve ter durado uma hora e pouco, até que eu pensei em ligar para a minha mãe e pedir que ela ligasse de volta. Quando o telefone tocou, eu disse ao Luca que era para ele e foi assim que ele resolveu abrir a porta. E levou umas palmadas na hora, o meu apartamento estava inundado já, durante uma semana ficou fedendo a cachorro molhado. Tive aquele desespero, não conseguia nem pensar direito e, aos 20 e poucos anos, tampouco sabia educá-lo direito. Foi pouco depois disso, então, que percebi que dar palmadas não ia ajudar em nada”.

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De mãe para filho

“Não tinha funcionado comigo também. Eu apanhei bastante quando era pequena, sempre por fazer alguma coisa de errado. Mesmo não funcionando, não fiquei com rancor de meus pais. Era a maneira como eles tinham sido criados, o que resultou na maneira de me criarem. Mas não tinha adiantado para mim, como iria adiantar para o meu filho? Foi em uma história envolvendo uma barraquinha de doces que aprendi.

Eu estava em um ponto de ônibus com o Luca no colo. Atrás de onde estávamos tinha uma barraquinha de doces com um monte de maria-mole. De repente, o moço me cutuca e diz: “Dona, a senhora tem que pagar todas as marias-moles que seu filho comeu”. Ele estava no meu colo de frente para mim e pegava os doces por cima do meu ombro. E ele não pegou uma maria-mole só. Ele mordeu aproximadamente 20 marias-moles. Eu não tinha dinheiro vivo na hora, então tive que dar todos os meus passes de ônibus para o moço e voltar andando para casa. Com ele no colo.

Não fazia mais sentido para mim. Todas as vezes em que dei palmadas nele, não me senti bem.

Nesse dia eu me segurei para não dar umas palmadas nele. Eu pensava: “eu devia ter prestado mais atenção, vou me desgastar se der palmadas nele, ele vai abrir o berreiro, as pessoas vão ficar olhando e até reclamando e não vai adiantar nada”. Foi quando eu descobri que não compensava bater, e não fazia mais sentido para mim. E todas as vezes em que dei palmadas nele, não me senti bem.

Não que eu tenha me arrependido, mas eu me sentia culpada. Primeiramente por não saber corrigi-lo e, como eu não queria isso para mim durante a minha infância, não podia querer para ele também. Eu não queria ser como os meus pais neste aspecto. Eu nunca dei surra nele, mas mesmo as palmadas nunca nos levavam a lugar algum”.

Autoconhecimento e palmadas nunca mais

“Eu costumava dar palmada e puxão de orelha nele quando ficava nervosa, e comecei a perceber que eu não era daquele jeito, eu sou uma pessoa calma. Então comecei a me acalmar novamente e comecei a refletir sobre o porquê de eu estar agindo daquele jeito. E vi um espelho bem diante de mim. Vi a mim mesma fazendo aquelas mesmas estripulias: do copo, da maria-mole, da inundação. Então, como eu não era diferente dele, comecei a olhar no olho e falar “não!”. Começar a virar o jogo e explicar a razão das coisas. E o tanto que argumentei com ele ao longo da vida o tornou uma pessoa que sabe argumentar como ninguém. Ele cresceu muito inteligente e tira tudo de letra.

Vi a mim mesma fazendo aquelas mesmas estripulias: do copo, da maria-mole, da inundação. Então, como eu não era diferente dele, comecei a olhar no olho e falar “não!”.

Hoje eu tenho mais três filhas, além do Luca: a Nicky, a Ashley e a Victoria, com 18, 15 e 13 respectivamente, de um segundo casamento. Todas elas nasceram nos Estados Unidos, onde moramos hoje, e não tive que dar palmadas em nenhuma delas, embora os castigos ainda existam . Mas o porquê é sempre bem explicado, é o melhor negócio.

Percebi também que cada filho é diferente e, uma atitude que serve para um pode não servir para outro. Não sei se, por acaso eu tivesse outro filho, umas palmadas iriam resolver os problemas. É um processo de observação para ver como cada um reage e como você mesma reage, e isso leva uma vida inteira. Você observa a si mesma, na verdade, e descobre o que mais funciona com cada um. A palmada, dentro da minha casa, nunca foi uma solução mesmo”.

(Depoimento para Renata Losso, especial para o iG São Paulo)

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