Com a popularização dos leitores de livros digitais entre as crianças, pais e pesquisadores americanos discutem a eficácia dos gadgets no ensino da leitura

Julianna com seu iPad em sala de aula: benefícios dos leitores de livros digitais ainda não são conclusivos
David Maxwell/The New York Times
Julianna com seu iPad em sala de aula: benefícios dos leitores de livros digitais ainda não são conclusivos
Julianna Huth, aluna do segundo ano na Green Primary School, em Green, Ohio, é uma adepta do mundo digital. A menina, de 8 anos, usa um iPad e um Nook, leitor de livros digital da rede de livrarias norte-americanas Barnes & Noble, e lê e-books em casa e na escola.

“É muito legal poder ler no iPad”, disse Julianna, que começou a usar livros digitais aos 6 anos. “É mais divertido e você aprende mais.”

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É o que se espera que as crianças digam. Livros em iPads e alguns e-readers (os leitores de livros digitais), como o Nook Color ou o Kindle Fire, são divertidos. Eles incluem música, animações e outros elementos interativos que transformam a leitura do livro quase num videogame.

Em “Pete the Cat: I Love My White Shoes”, um e-book para crianças de 3 a 7 anos, as crianças podem mudar a cor dos sapatos de Pete tocando neles, acompanhar as músicas com as letras que passam pela página, ouvir um narrador ou gravar a própria voz enquanto leem em voz alta.

Mas isso é melhor que um livro? Pode levar uma geração para saber ao certo, e dentro de 10 ou 20 anos isso ainda será debatido – assim como os efeitos da televisão ou dos videogames ainda são discutidos hoje.

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Kourtney Denning, professora de Julianna, vê os e-books como essenciais. “Os velhos livros não resolvem mais”, afirmou ela. “Temos de transformar o modo como entendemos nosso aprendizado.”

Em meio ao entusiasmo e empolgação, algumas pessoas estão sugerindo uma análise mais profunda, especialmente para crianças pequenas que estão aprendendo a ler.

“Atualmente, a conclusão em termos de prática baseada em pesquisas é: leia livros tradicionais com seu filho”, declarou Julia Parish-Morris, uma estudante de pós-doutorado na Universidade de Pensilvânia que pesquisou os e-books e como as crianças interagem com eles. “Não temos qualquer evidência de que algum dispositivo eletrônico seja melhor do que um pai ou mãe.”

Numa tentativa de descobrir se os pais devem adotar os e-books com entusiasmo ou racionar o tempo com e-readers como fazem com a televisão, a classe de Julianna está participando num projeto de pesquisa para o Centro de Alfabetização da Universidade de Akron.

O projeto pretende encontrar a melhor maneira de integrar e-books às salas de aula, e faz parte de um estudo mais amplo, do jardim da infância à segunda série, usando uma série de dispositivos e computadores.

Colegas de classe de Julianna usam um iPad em sala
David Maxwell/The New York Times
Colegas de classe de Julianna usam um iPad em sala

A mãe de Julianna, Cathy Ivancic, ficou eufórica quando soube que a classe participaria do estudo. Ela diz que dispositivos como o iPad são novos e divertidos, dando às crianças um incentivo à leitura – incluindo as que geralmente são relutantes. “É uma nova motivação para explorar a leitura”, disse ela. “É nessa idade que você aprende a amar os livros, ou a não amar.”

A outra filha de Ivancic, Jessica, de 13 anos, também usa um e-reader, preferindo e-books a livros tradicionais por serem mais fáceis de ler. “E entre um livro e outro você pode brincar com os aplicativos”, explicou ela.

A classe de Julianna está participando de um estudo sobre os efeitos dos leitores de livros digitais
David Maxwell/The New York Times
A classe de Julianna está participando de um estudo sobre os efeitos dos leitores de livros digitais
Distração

Parish-Morris e educadores temem que as crianças possam ser distraídas pelas animações e recursos de games dentro dos e-books. Segundo eles, manter o foco na história é importante para desenvolver habilidades de alfabetização. Uma forma para isso acontecer espontaneamente é através do diálogo que se desenvolve entre pai e filho que compartilham um livro.

"O mais importante é sentar e conversar com seus filhos", afirmou Gabrielle Strouse, professora assistente de Vanderbilt que estudou e-books. "Seja lendo um livro, lendo um e-book ou assistindo a um vídeo. Assistir junto, interagir, essa é a melhor forma para eles aprenderem."

Lisa Guernsey, diretora da iniciativa de educação inicial da New America Foundation, diz que conversar sobre como os eventos de uma história se relacionam à vida da própria criança, ou fazer perguntas abertas sobre o que aconteceu, são exemplos de diálogos espontâneos. Mas esse tipo de interação costuma ser bem diferente com os e-books, completou ela – e, em alguns casos, a interação desaparece.

"Estamos vendo algumas evidências de que os pais esperam que os e-books façam tudo sozinhos, e acabam retrocedendo no envolvimento com seus filhos", disse.

Cristy Ludrosky, outra mãe com um filho na classe de Denning, é uma defensora dos e-books, embora tenha preocupações com o potencial para distrações.

"Existe um confronto ali", explicou ela. "Às vezes você olha para o dispositivo e pensa: 'Eles estão aprendendo a ler ou estão jogando um aplicativo ou game?'"

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