Pediatras explicam por que os pais devem dar atenção às queixas das crianças e ensinam a distinguir uma manha de um sintoma real

Nem todas as reclamações infantis podem ser manha da criança e merecem atenção
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Nem todas as reclamações infantis podem ser manha da criança e merecem atenção
É tão comum as dores das crianças aparecerem pouco antes de um momento desafiador – a volta às aulas, por exemplo – que se torna fácil descartá-las sem maiores investigações. Diante da dor de barriga súbita na hora de ir para a escola, os pais costumam ignorar a reclamação ou medicar a criança por conta própria. Nenhuma das atitudes é a correta.

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Ao final de 2011, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou o “Consenso sobre Dores Pouco Valorizadas em Crianças”. O trabalho, com orientações dos profissionais da área sobre dores comumente desconsideradas, foi coordenado pelo pediatra Cláudio Len, professor do Departamento de Pediatria da Unifesp e membro da SBP.

“Vejo muitos pais dando analgésicos aos bebês com cólicas ou dores pela erupção dental. Não há dúvidas de que tomar essa atitude todas as vezes terá efeitos colaterais para a criança”, diz.

Para acalmar a dor do filho na hora, alguns pais exageram na dose e usam remédios prolongadamente. “Às vezes o filho já é adolescente e, por praticar esportes, sente dores no pé ou no joelho. Os pais medicam e perdem a noção”, comenta Len.

Se usados com frequência, analgésicos podem ocasionar problemas no fígado e, no caso de antiinflamatórios não hormonais, gastrite e inflamações no rim. Há ainda o risco de o pai dar o remédio e, sem saber, a mãe repetir a dose mediante outra queixa da criança. O resultado pode ser até intoxicação.

Queixas comuns
De acordo com a pediatra Mariana Granato, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, dor de cabeça, dor abdominal e dores em membros do corpo, principalmente nas pernas, são as queixas infantis mais comuns. Se forem recorrentes, os pais devem refletir sobre a razão das manifestações, em vez de apenas tratá-las com remédios.

Os pais também devem tomar cuidado para não medicar os filhos excessivamente
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Os pais também devem tomar cuidado para não medicar os filhos excessivamente

“A dor pode ser um sinal de que algo não está indo bem na vida da criança”, sugere a pediatra. Se ela reclama de dor de cabeça sempre que deve ir à natação, talvez esteja tendo problemas com os colegas ou simplesmente cansou de uma agenda cheia de compromissos.

Mas é preciso fazer uma investigação sobre as causas da dor. Além de manifestações de um desconforto emocional, uma dor de cabeça recorrente pode ser sinal de enxaqueca , assim como uma dor de barriga recorrente pode sinalizar gastrite ou obstipação intestinal (também conhecida como prisão de ventre).

As dores em membros do corpo, segundo o pediatra Cláudio Len, podem ser tanto as chamadas dores de crescimento como a fibromialgia juvenil -- dores musculares crônicas que podem atrapalhar bastante a vida da criança. Independentemente de sua origem, nem sempre as dores irão impedir a criança de se alimentar bem ou ir para a escola.

Como saber se uma dor é de verdade?
Na maioria das vezes, uma dor de cabeça realmente irá passar sozinha. Mas nenhum pai quer que o filho sofra com frequência. Como correr para o vidro de remédio não é a solução, conhecer bem a criança e aprender a graduar o nível de desconforto dela é o ideal. Se a criança acorda de madrugada reclamando, é sinal de que o problema não é tão passageiro e está atrapalhando.

“Quando a criança apresenta, além da queixa da dor de cabeça, algum outro sintoma associado, como o vômito, a reclamação merece atenção”, orienta Len. Dor em algum membro do corpo, recorrente e associada à perda de peso, também é preocupante, assim como mudanças de hábitos, queda do ritmo escolar e distanciamento dos amigos. De acordo com Cláudio Len, que também realiza pesquisas no campo da dor, a fibromialgia também está ligada a alguns sintomas da depressão.

O pediatra Marcelo Reibscheid, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo, sugere uma técnica simples e muito eficaz. Na hora da reclamação, ele indica aos pais usar placebo em vez de remédio. Os pais podem dar um chá à criança, no mesmo copinho usado para o analgésico. Se a dor passar depois de dez minutos, é sinal de que não era realmente nada. Se a queixa persistir, vale consultar um pediatra para investigar o problema.

Segundo Cláudio Len, a dor que não é orgânica deixa de existir quando a criança para de pensar no assunto e está contente com outra atividade.

Além de somente procurar tratamento para a dor dos filhos, os pais devem buscar maneiras de preveni-la. Para isso, nada melhor que uma vida saudável, com rotina adequada ao ritmo infantil. “Na maioria das vezes as dores crônicas estão ligadas a hábitos errados de vida, como noites de sono mal dormidas, sedentarismo, má alimentação e muito tempo diante da televisão”, afirma Cláudio Len.

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