Novo estudo sugere que apanhar durante a infância torna crianças com tendências agressivas mais problemáticas no longo prazo

Palmadas: castigos físicos, combinados a uma tendência natural da criança à agressividade, aumenta os riscos de comportamento antissocial
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Palmadas: castigos físicos, combinados a uma tendência natural da criança à agressividade, aumenta os riscos de comportamento antissocial
Usar a palmada como método de disciplina para crianças com predisposição genética para o comportamento agressivo tende a torná-los ainda mais violentos, especialmente os meninos, segundo nova pesquisa.

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"Há uma interação complexa entre a natureza e a educação", disse o coautor do estudo J.C. Barnes, professor assistente de criminologia na Faculdade de Ciências Econômicas e Políticas da Universidade do Texas em Dallas. "A maioria das pessoas sabe que a predisposição genética é importante, mas os genes e o ambiente podem se unir e ter resultados além do esperado".

O estudo revelou este efeito no sexo masculino em números maiores, mas Barnes disse que a combinação de genes agressivos e apanhar quando criança influencia o comportamento das meninas também. Para ele, a combinação desses dois fatores não alcançou relevância estatística nas meninas porque os meninos tendem a agir mais. Assim, eles têm mais oportunidades de apresentar o comportamento visto no estudo.

Os resultados foram publicados recentemente na revista “Aggressive Behavior”.

Resultados adversos

O uso da palmada como ferramenta disciplinar tem sido associado a uma série de resultados adversos em crianças e adolescentes, tais como agressão e comportamento criminoso, de acordo com informações do estudo.

No mês passado, pesquisadores relataram na revista da Associação Médica Canadense, a CMAJ, que crianças punidas fisicamente apresentaram maiores níveis de agressão contra seus pais, irmãos, colegas e cônjuges.

Não foi descartada a possibilidade de que as crianças geneticamente predispostas à agressão sejam as mais suscetíveis de receberem palmadas por seu comportamento, mas o estudo feito por Barnes e seus colegas sugere que uma surra em resposta ao comportamento agressivo só vai aumentar esse tipo de comportamento.

Para os meninos, a combinação entre genética e castigo físico na infância é mais explosiva na construção de comportamentos antissociais
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Para os meninos, a combinação entre genética e castigo físico na infância é mais explosiva na construção de comportamentos antissociais
Método

Os dados do estudo foram recolhidos a partir de uma amostra representativa de crianças nascidas em 2001, em todos os estados dos Estados Unidos. O grupo inteiro envolveu quase 11.000 crianças.

Para avaliar a predisposição genética, os pesquisadores analisaram um grupo de cerca de 1.500 gêmeos. Eles compararam o comportamento de gêmeos idênticos aos gêmeos bivitelinos. Como gêmeos idênticos têm 100% de sua composição genética igual, os pesquisadores estabeleceram que os comportamentos com influência genética seriam mais comuns em gêmeos idênticos do que em gêmeos bivitelinos, que compartilham cerca de 50% de sua composição genética.

Os pesquisadores então analisaram o efeito da predisposição genética e do uso de punição corporal e como esses fatores influenciam o comportamento de uma criança, tanto separadamente como em conjunto.

Eles descobriram que tanto meninos como meninas com predisposição genética para o comportamento agressivo corriam risco maior de apresentar comportamento antissocial na infância. Levar palmadas também aumentava esse risco.

Quando os dois fatores foram combinados – risco genético e os castigos corporais – só os meninos pareciam ter uma probabilidade ainda maior de comportamento antissocial, de acordo com o estudo.

Alternativas

"Não estou surpresa com as conclusões. Há uma complexa interação entre genética e ambiente", disse Roya Samuels, médica do Departamento de Pediatria Geral no Centro Médico Infantil Steven e Alexandra Cohen de Nova York.

"Muitos estudos têm mostrado efeitos prejudiciais, a longo prazo, do uso de castigos corporais em crianças. Mas ela ainda ocorre com grande frequência nos Estados Unidos", completou.

Conforme as crianças crescem, torna-se difícil para os pais que usavam punição corporal discipliná-las efetivamente, observou ela.

Em vez de punição física, Roya sugere o desenvolvimento de um relacionamento educativo, de apoio e carinho, com seu filho. Segundo ela, os pais devem reforçar comportamentos positivos e dar estrutura e uma rotina diária para a criança. Os adultos também devem mostrar as consequências para o comportamento negativo. Para crianças pequenas, colocar um tempo de castigo pode ser uma forma mais eficaz de disciplina do que bater.

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