A psicoterapeuta Malu Favarato Feitosa viveu a experiência da depressão e transformou sua história em livro

Malu Favarato e a filha: superação da depressão pós-parto com ajuda do livro
David Santos Jr / FotoArena
Malu Favarato e a filha: superação da depressão pós-parto com ajuda do livro
Apesar de ter desejado muito a gravidez – a ponto de passar por tratamentos de fertilização durante dois anos, mas por fim engravidar naturalmente – a psicoterapeuta Malu Favarato Feitosa foi surpreendida pela depressão pós-parto, condição psicológica caracterizada pela tristeza profunda e pela sensação de ser incapaz de cuidar do bebê. “Desejei muito ser mãe, mas tudo que conseguia fazer naquele momento era chorar desesperadamente”, relembra ela.

Calcula-se que o mal atinja de 10% a 20% das mulheres, na maioria delas manifestando-se nos primeiros três meses do bebê. Mas não são só elas que apresentam o problema: uma recente pesquisa britânica apontou que um a cada cinco homens também sofre com a depressão pós-parto . Malu superou a sua com tratamento psiquiátrico combinado a terapia. Hoje, Helena – sua filha de 7 anos – é sua grande companheira. E Malu, que deu o depoimento abaixo, assina o "Diário de uma Mulher do Purgatório ao Paraíso", em que conta sua história de superação.

“A gravidez foi planejada, desejada, esperada... Após dois anos de intensa investigação em reprodução assistida, engravidei naturalmente em 2002. Hoje Helena tem 7 anos e é minha única filha. Sou psicoterapeuta e nunca trabalhei com mulheres com depressão pós-parto.

Na época em que engravidei e passei pelo problema, trabalhava com os aspectos psicológicos que envolvem a infertilidade e reprodução assistida, bem como as curas para o feminino ferido, através da simbologia dos mitos gregos. Eu já conhecia o assunto na teoria, mas fui completamente surpreendida ao vivê-la.

O que se sente quando se está com depressão pós-parto são os mesmos sintomas de um quadro comum de depressão, tendo o agravante que você tem uma nova vida nos seus braços que depende inteiramente de você. Eu senti isso... Na forma de uma tristeza profunda e muitas vezes sem motivo aparente. É uma dor na alma, algo tão profundo que parece faltar o ar. Eu chorava o dia todo e por qualquer coisa; sentia muita insegurança e tinha certeza de que não seria capaz de cuidar da minha filha. Vivia com o pressentimento de que algo horrível aconteceria a ela. Sentia-me abandonada, impotente, paralisada. De uma hora para outra a vida tornou-se cinza, sem brilho, sem razão. E isso me fazia sentir uma enorme culpa, pois desejei muito ser mãe e tudo que conseguia fazer naquele momento era chorar desesperadamente.

Eu não via saída para nada e viver cada dia era uma tortura. Ao contrário do que é comum, eu nunca rejeitei meu bebê, nem os cuidados com ela. Mas vivia a angústia de não saber o que fazer além de tê-la nos braços e chorar. Soube que era depressão pós-parto muito rapidamente, talvez por ser psicóloga e ter conhecimento prévio do assunto. Mas não conseguia fazer ninguém ao meu redor acreditar nisso. Passaram-se quase dois meses até que me levassem ao psiquiatra – o médico que deve diagnosticar o mal e medicar, quando necessário – pois eu não tinha condições de ir sozinha. A partir daí o diagnóstico foi simples e evidente. O tratamento foi com antidepressivos e psicoterapia e a superação foi se construindo dia a dia, lentamente. Foram 12 meses de medicação e muito mais do que isso de terapia, parte fundamental do tratamento.

Saber que estava doente por ser psicóloga e, mesmo assim, não ter forças para procurar o tratamento que eu sabia ser necessário gerou muita angústia. E acho que a angústia de não saber o que está acontecendo com você e ver sua vida virar de cabeça para baixo também não é fácil. Por isso resolvi escrever um livro, a partir da necessidade de destruir os mitos em torno desta doença, esclarecê-la e quebrar preconceitos. Comecei a imaginar um tipo de leitura que pudesse envolver alguém deprimido (o que não é fácil, pois a concentração diminui, principalmente quando você tem um bebê para cuidar) e também despertasse o interesse das pessoas próximas à mamãe. Logo, uni a narrativa leve, em forma de diário, relatando a minha história, ao didatismo, orientando os envolvidos sobre a doença – suas causas, o tratamento etc.

Todas as mulheres estão sujeitas a ter depressão pós-parto, mas existe um grupo de risco com maior probabilidade de manifestá-la: quem tem um histórico de transtornos psiquiátricos anteriores. Depressão ou a própria depressão pós-parto, por exemplo, são alguns deles. Há inúmeros outros fatores e posso citar alguns: ser mãe na adolescência ou ter mais de 30 anos na primeira gestação; situações estressantes durante os últimos 12 meses; desequilíbrios hormonais; dificuldades conjugais; estar desempregada ou com a carreia em risco devido à gravidez; ter um bebê do sexo oposto ao esperado; ser instável emocionalmente ou ser perfeccionista, entre muitos outros.

Cada gestação tem sua história e o peso de cada fator é diferente de gravidez para gravidez, de mulher para mulher ou para a mesma mulher em diferentes momentos da vida. Por isso que a prevenção é de grande importância. O acompanhamento médico pode detectar sintomas já na gestação, evitando assim que a doença se manifeste, amenizando sofrimento para mães, pais e principalmente para o bebê, que pode ter vários problemas de desenvolvimento se a mãe continuar deprimida por muito tempo.

Em todo o mundo, entre 10 a 20% das mulheres sofrem de depressão pós-parto, que pode iniciar a qualquer momento, mas frequentemente se manifesta nos três primeiros meses após o nascimento do bebê. E ela pode durar anos, se não tratada. Meu maior aprendizado nesta experiência é que a depressão pós-parto é uma doença, ela tem cura e a informação é o caminho mais curto para amenizar o sofrimento de muitas famílias. É possível superar o preconceito (dos outros e de si mesma) de estar doente quando tudo o que se espera de você é que esteja realizada por ser mãe. Por esse motivo, quanto antes procurarmos ajuda médica e terapêutica, mais rápido a maternidade será vivida plenamente.”

(Depoimento para Cáren Nakashima. Para comprar o livro, entre em contato com a autora )

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