Elas tiveram vontade de comer quibe com iogurte, manga com pamonha e até esponja de lavar louça. Mas a urgência destes desejos é física ou psicológica?

Renata Weiss mostra sua iguaria favorita durante a gestação da primeira filha: quibe embebido em queijinho petit suisse
David Santos Jr/ Fotoarena
Renata Weiss mostra sua iguaria favorita durante a gestação da primeira filha: quibe embebido em queijinho petit suisse
Os estudiosos ainda não encontraram uma explicação definitiva para os famosos desejos de grávidas. Mas muitas mulheres vêm seus hábitos alimentares transformados ao engravidar ( veja como os desejos por sabores específicos se transformam ao longo dos nove meses ). “Em geral, o aumento dos hormônios, principalmente a progesterona, gera alterações cerebrais capazes de fazer a mulher sentir desejos estranhos”, explica a ginecologista Rosa Maria Neme, diretora do Centro de Endometriose São Paulo. A deficiência de alguns minerais, como ferro, também pode desencadear estes desejos e fazer a gestante ter vontade de consumir ferro em alimentos ou objetos. Quem nunca ouviu a história clássica de uma prima ou vizinha grávida que queria chupar pregos?

Este instinto natural de proteção fez a gerente de negócios Renata Montenegro de Menezes, prestes a dar à luz, mudar completamente sua alimentação. “Amo feijão e café, mas agora não posso nem sentir o cheiro. Suco só consigo tomar natural, de caixinha ou latinha não descem! Sushis de pepino e kani também foram meu companheiros pela gravidez inteira”, conta a futura mamãe.

Os desejos e repulsas de Renata não foram fora do normal, daqueles que viram histórias a ser contadas para primas e vizinhas. Já a estudante de pedagogia Renata Weiss não pode dizer o mesmo. Durante a gravidez de sua primeira filha, ela só queria saber de comer uma iguaria rara: quibe embebido em queijinho petit suisse. Daqueles de morango. “Por quatro meses, era só o que eu conseguia comer sem enjoar. Nunca mais comi depois de ter a minha filha, nem nas duas vezes em que fiquei grávida de novo”, diz.

O desejo de Renata foi realmente esquisito, mas ao menos envolvia alimentos. Durante a gestação, a analista de comunicação Karen Bortolini se deliciou com um pão francês quentinho besuntado de... pasta de dente! “Estava uma delícia. Um combinado perfeito de crocância e refrescância!”, diverte-se. Depois do parto, esta harmonização maluca nunca mais foi degustada. “Não existe explicação para os desejos sob o ponto de vista médico”, afirma o ginecologista Alexandre Pupo Nogueira, do Núcleo de Mastologia do Hospital Sírio Libanês (SP). Embora os desejos de grávidas possam ser realmente os mais loucos possíveis, a história de que o bebê pode nascer parecido com o objeto de desejo não passa de invenção popular. “Se matar o desejo pode fazer mal à mulher, ela deve esperar a vontade passar”, ele aconselha.

[]Ao ouvir a avó dizer que a criança nasceria com a boca aberta, a estudante Márcia Prado Passos achou melhor não deixar de matar nenhuma vontade durante a gravidez. Mas seus desejos não foram nada comuns. Eles começaram no sexto mês, com uma vontade irresistível de beber aquele líquido esbranquiçado do arroz em cozimento. Depois, vieram o biscoito recheado picado com purê de batatas, a manga com pamonha e, a mais esquisita de todas, uma esponja de lavar a louça! “Minha avó me deu uma esponja nova, joguei fora a parte verde e comi a amarela. Depois vomitei tudo, mas isso acontecia com qualquer coisa que eu comia”, conta.

“Ainda se sabe pouco sobre tudo o que acontece com a mulher quando ela fica grávida. Mas estas transformações são influência do físico, do psíquico e da cultura”, enumera a psicóloga Luciana Blumenthal, da clínica Elipse (SP). Como ouvimos, desde pequenas, que mulheres grávidas sentem desejos, é natural ficarmos sugestionadas a sentir o mesmo. “Não é uma invenção, acontece sem percebermos”, ela alerta. Luciana não descarta, em alguns casos, a tentativa – por vezes inconsciente – de chamar a atenção e testar até onde vai a disposição do pai do bebê. “Acho legítimo. Que mulher não quer ser paparicada?”.

Calendário de desejos

Um estudo conduzido por Valerie Duffy, professora da Universidade de Connecticut, mostrou como o paladar das mulheres grávidas vai se transformando no decorrer dos nove meses. Veja se as conclusões da pesquisadora não soam familiares:

- No segundo e terceiro trimestres , as mulheres costumam preferir sabores azedos. Assim como a vontade de doce, a de azedo ajuda a variar a dieta ao final da gravidez. Isso colabora para o consumo calórico esperado. Cobiçar alimentos azedos também pode explicar a clássica vontade de conservas.

- Com o passar dos meses, grávidas vão sentindo cada vez mais vontade de salgados . Como durante a gestação o volume de sangue vai crescendo progressivamente, o desejo pode estar ligado a uma maior necessidade de sódio.

- Ao longo do primeiro trimestre , a percepção do sabor amargo aumenta. Como muitas plantas e frutas tóxicas têm sabor amargo, esta pode ser uma reação de defesa contra intoxicações durante a fase crítica do desenvolvimento fetal. Curiosamente, a aversão ao amargor diminui até o terceiro trimestre, quando os períodos cruciais de desenvolvimento já acabaram.

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