De acordo com estudo preliminar, muitas crianças diagnosticadas cedo demais tinham apenas problemas cognitivos e de linguagem

Médicos estão diagnosticando erroneamente o transtorno do espectro do autismo em muitas crianças com 18 meses de vida nascidas excessivamente prematuras, segundo um novo estudo norte-americano.

Em exames realizados meses mais tarde, os pesquisadores observaram que um grande percentual dos bebês diagnosticados com autismo naquela idade não era autista. Segundo a equipe de pesquisa, os bebês simplesmente apresentavam algum atraso cognitivo ou de linguagem, problemas comuns em crianças prematuras.

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Na opinião dos pesquisadores, a falha no diagnóstico pode ser causada pela prematuridade do exame. “Precisamos continuar observando estas crianças bem de perto. Elas correm alto risco de desenvolver diversos tipos de atrasos e dificuldades de comportamento, mas não se pode ter certeza, em idade tão tenra, de que o problema é realmente o autismo”, disse Bonnie Stephens, pediatra neonatal e comportamental do Women & Infants Hospital de Rhode Island e autora do estudo. “Devemos monitorá-los com o passar do tempo e talvez só seja possível diagnosticá-los com precisão alguns meses mais tarde”.

Muitos especialistas do setor neonatal seguem as recomendações da Academia Americana de Pediatria, de que toda criança entre os 18 e os 24 meses de vida deve passar por exames de imagem para a detecção do transtorno de espectro do autismo. Aquelas com resultados abaixo da média devem ser encaminhadas para exames adicionais de diagnóstico.

Atraso cognitivo

Segundo a pediatra, os índices de autismo estão aumentando nos Estados Unidos e aparentemente estes índices são ainda mais altos entre a população nascida excessivamente prematura. “Os primeiros estudos realizados mostraram índices aparentemente altos demais para serem possíveis e tais estudos foram revelados logo após o lançamento das recomendações da academia americana”, ela explica.

Entretanto, a médica diz que diversas coisas podem sair errado no início da vida de recém-nascidos, dentre elas algum atraso cognitivo e de linguagem. É bem provável que muitos diagnósticos com resultados positivos estejam incorretos. Tal hipótese acabou sendo comprovada, pelo menos através da pequena amostra do estudo realizado com recém-nascidos do hospital onde a autora do estudo trabalha. Os bebês participantes do estudo foram monitorados durante os primeiros 30 meses de vida. Eles nasceram antes da vigésima oitava semana de gestação e foram diagnosticados com o transtorno do espectro do autismo através de três exames diferentes, aos 18 meses e aos 30 meses de vida (com idades corrigidas para a prematuridade).

Na primeira avaliação, um total de 18% de 152 bebês avaliados foi diagnosticado com transtorno do espectro do autismo, enquanto que no trigésimo mês, apenas 10% de 116 crianças tiveram o mesmo diagnóstico.

“Observamos uma queda significante no número de resultados positivos”, disse a médica. Ela ressalta que as descobertas ainda são preliminares, mas que a pesquisa continua e sua equipe já planeja a realização de um ensaio com uma amostra maior.

No final, apenas 3% das crianças obtiveram resultado negativo nos três exames por imagem realizados aos 18 meses e aos 30 meses de vida. Os exames realizados mais tarde mostraram que tais crianças acabaram sendo diagnosticadas com o transtorno do espectro do autismo.

Contra a tendência

Bonnie diz que os bebês que obtiveram resultado positivo em alguns exames de autismo aos 18 e aos 30 meses de vida realmente apresentavam algum atraso cognitivo e de linguagem. “É importante realizar o diagnóstico mais cedo, mas um alto índice de resultados falsamente positivos pode causar um estresse desnecessário aos pais. Este grupo de crianças recém-nascidas foi acompanhado tão de perto por nossa equipe que, de qualquer maneira, todas elas acabaram recebendo intervenções logo no início (para tratar de outros problemas) . A identificação de um exame positivo nos primeiros meses de vida pode não ser tão crucial como a realização de um diagnóstico preciso mais tarde”, disse a pediatra Bonnie.

A pesquisa foi apresentada em Denver no início do mês, durante o encontro anual das Sociedades Acadêmicas de Pediatria dos Estados Unidos. Estudos apresentados em encontros médicos devem ser considerados preliminares, pois não passaram pela avaliação rigorosa que antecede a publicação em periódicos científicos revisados por profissionais da área.

Os resultados do estudo vão contra uma tendência atual de pesquisas sobre o transtorno do espectro do autismo. Estas pesquisas consideram a prematuridade como um possível fator de risco para o autismo, disse Cynthia Johnson, diretora do Centro do Autismo do Hospital Infantil da Universidade de Pittsburg. “Ainda precisamos de medidas para identificar bebês prematuros que podem acabar tendo algum problema cognitivo de linguagem, mas não necessariamente aqueles característicos do autismo”.

Para Cynthia, adiar o diagnóstico faz sentido. “Muitas vezes é preciso aguardar um pouco para ver o que vai acontecer. Se existem suspeitas de um diagnóstico positivo de autismo, a família deve ser informada. Mas saberá que seu filho corre risco de desenvolver algum problema, não somente o autismo. Além disso, a ciência ainda não tem uma resposta definitiva sobre o tema”.

(Tradução: Claudia Batista Arantes)


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