Contratar uma babá é uma opção válida - desde que os pais não confundam a função da profissional e assumam as responsabilidades

Mariluce, Tânia e suas colegas: nem todas as babás têm apoio das mães
Edu Cesar/Fotoarena
Mariluce, Tânia e suas colegas: nem todas as babás têm apoio das mães
Segundo dados de 2006 compilados pelo Ibope, 51% das mulheres no Brasil são mães - em números absolutos, a porcentagem representa 17 milhões de brasileiras às voltas com fraldas, mamadeiras, escolinhas e outras preocupações típicas da maternidade. 56% delas trabalham fora, o que põe inúmeras crianças sob os cuidados de babás. Nada de errado até aí. O problema é que, ao delegar os cuidados, muitos pais pretendem deixar para a babá também a responsabilidade de educar - em uma tentativa de "terceirização" do filho.

Para a psicóloga Angela Correa, fundadora da Unire, agência que também oferece formação para babás, o número de casais que pretendem terceirizar a educação dos filhos é grande. "O discurso dos pais mudou", diz ela, relembrando um caso em que a mãe procurava uma babá que folgaria somente a cada duas semanas - e outra para cobrir as folgas da primeira - porque não tinha tempo para "este tipo de compromisso" (leia-se: cuidar do próprio filho a cada 15 dias).

"A responsabilidade da educação das crianças é das mães e dos pais. Já a responsabilidade pelos cuidados - o 'tomar conta' - pode ser terceirizado", define Ruy Pupo Filho, pediatra, pai de três filhos e autor do "Manual do Bebê" (Editora Elsevier). Ainda assim, muitas mães acreditam que não podem se responsabilizar pela educação simplesmente porque trabalham fora.

Ficar em casa ou sair?

Fazer-se presente parece um desafio impossível de atingir por causa da vida profissional, que exige a ausência por longos períodos do dia. Atrapalhadas pela culpa, estas mães não percebem que não é preciso passar 24 horas por dia junto do filho para estar presente. "É possível educar seu filho mesmo trabalhando fora. Basta ter presença quando chega, na comunicação com a babá e no estabelecimento de regras", esclarece Angela. "Delegar a função de educadora para a babá é um erro. Ela não vai saber dizer 'não', pois teme perder o emprego".

O pediatra antroposófico Antonio Carlos de Souza Aranha não acredita na existência de uma fórmula de "certo" e "errado", mas recomenda às mães que permaneçam com a criança pelo menos nos três primeiros anos - desde que elas possam arcar com esta pausa. "O ideal é que a mulher seja valorizada neste papel. Devia, inclusive, ganhar por isso", opina. Por outro lado, se a mãe tem amor, afeto e sabe curtir a criança, isso basta. "Não precisa passar 12 horas por dia com o filho, nem se sentir culpada por estar trabalhando fora", completa.

A psicopedagoga Elizabeth Polity, autora de "Ensinando a Ensinar" (Editora Vetor), concorda. Para ela, não há nada de errado em uma mãe que trabalha ter ajuda profissional para criar o filho. "Não existe uma regra de quanto tempo você precisa estar presente. O que precisa é de uma qualidade vincular; que a mãe seja responsável pela criação", opina.

Estabelecer regras claras e manter comunicação constante com a babá, portanto, são formas de, mesmo não estando lá, acompanhar o progresso do seu filho. Existem várias formas de manter a qualidade de sua presença, compensando a pouca quantidade dela. Contar uma história quando chega à noite, deixar bilhetes para a criança e telefonar durante o dia são algumas atitudes simples, mas eficazes. Também há formas de se certificar de que as regras estabelecidas são seguidas. "A babá não vai dar doce para a criança se você não compra", exemplifica Elizabeth.

Pais e filhos desconhecidos

A babá não pode ficar no meio da relação entre pais e suas crianças. Angela, da Unire, lembra que a boa babá é "a que faz a mãe presente", seja pela comunicação diária do que o filho fez ou através do estímulo a atividades que remetam à mulher enquanto ela não está - por exemplo, convidar a criança a fazer um desenho para a mamãe. Assim, mesmo trabalhando, a mãe pode saber que seu filho deu os primeiros passinhos, adora cenoura e odeia tomar banho.

"Não consigo achar natural um pai ou uma mãe que não sabe nada sobre o filho - o que ele come, se faz xixi na cama, do que gosta de brincar", condena a psicopedagoga Maria Irene Maluf. Com mais de 30 anos de atendimento clínico a crianças, adolescentes e famílias, Maria Irene descreve os problemas dos filhos que sofrem com a ausência dos pais. "Eles ficam completamente perdidos. O discurso destas crianças é igual ao discurso de crianças de lares de adoção", compara. Com a diferença de que, ao contrário dos pequenos de lares, estas crianças têm, sim, pais - que optam por contratar babás para ocupar o lugar afetivo deles.

É o caso da babá Maria José, 53 anos, especializada em recém-nascidos - ou RN, no jargão técnico da profissão. Ela conta de uma casa onde passou dois meses acompanhando a mãe desde a maternidade. E, mesmo em plena licença, durante este período, a mãe jamais deu um banho no bebê, para espanto da babá. "Tem coisa mais gostosa do que pegar um nenezinho?", se pergunta.

Alexandra Soares, de 30 anos, sempre trabalhou com mães que são presentes. Mas reconhece um problema no dia a dia de quem cuida dos filhos alheios: "muitas mães orientam a babá a fazer algo de um jeito, mas quando estão em casa, quebram as próprias regras". Tânia Maria Carneiro, 36 anos, também não tem queixas da casa onde trabalha, mas observa o mesmo problema nas histórias das colegas. "Tem casos em que as crianças parecem ter dupla personalidade", diz, explicando que eles se comportam de uma forma quando estão só com as babás e de jeito diferente quando as mães entram na cena.

Lidar com a família, então, é mais difícil do que lidar com a criança? Mariluce da Silva, 36 anos, babá desde os 12, concorda. "Tive de sair de uma casa no Rio de Janeiro porque uma das avós e a bisavó da criança não me aceitavam por ser negra", relembra. "Mas quando a criança chama por você, ou sorri, faz a gente esquecer qualquer problema com a família".

Segundo a mesma pesquisa do Ibope, 87% das mães que trabalham fora acreditam que o problema das crianças de hoje é a falta de limites. Mas precisa ficar claro que os limites devem ser estabelecidos pela mãe, e exercidos e reforçados pela babá. "Colocar limite para as crianças é uma coisa boa. Não tem nada a ver com castigar, muito menos com bater", defende Angela, fundadora da Unire. "Os limites surgem a partir de um relacionamento adequado, saudável, de respeito e com vínculo afetivo", completa.

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