Semelhante à bronquite e à rinite, doença se manifesta na pele e costuma desaparecer antes dos 5 anos. Mas casos graves geram transtornos

Os primeiros sinais surgem no rosto: bolinhas vermelhas que vão aumentando de tamanho e, com o passar do tempo, ganham “vizinhas”. Pais e “tias” costumam culpar o excesso de calor ou de frio e buscam uma forma caseira de abrandar. Mas logo braços e pernas também apresentam lesões e pais atentos buscam ajuda médica, que nem sempre concede os esclarecimentos necessários. Assim costuma ser o início da história de quem sofre com dermatite atópica, uma doença hereditária e crônica que atinge 10% a 25% das crianças com até sete anos, segundo dados da Associação de Apoio à Dermatite Atopica (AADA), fundada em 1997.

O aparente descaso de médicos, que muitas vezes se limitam a indicar hidratação sem detalhar de fato a doença, tem explicação: na maioria dos casos, a dermatite desaparece antes de a criança completar cinco anos, da mesma forma repentina com que surgiu – apenas 10% dos casos persistem na vida adulta. Além disso, nas manifestações mais brandas, a doença não acarreta grandes preocupações ao paciente e à família. Por outro lado, casos graves geram um grande transtorno, ainda que esta não seja uma doença mortal, e não raro são confundidos como outras enfermidades.

Dermatite: cartilha esclarece sintomas da doença e como tratá-la
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Dermatite: cartilha esclarece sintomas da doença e como tratá-la
Foi o que aconteceu com Beatriz, de dez anos, que aos dois anos e meio foi levada às pressas ao hospital. A mãe, a arrumadeira Luziana Aparecida Vieira dos Santos, de 33, conta que a doença surgiu de repente e de forma violenta. “O rosto, o pescoço e a virilha ficaram vermelhos e cheios de bolinhas. Ela se coçava muito e começaram a se formar feridas. Passei por vários pediatras e postos de saúde e em cada lugar me falaram que era uma coisa, até sarna”, lembra a mãe, que nessa busca pela melhora da filha utilizou várias pomadas e remédios, sem melhora.

Quando o caso de Beatriz estava muito grave e as feridinhas “minavam” água, um dos sintomas do estágio mais severo da dermatite, a menina foi internada. ”Ela estava muito inchada, não queria comer nada”, conta a mãe. Foi por acaso que o pai comentou a patologia com um médico no corredor do hospital, que se ofereceu para avaliar a criança. “Foi o primeiro a dar o diagnóstico correto e nos encaminhou a um alergista”, relata Luziana.

Foi só então que Beatriz tomou a medicação correta para combater a crise da doença e começou um tratamento homeopático, além de mudar seu estilo de vida. Foram cortados todos os alimentos industrializados da alimentação da garotinha, que também precisou ter o quarto livre de tapetes e bichinhos, além de ficar longe de roupas de lã e ter os lençóis da cama trocados todos os dias.

Atualmente, a dermatite de Beatriz está sob controle e a prevenção é feita com a ajuda da própria criança. “No começou foi difícil, mas hoje ela mesma já sabe o que pode ou usar, comer ou vestir”, conta Luziana.

Tríade atópica

A dermatite atópica faz parte da chamada tríade atópica. São três doenças alérgicas que têm características semelhantes, mas sintomas diferentes: a rinite, a bronquite e a dermatite. E as doenças também têm relação entre si: quando um dos pais tem uma delas, a criança tem 25% de chance de apresentar alguma também, em algum momento da vida. Quando os dois pais tiveram uma das doenças, as chances sobem para 50%. Como no caso das outras enfermidades, mais conhecidas, quem tem dermatite não está doente ou curado, mas sim passa por ciclos em que a doença se manifesta ou fica sob controle.

Mudanças bruscas de temperatura, tempo seco, ácaros, pó, determinados alimentos, substâncias que causam alergia (como perfumes) e até fatores emocionais podem desencadear a doença, que se manifesta na pele e não na respiração, apesar de 50% dos atingidos apresentarem também rinite e/ou bronquite.

“Além da pele seca e descamativa, a coceira intensa é uma das características mais marcantes da enfermidade, inclusive atrapalhando o sono do paciente”, explica o dermatologista Roberto Takaoka, presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atopica. O médico menciona que a doença é mais comum em centros urbanos e países desenvolvidos. “Há várias teorias para explicar essa incidência e fatores como a poluição e o excesso de higiene no trato da criança são apontados como possíveis responsáveis pelo surgimento de mais casos em países como Japão e Noruega”, diz ele.

A associação presidida por Takaoka foi criada para divulgar informações que ajudem no controle da doença e também para dar apoio psicológico à família e ao portador. Para tanto, são distribuídos materiais didáticos (também disponíveis no site da instituição) e realizadas reuniões mensais no Hospital das Clínicas de São Paulo, que recebe médicos, pacientes e familiares. Ali, alem de orientação, são compartilhados problemas decorrentes da doença, muitos deles inimagináveis para quem não a enfrenta.

O preconceito é um deles - por parte das outras crianças, que zombam do aspecto do atópico, ou de adultos, que erroneamente temem que a doença seja contagiosa. A iniciativa hoje existe em outras cidades, que seguem o mesmo modelo: Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia, Santo André, Rio de Janeiro, Brasília, Florianópolis, Fortaleza e Sorocaba.

Prevenção e tratamento

Como nas demais formas de alergia, o melhor é tentar prevenir a aparição da doença. A hidratação intensiva da pele, com um hidratante adequado indicado pelo pediatra ou dermatologista, é fundamental. Há outros cuidados indispensáveis: evitar tapetes, carpetes, cortinas e bichos de pelúcia, manter a casa limpa e arejada e postergar o consumo de alimentos com potencial alergênico, como leite de vaca, frutos do mar e ovos.

Os “causadores” da alergia, no entanto, podem variar de paciente para paciente e conhecer a própria doença é uma boa forma de preveni-la. Como nas outras doenças atópicas, a homeopatia também é muito procurada para o controle da dermatite, ainda que os resultados efetivos dividam as opiniões dos especialistas.

Quando a doença ataca, antialérgicos e pomadas à base de corticóides costumam ser os medicamentos mais comuns, mas não devem ter uso prolongado por conta dos efeitos colaterais importantes. Há pouco tempo novas medicações, os imunomoduladores tópicos, chegaram ao mercado como forma de controlar a dermatite sem os efeitos colaterais dos corticóides, mas muitos ainda estão em fase de teste. Em qualquer uma das situações, todo tratamento deve ser avaliado caso a caso por um especialista.

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