Para crianças de até dois anos, conteúdo não só é ineficaz como também parece atrasar desenvolvimento da linguagem

Até dois anos, DVDs educativos não contribuem para o desenvolvimento da linguagem
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Até dois anos, DVDs educativos não contribuem para o desenvolvimento da linguagem
Pais interessados em oferecer a seus filhos vantagens suplementares de aprendizado estão recorrendo a uma ferramenta conhecida nos Estados Unidos como “baby media”: DVDs especialmente desenvolvidos para estimular a mente dos bebês.

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Entretanto, pesquisadores e pediatras já começaram a questionar se os bebês estão realmente aprendendo algo com estes vídeos. Segundo novos estudos, apesar de funcionar como entretenimento para os pequenos, este tipo de material ajuda muito pouco na assimilação de palavras e conceitos. Pelo contrário: de acordo com alguns pesquisadores, bebês expostos aos DVDs nos primeiros meses de vida apresentaram menor habilidade de linguagem do que aqueles que começaram a assistir aos vídeos mais tarde.

“Não há nada capaz de sugerir que bebês com menos de 18 meses de vida irão aprender algo assistindo a um DVD, mesmo com o apoio dos pais”, disse Rebekah A. Richert, professora de psicologia da Universidade da Califórnia que conduziu o estudo. “A partir de um ano de vida, quando já estão começando a dar os primeiros passos, as crianças podem pescar algumas palavras ou ideias assistindo a um destes DVDs. Mas isso só acontece com a ajuda dos pais”, complementou.

O estudo reuniu 96 crianças de 1 a 2 anos de idade e não encontrou nenhuma relação entre o tempo de exposição aos DVDs e o desenvolvimento geral da linguagem das crianças. Rebekah e seus colegas também constataram que as crianças que começaram a assistir aos DVDs mais cedo apresentaram pontuação mais baixa nos testes de linguagem.

Ver televisão não é função da infância

Descobertas similares foram observadas em outro estudo. Realizado pela Universidade de Virginia, ele constatou que crianças expostas aos DVDs não aprenderam mais palavras do que as crianças do grupo controle. Na verdade, os bebês que aprenderam um número maior de palavras não foram expostos aos DVDs. Eles foram assimilando o vocabulário em atividades cotidianas com os pais.

As descobertas reforçam a posição da Academia Americana de Pediatria. “Nós encorajamos quem tem filhos com menos de dois anos de idade a evitar a TV. Brincar é a palavra de ordem para as crianças. Ficar sentado diante de uma tela não é a função da infância”, disse Don Shifrin, professor de pediatria da Escola de Medicina da Universidade de Washington e porta-voz da Academia.

Segundo ele, houve uma grande popularização dos DVDs para bebês no final dos anos 90, atropelando os esforços de pesquisas para avaliar se os mesmos seriam realmente úteis. “O marketing foi tão eficiente que, mesmo custando caro no início, todo mundo entrou na onda”.

Na tela e na vida real

Para Rebekah, as novas descobertas mostram que os bebês não têm a capacidade de relacionar o que se passa na tela aos objetos e sensações da vida diária. Por exemplo, os bebês não conseguem entender que uma xícara mostrada na tela é o mesmo que uma xícara que têm nas mãos – a menos que os pais mostrem a conexão.

Por esta razão, os pais interessados em utilizar os DVDs devem assisti-los com os filhos, para reforçar os conceitos introduzidos. Don Shifrin faz algumas recomendações aos pais:

- Assista ao vídeo antes, para certificar-se que o mesmo tem um ritmo propositalmente lento. As crianças aprendem melhor com este ritmo do que com o estilo “Warner Brothers” de TV.

- Assista ao vídeo junto com seu filho, fazendo observações como um comentarista esportivo e traçando conexões entre as ideias apresentadas no vídeo e os objetos espalhados pela casa.

- Ao final do vídeo, desligue a TV e deixe o bebê brincar um pouco, possivelmente em atividades relacionadas ao vídeo. “Se eles assistiram a um DVD que mostra como construir algo ou como alimentar um passarinho, faça isso na vida real”, ele sugere.

Rebekah considera o envolvimento dos pais um elemento crucial. “Não é eficaz deixar as crianças sozinhas assistindo aos DVDs e esperar que elas façam as conexões sozinhas”.

(Tradução: Claudia Batista Arantes)

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