O exame é simples, rápido e nada invasivo. Realizado por cardiologistas e indicado para alguns perfis de risco, pode salvar o bebê

Patricia Ignácio Teixeira sorri ao ouvir o coração de Bernardo
Eduardo César/Fotoarena
Patricia Ignácio Teixeira sorri ao ouvir o coração de Bernardo
O som do coração do bebê é o primeiro contato dos pais com o filho. O ritmo acelerado e intenso leva a maioria das mães às lágrimas e é encarado como uma prova de que tudo está bem. No entanto, o exame rotineiro de ultrassom nem sempre consegue precisar se a saúde cardíaca da criança está realmente em dia.

O exame específico para isso é chamado de ecocardiograma fetal, e analisa minuciosamente o funcionamento de cada pequena parte do coração do feto. Ao contrário do que se pensa, não é um procedimento invasivo. Ele leva em torno de 30 minutos e é realizado por um aparelho semelhante ao ultrassom convencional. A diferença está no profissional que avalia as imagens, que, neste caso, é um cardiologista especializado em medicina fetal. "Existem critérios mínimos que o obstetra é treinado a perceber, mas às vezes algumas coisas podem passar", avalia Simone Pedra, cardiologista fetal e pediátrica do Hospital do Coração, em São Paulo.

O resultado sai na hora. “Se há algum problema, a primeira reação da mãe é ficar desesperada. Mas tentamos tranquilizá-la mostrando que estamos dando a chance do bebê ter uma vida melhor e diminuindo os riscos de morte”, relata Claudia Regina de Castro, cardiologista pediátrica do Hospital São Luiz, na capital paulista.

O sorriso estampado no rosto e a tranquilidade de Patricia Ignácio Teixeira, 38 anos, já indicavam que tudo estava bem com Bernardo, que deve nascer daqui a dois meses. Por orientação médica, ela decidiu fazer o exame. “Saio mais tranquila, sem dúvida”, relata a futura mãe. Questionada se preferia saber se alguma coisa estivesse errada, ela garante que sim. “Mesmo que a notícia não seja boa, você prefere saber, assim pode se planejar e até se preparar psicologicamente”, afirma.

A malformação cardíaca afeta nove a cada mil nascidos. Os problemas do coração característicos do indivíduo desde antes do nascimento - as chamadas cardiopatias congênitas - são os mais frequentes e contribuem para o aumento da mortalidade logo após o nascimento. “Do total de óbitos infantis, 10% são por essas causas”, diz Claudia.

Indicação

Por enquanto, o exame tem sido indicado apenas para gestantes em que o risco de malformação cardíaca do bebê é maior, como em diabéticas, hipertensas e mulheres que utilizam medicamentos, ou ainda quando há suspeita de alteração genética, como a Síndrome de Down. Para quem está neste grupo, o exame pode ser realizado no Sistema Único de Saúde (SUS). Fora dessa indicação, no entanto, está disponível em hospitais e clínicas particulares e pode custar de R$ 250 a R$ 400.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia quer mudar essa restrição e fazer com que o ecofetal passe a integrar a lista de exames de rotina do pré-natal para todas as gestantes. “Em 90% dos casos de malformação cardíaca não há nenhum indício de risco. Estamos avaliando apenas 10%, o restante fica sem diagnóstico”, afirma Claudia Regina de Castro. "A cardiopatia é uma doença comprometedora. Se a mãe tem a possibilidade de passar pelo exame, ela deveria fazê-lo", recomenda Simone. O ideal é realizá-lo entre a 24ª e 28ª semana de gestação, período em que já é possível afastar 97% dos problemas.

Diagnóstico precoce

Imagem ampliada do coração de Bernardo, filho de Patricia
Eduardo César/Fotoarena
Imagem ampliada do coração de Bernardo, filho de Patricia
Identificar um possível problema quando o bebê ainda está na barriga da mãe pode ser a diferença entre salvar ou não a vida de um recém-nascido. “Às vezes, a criança nasce e fica no padrão que chamamos de fetal, ou seja, com características de quando estava na barriga da mãe. Nesse período, sintomas importantes são mascarados. Você examina e o bebê parece não ter nada. Três dias depois, ele vai para casa e sai desse estado. O problema pode se manifestar e a mãe não tem tempo hábil para qualquer intervenção”, relata Claudia Regina.

Simone reforça: "A mãe pode não ter a estrutura necessária no local que deu à luz, e então o bebê terá que ser transportado, separado da mãe. A situação se complica", afirma.

Quando o diagnóstico é realizado ainda no útero, os médicos conseguem acompanhar a gestante, que deverá fazer exames todo mês, avaliar os riscos e programar o parto. Dependendo do caso, logo depois do nascimento o bebê é encaminhado para a UTI, são realizados novos exames a fim de confirmar o diagnóstico e ele fica na incubadora sendo monitorado. Com quatro ou cinco dias de vida, já pode ser operado. Procedimentos invasivos, durante a gestação, são raros e feitos somente em último caso.

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